Colunas da Igreja que fecundam a vida cristã!
A Igreja veste-se de vermelho, a cor do sangue e do fogo do Espírito Santo, para celebrar a Solenidade de São Pedro e São Paulo. Nós não celebramos hoje dois heróis inatingíveis ou figuras mitológicas. Nós celebramos dois homens reais, de carne e osso, que o Senhor escolheu para serem as colunas mestras da nossa fé. Roma, a capital do antigo império pagão, guarda os túmulos desses dois gigantes. Eles não conquistaram a cidade com espadas ou exércitos, mas com o testemunho supremo do martírio. Pedro entregou a sua vida crucificado de cabeça para baixo; Paulo derramou o seu sangue decapitado pela espada romana. O sangue desses dois apóstolos fecundou a terra e consolidou para sempre os alicerces da Igreja de Cristo.
Para compreendermos a força dessa festa, precisamos olhar para as diferenças radicais entre esses dois homens. Deus possui um senso de eleição que desafia completamente a lógica humana. Pedro era um pescador da Galileia, um homem simples, rude, de poucas letras e de temperamento impulsivo. Paulo era um intelectual brilhante, um fariseu rigoroso, formado aos pés dos melhores mestres de Jerusalém e cidadão romano. Pedro negou Jesus três vezes por medo de uma criada na noite da Paixão. Paulo perseguiu a Igreja nascente com violência cega e consentiu na morte do primeiro mártir, Santo Estêvão. Pelos critérios do mundo, ambos eram péssimos candidatos para liderar um império espiritual. No entanto, a graça de Deus atropela as nossas fragilidades. O encontro pessoal com Jesus Cristo ressuscitado transformou o pescador medroso no pastor universal e o perseguidor implacável no maior missionário de todos os tempos.
O Evangelho de São Mateus (Mt 16,13-19) nos leva diretamente ao ponto de virada na vida de Pedro. Jesus conduz os seus apóstolos à região de Cesareia de Filipe, um centro dominado pelo culto aos deuses pagãos e ao imperador romano. Nesse cenário de idolatria, Jesus faz a pergunta que define o destino de todo ser humano: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”. Os apóstolos relatam as opiniões da multidão: alguns dizem João Batista, outros Elias, outros Jeremias. A multidão enxerga Jesus apenas como um grande homem, um profeta ou um líder moral. Mas Jesus não aceita respostas de segunda mão. Ele olha nos olhos dos doze e dispara a pergunta definitiva: “E vós, quem dizeis que eu sou?”.
Nesse momento crucial, Pedro toma a palavra e professa a fé que sustenta a Igreja até hoje: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo”. Pedro não descobre essa verdade pela sua própria inteligência. Jesus declara imediatamente que essa revelação desceu do próprio Pai do Céu. E, com base nessa profissão de fé, Jesus muda o nome do apóstolo e define a sua missão: “Tu és Pedro, e sobre esta pedra construirei a minha Igreja, e o poder do inferno nunca poderá vencê-la”. Prestem atenção na força dessas palavras. Jesus não constrói a Sua Igreja sobre a perfeição moral de Pedro, mas sobre a fé que ele professou. O Senhor garante que as portas do inferno, ou seja, as forças da morte, da mentira e da destruição, jamais prevalecerão sobre a Igreja. O mundo pode atacar, as perseguições podem tentar esmagar, os escândalos internos podem ferir, mas a Igreja de Cristo permanece inabalável porque o próprio Cristo a sustenta. Jesus entrega a Pedro as chaves do Reino dos Céus, conferindo-lhe a autoridade suprema para guiar, ensinar e confirmar os irmãos na fé.
