Imagem histórica do padroeiro da Igreja de São Francisco de Paula retorna ao altar após restauração

A Igreja de São Francisco de Paula, no Centro do Rio de Janeiro, receberá de volta ao altar-mor a imagem de seu padroeiro após um minucioso processo de restauração que durou cerca de um ano. Datada do século XVIII, a escultura teve características artísticas reveladas após a retirada de uma repintura que escondia parte significativa da policromia e do douramento originais.

A conservadora-restauradora Cláudia Nunes, fiscal do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional no Rio de Janeiro (IPHAN-RJ), acompanhou o trabalho realizado na imagem. Segundo ela, antes da intervenção, a escultura apresentava a indumentária praticamente toda coberta por tinta preta. Um dos poucos elementos dourados visíveis era o medalhão no peito com a inscrição “Charitas”, palavra latina que significa caridade e está relacionada à espiritualidade de São Francisco de Paula.

“A imagem é do século XVIII e estava toda coberta por uma pintura. Aparecia apenas o medalhão no peito, que tinha o douramento e a inscrição ‘Charitas’. Ela também tinha uma rachadura em um dos braços”, explica Cláudia.

Durante a restauração, prospecções permitiram identificar o que havia sob a camada de tinta. A descoberta revelou uma ornamentação muito mais rica do que aquela conhecida pelo público.

“Os restauradores fizeram prospecções e descobriram que, embaixo dessa pintura preta que cobria a indumentária, havia todo um trabalho de policromia e douramento. Então, ela foi decapada e agora a gente a vê em todo o seu esplendor do século XVIII”, destaca.

O trabalho foi realizado dentro da própria Igreja de São Francisco de Paula, onde um ateliê foi instalado especialmente para a intervenção. Ao longo de aproximadamente um ano, os profissionais trabalharam na remoção da repintura, na recuperação das áreas de perda e no tratamento dos danos encontrados na escultura.

De acordo com Cláudia, retirar a camada acrescentada posteriormente sem atingir a pintura histórica exigiu especial cuidado. “Para remover toda essa repintura que havia por cima sem danificar a pintura original, é um trabalho muito delicado. Depois, é preciso integrar e fazer o douramento onde havia áreas de perda. O trabalho bem-feito é meticuloso e demorado”, ressalta.

A pintura preta que recobria a imagem estava relacionada a uma intervenção realizada no início do século passado, quando se difundiu uma concepção estética segundo a qual o hábito do santo deveria ser inteiramente escuro. Intervenções semelhantes foram realizadas em outras imagens religiosas.

“Era uma concepção da época, como se o hábito dele fosse preto. Só aquele medalhão no peito aparecia com o douramento. É muito comum a gente encontrar ainda hoje várias imagens assim. Foi uma moda”, explica Cláudia. Com a restauração, os desenhos e elementos dourados da vestimenta voltaram a ser percebidos, recuperando aspectos da riqueza artística da escultura setecentista.

Uma imagem ligada à história da igreja

A antiguidade da escultura também chama a atenção para sua relação com a própria história da Igreja de São Francisco de Paula. Daisy Gil Ketzer, assessora e membro da Comissão de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro e de seu Interesse, destaca a relevância histórica da peça.

“Embora não haja, até o momento, confirmação documental apresentada que permita afirmar categoricamente que se trata da primeira imagem do padroeiro utilizada no templo, sua datação aponta para a possibilidade de estar vinculada aos primeiros tempos da igreja. A pedra fundamental do templo foi lançada em 1759, e sua construção atravessou a segunda metade do século XVIII e o início do século XIX”, disse.

A recuperação da imagem ganha, assim, uma dimensão que ultrapassa o aspecto estético. A intervenção contribui para preservar um bem integrado à história religiosa, artística e cultural de uma das mais tradicionais igrejas do Centro do Rio de Janeiro.

Entronização e concerto

O retorno da imagem de São Francisco de Paula ao altar acontecerá no dia 18 de agosto de 2026, terça-feira, às 17h30, durante cerimônia de entronização presidida pelo arcebispo do Rio de Janeiro, Cardeal Orani João Tempesta.

“A imagem ocupa posição de destaque no altar-mor e será novamente elevada ao seu lugar por meio de um antigo mecanismo existente na estrutura. A entronização marcará simbolicamente a conclusão do trabalho de conservação e o retorno da escultura restaurada ao espaço que tradicionalmente ocupa na igreja”, explicou Daisy Ketzer.

A programação terá continuidade às 18h, com o Concerto Musical da Missa de São Francisco de Paula, composta por Henrique Alves de Mesquita em 1867. A apresentação dará vida a uma partitura inédita do maestro e compositor brasileiro do século XIX.

A celebração reunirá, portanto, duas importantes expressões do patrimônio histórico e cultural: a escultura setecentista de São Francisco de Paula, agora restaurada, e a música sacra de Henrique Alves de Mesquita. A iniciativa reforça o trabalho de preservação da memória artística e religiosa da igreja e permite que o público volte a contemplar detalhes da imagem que permaneceram escondidos durante décadas.

Carlos Moioli

 

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