Dom Estêvão Bittencourt: teólogo e “defensor da fé” tem causa de beatificação anunciada

Durante a reunião do Conselho Arquiepiscopal do Rio de Janeiro, no dia 5 de maio de 2026, o arcebispo metropolitano, Cardeal Orani João Tempesta, anunciou a abertura da causa de beatificação do monge beneditino Dom Estêvão Bittencourt.

O anúncio, aguardado por membros do clero, religiosos e leigos nas últimas décadas, foi detalhado pelo vigário episcopal para a Vida Consagrada e delegado arquidiocesano para a Causa dos Santos, Dom Roberto Lopes, que destacou não apenas os aspectos formais do processo, mas, sobretudo, a relevância espiritual, intelectual e pastoral da figura do religioso.

Descrito como “carioca, carioquíssimo”, Dom Estêvão é apresentado como alguém profundamente identificado com a cidade onde nasceu, viveu e desenvolveu sua missão. “Era possível perceber até no jeito de falar o quanto amava profundamente o Rio de Janeiro”, afirmou Dom Roberto, ao recordar a personalidade marcante do monge. Essa ligação afetiva com a cidade se refletia também em sua dedicação à Igreja local, onde atuou intensamente até os últimos dias de sua vida.

A iniciativa de abertura da causa, no entanto, não surgiu de forma repentina. Segundo o vigário episcopal, trata-se de um desejo amadurecido ao longo do tempo. Já em 2015 houve uma primeira tentativa de encaminhar o processo, precedida, inclusive, por estudos iniciais e mobilizações internas. Dom Roberto relata que foram colhidas assinaturas de bispos e manifestações de apoio durante encontros episcopais, envolvendo membros da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, além de padres e fiéis. Apesar disso, dificuldades estruturais e administrativas impediram o avanço naquele momento.

Agora, com a aprovação do Capítulo e do Conselho da Abadia, a causa ganha novo impulso. O Mosteiro de São Bento assume oficialmente o papel de autor da causa, cabendo à Arquidiocese do Rio de Janeiro conduzir as etapas iniciais em comunhão com Roma. “É hora de começar a articular a documentação e preparar o envio para que seja avaliada a possibilidade da abertura oficial”, explicou Dom Roberto. O processo seguirá as etapas previstas, com nomeação de postulador, tribunal e equipe responsável pela análise histórica e teológica.

Nascido como Flávio Tavares de Bittencourt, em 16 de setembro de 1919, Dom Estêvão teve uma formação considerada excepcional desde a juventude. Ele passou por períodos de estudo em Paris e, posteriormente, foi enviado a Roma, onde cursou Filosofia e Teologia no Instituto Santo Anselmo, aprofundando-se depois no Instituto Bíblico. Essa trajetória acadêmica sólida contribuiu para a construção de um pensamento teológico reconhecido não apenas no Brasil, mas também no exterior.

Dom Roberto destaca que toda essa formação foi colocada a serviço da Igreja. “Podemos dizer que foi um monge profundamente zeloso. Tudo o que produziu foi pensado para o bem da Igreja”, afirmou. De acordo com ele, Dom Estêvão não se limitou à vida monástica, mas atuou intensamente na formação teológica de leigos, religiosos e membros do clero.

Entre suas principais contribuições está a obra “Pergunte e Responderemos”, uma revista criada com o objetivo de tornar acessível o conhecimento teológico. “A grande preocupação dele era a formação dos leigos e das religiosas, que muitas vezes não tinham acesso à filosofia e à teologia”, explicou Dom Roberto. Com o tempo, o material ganhou ampla difusão e passou a ser utilizado também em seminários e centros de formação.

Outra iniciativa relevante foi a criação da Escola Mater Ecclesiae, voltada à formação teológica em língua portuguesa. Segundo o vigário, o projeto demonstrava a visão ampla de Dom Estêvão, que não se limitava ao contexto local. Sua atuação alcançou também países africanos e comunidades internacionais, consolidando seu reconhecimento como teólogo respeitado.

A influência do monge se estendeu ainda ao governo da Igreja. Ele manteve estreita colaboração com o Cardeal Eugênio de Araújo Sales, que confiava em sua análise teológica. “Tudo que precisava estudar ou assinar, ele só fazia depois que Dom Estêvão analisava”, relatou Dom Roberto, mencionando documentos que registram essa parceria.

O anúncio da abertura do processo, feito por Dom Orani, gerou entusiasmo entre os sacerdotes. Segundo Dom Roberto, há um consenso sobre a relevância da causa. Ele observa, de forma indireta, que a figura de Dom Estêvão reúne reconhecimento amplo dentro da Igreja, o que fortalece o andamento do processo.

Do ponto de vista estrutural, o trabalho contará com o apoio do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, que possui um acervo documental organizado ao longo de sua história. Esse material será fundamental para a análise histórica da vida do monge, permitindo reconstruir não apenas sua trajetória, mas também seu itinerário espiritual.

Esse aspecto, aliás, é considerado central no processo. Mais do que analisar a produção intelectual, a Igreja busca identificar sinais concretos de santidade. Dom Roberto enfatiza que Dom Estêvão viveu uma espiritualidade intensa, marcada pela oração, pela disciplina e pela humildade. “Nunca convivi com um monge tão asceta e místico”, afirmou, recordando o período em que esteve próximo ao religioso.

Mesmo nos últimos anos, já debilitado fisicamente, Dom Estêvão manteve sua dedicação ao trabalho intelectual. Utilizando uma antiga máquina de escrever, continuou produzindo textos até pouco antes de sua morte, em 2008. O material deixado foi suficiente para publicações que se estenderam meses após seu falecimento, evidenciando sua perseverança.

A análise das virtudes heroicas será uma etapa decisiva. Segundo o vigário episcopal, há indícios consistentes de uma vida marcada pela obediência, pela retidão e pelo serviço à Igreja desde a juventude. Esses elementos serão examinados com rigor ao longo do processo canônico.

Ao refletir sobre o legado de Dom Estêvão, o vigário episcopal o define como “um grande defensor da fé”. Ele compara sua relevância à de figuras clássicas da teologia, destacando sua capacidade de unir profundidade intelectual e vida espiritual. Para Dom Roberto, trata-se de um exemplo necessário para a Igreja contemporânea.

A abertura da causa também reacende o debate sobre o papel dos intelectuais católicos na atualidade. Dom Roberto avalia, de forma indireta, que a obra de Dom Estêvão permanece atual por sua capacidade de formar consciências e responder aos desafios do mundo moderno. Seu legado ultrapassa o contexto histórico em que viveu, tornando-se referência para novas gerações.

Por fim, o processo tem um significado especial para o Rio de Janeiro. Ao lado de outras causas em andamento, reforça a identidade espiritual da cidade. “Ele vem somar para algo tão belo, mostrar que o Rio de Janeiro também é terra de santos”, concluiu Dom Roberto, sintetizando o sentimento que marca o início desta nova etapa na vida da Igreja local.

 

Carlos Moioli

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