A vitória da mulher do Apocalipse é, para a tradição cristã, a vitória da própria obra de Deus na história da salvação. Quem é a mulher vestida de sol que aparece no livro do Apocalipse? A antiga tradição cristã interpretou-a, antes de tudo, como figura da Igreja. Mais tarde, especialmente na liturgia da solenidade da Assunção, essa mesma imagem foi reconhecida também em Maria, precisamente porque nela a Igreja contempla a realização perfeita de sua própria vocação. Entre os primeiros intérpretes desse texto encontra-se Vitorino de Petóvio, cujo comentário oferece um dos mais antigos testemunhos patrísticos acerca dessa passagem.
O testemunho de Vitorino possui um valor singular por situar-se entre as primeiras grandes interpretações cristãs do Apocalipse. São Vitorino, mártir, viveu no século III e foi bispo na Alta Panônia, precisamente em Poetavium, hoje Ptuj, na Eslovênia. Esta cidade ficou conhecida nos tempos modernos sob seu nome alemão, Pettau. Portanto, o nosso santo é conhecido também como Vitorino de Pettau ou de Petóvio. Escreveu diversas obras exegéticas. Morreu durante a violenta perseguição desencadeada no final do reinado do imperador Diocleciano, por volta do ano 303.
Seu comentário ao Apocalipse permanece uma referência para compreender a riqueza teológica e simbólica do último livro da Escritura. Interessa-nos aqui o comentário de Petóvio ao capítulo 12 do Apocalipse. É precisamente a tradição patrística que ensina a ler o Apocalipse para além de uma interpretação puramente histórica. Efetivamente, como vimos em outros artigos, os comentários bíblicos patrísticos vão construindo paulatinamente os quatro sentidos da Escritura: o literal, o alegórico, o moral e o anagógico. Este último corresponde exatamente ao sentido escatológico do texto bíblico.
À luz dessa leitura espiritual, a mulher do Apocalipse torna-se o grande símbolo da vitória definitiva da Igreja. O capítulo que nos interessa trata justamente da Igreja simbolizada pela figura de uma mulher. Em determinado momento da história, a tradição cristã viu também nessa mulher vestida de sol a figura de Maria. Contudo, inicialmente, como tipo da Igreja, isto é, como imagem daquela que gera Cristo para o mundo. É nesta linha que se insere o comentário de Vitorino, acrescido de um olhar escatológico: a Igreja que conduz seus filhos à vida eterna em Deus. Assim, a vitória da mulher não consiste apenas em vencer o dragão, mas em perseverar como instrumento da vitória definitiva de Cristo na história.
A visão do templo aberto prepara a revelação da mulher e anuncia a presença salvífica de Cristo na história. No final do capítulo 11, lê-se: “Abriu-se o templo de Deus que está nos céus”, Ap 11,19. E Vitorino comenta: “O templo aberto é uma manifestação de nosso Senhor, pois o templo de Deus é o Filho, como Ele mesmo diz: ‘Destruí este templo, e em três dias o levantarei’. E quando os judeus disseram: ‘Este templo durou quarenta e seis anos em construção’, o evangelista disse: ‘Ele falou do templo do Seu corpo’. ‘E apareceu no Seu templo a arca da aliança’, isto é, apareceram a pregação do Evangelho e o perdão dos pecados e todos os dons que vieram com Ele” (Victorino de Petovio. ‘Comentario al Apocalipsis y otros escritos’. Bilíngue latim-espanhol. Madri: Ciudad Nueva, 2008, p. 161-163, tradução nossa).
Sobre esse fundamento cristológico surge a mulher vestida de sol, cuja identidade Vitorino interpreta a partir da própria Igreja: “E viu-se um grande sinal no céu. Uma mulher vestida com o sol, tendo a lua sob seus pés, e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas. E estando grávida, ela gritava entre as dores de parto, atormentada para dar à luz”, Ap 12,1-2. Vitorino explica: “A mulher vestida de sol, que tinha a lua sob seus pés e usava uma coroa de doze estrelas em sua cabeça, e sofria em suas dores, é a antiga Igreja dos patriarcas, profetas, santos e apóstolos, que sofreu os tormentos pelo desejo do nascimento do Messias. Desse povo, Aquele que tinha sido prometido fez-se carne. Além disso, estar vestida com o sol significa a esperança da ressurreição e a promessa da glória. A lua significa o ocaso dos corpos dos santos sob a dívida da morte, que nunca pode falhar, pois, da mesma forma que a vida diminui, ela também aumenta. Tampouco se extingue a esperança dos que dormem, como pensam alguns, mas eles têm em suas trevas uma luz como a lua. A coroa de doze estrelas significa o coro dos patriarcas, de acordo com o nascimento carnal, de quem Cristo devia se encarnar” (p. 163-165).