No entanto, essa autoridade não significa uma vida isenta de sofrimento. A Primeira Leitura, retirada dos Atos dos Apóstolos (At 12,1-11), retrata de forma dramática a cruz que acompanha o primado de Pedro. O rei Herodes Agripa decide destruir a liderança da Igreja. Ele mata o apóstolo Tiago e lança Pedro na prisão, acorrentado entre dois soldados, aguardando a execução. O texto nos oferece um detalhe extraordinário sobre a reação da comunidade cristã. A Igreja não organiza um protesto violento. A Igreja não forma uma milícia para invadir o cárcere. A Igreja faz aquilo que possui de mais poderoso: ela reza. “A Igreja rezava continuamente a Deus por ele”. A oração fervorosa da comunidade rasga os céus. Deus envia o seu anjo, a luz brilha na cela escura, as correntes caem das mãos de Pedro e os portões de ferro se abrem sozinhos. Deus intervém onde a força humana falha. A libertação de Pedro prova que o Senhor governa a história e que nenhuma prisão humana pode deter o avanço do Evangelho.
Enquanto Pedro consolida a Igreja através da sua autoridade pastoral, Paulo expande as fronteiras da fé através do seu ardor missionário. A Segunda Leitura (2Tm 4,6-8.17-18) nos entrega o testamento espiritual do Apóstolo dos Gentios. Paulo escreve de uma masmorra fria em Roma, aguardando a sua sentença de morte. Ele sabe que o fim chegou. Ele não demonstra desespero, mas uma paz soberana. Ele declara com uma dignidade cortante: “O meu sangue está para ser derramado em libação… Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé”. Paulo não contabiliza os seus sucessos humanos ou o número de comunidades que fundou. Ele contabiliza a sua fidelidade absoluta a Cristo. Ele relata o abandono que sofreu durante o seu julgamento. Ninguém o defendeu. Todos o abandonaram. Mas ele proclama a vitória final: “O Senhor, porém, esteve ao meu lado e me deu forças”. Paulo reconhece que a verdadeira coroa da justiça não pertence àqueles que vencem segundo o mundo, mas àqueles que amam e aguardam a manifestação gloriosa do Senhor.
A festa de São Pedro e São Paulo nos confronta diretamente com a realidade da nossa própria fé. A Igreja precisa da firmeza de Pedro e do fogo de Paulo. Ela precisa da tradição que nos mantém ancorados na verdade e do impulso missionário que nos lança às periferias do mundo. Nós recebemos a mesma missão desses dois apóstolos. O mundo de hoje continua construindo os seus ídolos em modernas Cesareias de Filipe. O mundo exige de nós uma resposta clara. Quem é Jesus Cristo para você? Ele é apenas um personagem histórico, ou Ele é o Senhor absoluto da sua vida, do seu casamento, da sua família e dos seus negócios?
Se você responder com a fé de Pedro, prepare-se para enfrentar o mundo com a coragem de Paulo. O cristão autêntico não foge do combate. Ele abraça a cruz, suporta as correntes da incompreensão e mantém a fé intacta diante das perseguições diárias. Nós carregamos o DNA desses mártires. Não permitam que o medo ou o comodismo silenciem a voz do Evangelho nas suas vidas. Defendam a fé católica com vigor, eduquem os seus filhos na verdade imutável de Cristo e vivam de modo a poderem dizer, no fim da vida, que combateram o bom combate.
Neste dia, celebramos também o Dia do Papa, o sucessor de Pedro. O Senhor continua guiando a Sua Igreja através do Santo Padre, o amado Papa Leão XIV, com quem estivemos reunidos em Consistório Ordinário, nestes dias em Roma. Renovamos nossa adesão ao seu Ministério Petrino e ao seu Magistério. A nossa resposta às tormentas que atingem a Igreja hoje deve ser a mesma da primeira comunidade de Jerusalém: a oração incessante. Rezem pelo Papa. Rezem pelos bispos e sacerdotes. Peçam a Deus que mantenha a Sua Igreja firme sobre a rocha. Que os méritos e a intercessão gloriosa de São Pedro e São Paulo nos fortaleçam na caminhada terrena, para que possamos, juntamente com eles, alcançar a coroa imperecível da vida eterna. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo!
Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