A primeira edição do Encontro de Reitores de Santuários e Basílicas da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro foi realizada no Edifício São João Paulo II, na Glória, no dia 31 de julho de 2026.
Conduzido pelo arcebispo metropolitano, Cardeal Orani João Tempesta, o encontro reuniu responsáveis por esses importantes espaços de fé para um momento de formação, reflexão e partilha sobre a identidade, a missão e os desafios pastorais dos santuários e basílicas. Na data, a Arquidiocese do Rio contava com 25 santuários e oito basílicas.
Ao apresentar a proposta do encontro, Dom Orani ressaltou a importância de integrar essas realidades à caminhada arquidiocesana. “Este nosso encontro é uma valiosa oportunidade para fortalecer a comunhão, partilhar experiências, refletir sobre os desafios e as perspectivas da missão dos santuários e basílicas em nossa realidade pastoral e aprofundar a identidade desses importantes lugares de evangelização, acolhida e peregrinação, para que continuem sendo sinais vivos da presença de Deus em nossa Igreja Particular”, afirmou.
A programação foi estruturada em três conferências, contemplando as dimensões canônica, teológica e pastoral. O cônego Carlos Augusto Azevedo da Silva, vigário judicial adjunto do Tribunal da Arquidiocese do Rio, abordou “Os Santuários e as Basílicas no Código de Direito Canônico”; o bispo auxiliar do Rio, Dom Antônio Luiz Catelan Ferreira, apresentou “A Teologia dos Santuários e das Basílicas e o Documento de Aparecida à luz das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE) 2026-2032”; e o cônego Cláudio dos Santos e o padre Arthur José Torres da Conceição trataram de “A Pastoral dos Santuários e das Basílicas”.
Os Santuários e as Basílicas no Código de Direito Canônico
Em sua conferência, cônego Carlos Augusto explicou que santuários e basílicas não devem ser compreendidos apenas como edifícios religiosos de relevância histórica, artística ou arquitetônica, nem simplesmente como locais que recebem grande número de fiéis. Na perspectiva do Direito Canônico e da eclesiologia católica, constituem “verdadeiros polos de evangelização, de santificação do povo de Deus e de manifestação visível da comunhão eclesial”.
Ao aprofundar a identidade jurídica dos santuários, o sacerdote destacou a peregrinação como elemento essencial. Mais do que um deslocamento geográfico, ela representa “um itinerário espiritual de conversão”. O santuário, portanto, deve acolher aquele que chega e proporcionar condições para que sua peregrinação se transforme em experiência de fé e encontro com Deus.
Essa missão se concretiza no anúncio da Palavra, na celebração da Eucaristia e da Penitência, na direção espiritual, na catequese e nas formas aprovadas de piedade popular. Segundo a reflexão apresentada, não basta oferecer serviços religiosos de maneira mínima: os meios de salvação devem ser disponibilizados “abundantemente”. Nesse sentido, o reitor é convidado a avaliar permanentemente se o santuário é apenas um lugar visitado ou, de fato, “um verdadeiro lugar de encontro com Cristo”.
Cônego Carlos Augusto também distinguiu as diferentes naturezas de paróquia, santuário e basílica. Enquanto a paróquia está relacionada à cura pastoral ordinária de uma comunidade estável, o santuário é um lugar sagrado destinado às peregrinações e à evangelização dos peregrinos. Já a basílica é um título pontifício honorífico que manifesta especial vínculo com a Sé Apostólica. Uma mesma igreja, contudo, pode reunir as três condições.
Outro ponto destacado foi a responsabilidade dos reitores, que ultrapassa a administração dos espaços físicos. Eles são chamados a ser pastores, evangelizadores, ministros da reconciliação e guardiões da liturgia. A dimensão administrativa também exige transparência e responsabilidade, especialmente na gestão das ofertas, na conservação do patrimônio e na prestação de contas. “O patrimônio do santuário não pertence ao reitor. Nem pertence aos benfeitores. Pertence à Igreja”, ressaltou.
A Teologia dos Santuários e das Basílicas
A dimensão teológica foi aprofundada por Dom Antônio Catelan, que apresentou os santuários como lugares de encontro entre a iniciativa da graça de Deus e a resposta do peregrino. Para desenvolver essa perspectiva, recorreu a figuras bíblicas como Jacó, que experimenta o encontro com Deus e promete edificar um altar, e Ana, mãe de Samuel, apresentada como peregrina que se dirige ao santuário levando consigo um pedido e uma promessa.
A partir dessas experiências, Dom Catelan destacou que o santuário não deve ser entendido prioritariamente como resultado de uma iniciativa humana, mas como espaço no qual Deus vem ao encontro de seu povo. A reflexão alcançou o Templo de Jerusalém e sua releitura à luz do mistério de Cristo, compreendido como a grande morada de Deus no mundo, juntamente com aqueles que, em comunhão com Ele, formam seu Corpo, que é a Igreja.
Essa compreensão teológica, segundo o bispo, precisa produzir consequências concretas na pastoral. Entre elas estão o cuidado com o espaço sagrado, para que conduza à experiência de Deus; a qualidade humana da acolhida; a formação de todos os que trabalham no santuário; a celebração litúrgica com fidelidade e piedade; e a valorização da comunidade de origem do peregrino. O santuário, nesse sentido, não deve se transformar em referência exclusiva, mas acolher e, ao mesmo tempo, enviar o fiel novamente à comunidade onde vive e cultiva cotidianamente a fé.
Dom Catelan chamou a atenção ainda para o cuidado com a dimensão econômica, para que a comercialização de alimentos, bebidas e lembranças permaneça a serviço da experiência espiritual e não se sobreponha a ela. Também ressaltou a importância de preservar o vínculo dos fiéis com suas comunidades de origem na preparação para os sacramentos.
“A palavra-chave dos santuários e basílicas” é a acolhida, afirmou Dom Catelan, associando-a à comunhão eclesial. Para ele, a iniciativa do encontro mostrou-se promissora justamente por possibilitar formação, diálogo, esclarecimentos e intercâmbio entre os participantes, favorecendo uma atuação articulada com a pastoral da Arquidiocese.
A Pastoral dos Santuários e das Basílicas
A acolhida também esteve no centro da conferência pastoral conduzida pelo cônego Cláudio dos Santos e pelo padre Arthur José Torres da Conceição. Segundo cônego Cláudio, “assim como o peregrino necessita do santuário, também o santuário necessita do peregrino”. As motivações de quem chega podem ser diversas: devoção, cumprimento de uma promessa, convite de outra pessoa ou até mesmo um passeio. Independentemente da motivação inicial, cabe ao santuário receber cada pessoa e favorecer seu encontro com o Senhor.
Para que isso aconteça, destacou o sacerdote, santuários e basílicas precisam proporcionar uma vida sacramental capaz de responder às necessidades espirituais dos peregrinos, especialmente por meio da Confissão, da Unção dos Enfermos e da Eucaristia, apresentada como o ápice celebrativo desses espaços. A dimensão pastoral exige, assim, disponibilidade, escuta e capacidade de acolher diferentes trajetórias de fé.
Carlos Moioli