O nascimento do Filho introduz o primeiro grande confronto entre a Igreja e as forças do mal: “O dragão postou-se diante da mulher que estava para dar à luz, a fim de devorar-lhe o filho, tão logo nascesse”, Ap 12,3-4. E Vitorino: “O dragão vermelho de pé é o diabo, a saber, o anjo traidor, que pensava que, pela morte, se poderia alcançar a destruição de todos os homens, porém Aquele que não nasceu da semente de varão, nada devia à morte; em razão disso, não o podia devorar, isto é, detê-lo na morte, pois ressuscitou ao terceiro dia. Certamente, também se aproximou dEle para tentá-Lo como homem, mas quando descobriu que não era o que pensava que fosse, afastou-se dEle, até o tempo propício, At 1,9. Donde se diz: ‘E seu filho foi arrebatado para Deus e para o Seu trono’, Ap 12,5. Lemos também nos Atos dos Apóstolos que, quando falava com os discípulos, Ele foi arrebatado aos céus. E Ele ‘há de reger todos os povos com cetro de ferro’, Ap 12,5: o cetro de ferro é a espada, pois todos os povos hão de estar sob as armas do Anticristo contra os santos, pois ambos, o Anticristo e os povos, cairão pela espada” (p. 165-169).
Mesmo perseguida, a mulher jamais é abandonada por Deus, que lhe concede proteção durante o tempo da provação: “‘Mas a mulher fugiu para o deserto com a ajuda das asas da grande águia’, Ap 12,6,14. A ajuda das asas da grande águia, a saber, o dom dos profetas, foi dada àquela Igreja Católica, na qual, nos últimos tempos, hão de crer cento e quarenta e quatro mil homens, graças a Elias, Ml 3,22-23. Além disso, ele aqui diz que o resto do povo deveria ser encontrado vivo na vinda do Senhor. E o Senhor diz no Evangelho: ‘Então, os que estão na Judeia fujam para as montanhas’, Lc 21,21, isto é, todos quantos foram reunidos na Judeia, que vão para o lugar que foi preparado, e que eles sejam sustentados ali por três anos e seis meses, longe do diabo. As duas grandes asas são os dois profetas: Elias e o profeta que há de acompanhá-lo” (p. 171-173).
“Houve uma batalha no céu: Miguel e seus anjos lutaram com o dragão; e o dragão guerreou com seus anjos, mas foi derrotado, e nem foi encontrado mais lugar para eles no céu. E aquele grande dragão foi expulso, a velha serpente, foi lançado à terra”, Ap 12,7-9. A batalha constante da Igreja para conduzir os homens a Deus e à vida eterna é a chave para a interpretação da figura do dragão, pois o sentido escatológico de um texto bíblico é a fé na vitória dos fiéis. “Este é o início da vinda do Anticristo, mas anteriormente Elias deve profetizar, e haverá tempos de paz. E depois, quando os três anos e seis meses forem completados na pregação de Elias, o Anticristo também deve ser lançado do céu, onde até aquele momento ele tinha o poder de ascender; e todos os anjos apóstatas. Que o Anticristo surge do inferno, o apóstolo Paulo diz deste modo: ‘Ninguém de modo algum vos engane, porque isto não se dará sem que antes venha a apostasia, e sem que tenha aparecido o homem do pecado, o filho da perdição, o qual se oporá a Deus e se elevará sobre tudo o que se chama Deus ou que é adorado, de sorte que se sentará no templo de Deus, apresentando-se como se fosse Deus’, 2Ts 2,3-4” (p. 173-175).
O Apocalipse não é um livro sobre o triunfo do mal, mas sobre a vitória da mulher. Essa mulher é, em primeiro lugar, a Igreja, revestida da glória da ressurreição, fecunda na geração dos filhos de Deus e sustentada pelo Senhor em meio às perseguições da história. O dragão combate incessantemente, mas jamais consegue destruir aquela que permanece unida a Cristo. Toda a interpretação de Vitorino converge para essa certeza escatológica: a Igreja sofre, combate e peregrina, mas já participa da vitória definitiva de seu Senhor.
É justamente por isso que a tradição cristã pôde reconhecer também Maria nessa mulher gloriosa. Se Maria é a imagem perfeita da Igreja, sua Assunção manifesta antecipadamente aquilo que aguarda todo o povo de Deus. Celebrar essa solenidade significa contemplar, à luz das fontes patrísticas, não apenas a glorificação da Mãe do Senhor, mas a vitória do Espírito de Cristo na Igreja inteira. A mulher vestida de sol permanece, assim, o grande sinal de esperança para todos os fiéis: nela Deus revela que o último capítulo da história pertence definitivamente à vida, à santidade e à vitória de Cristo.
Carlos Frederico Calvet da Silveira Professor da Universidade Católica de Petrópolis e da PUC-Rio.