No dia 15 de setembro, o Movimento Brasil com Fé, em parceria com o Instituto Redemptor e o Santuário Cristo Redentor, realizou a sessão de lançamento do filme “Terra de Santa Cruz”, no Kinoplex São Luiz, no bairro do Catete, no Rio de Janeiro. A produção apresenta uma viagem pela história do Brasil a partir do retorno simbólico da Cruz da Primeira Missa ao país, unindo fé, memória, cultura e o encontro com os povos originários.
A sessão contou com a presença do arcebispo do Rio de Janeiro, Cardeal Orani João Tempesta, que acolheu os participantes com uma bênção. Também estiveram presentes o reitor do Santuário Cristo Redentor, padre Omar Raposo, bispos auxiliares, sacerdotes, profissionais que participaram da produção do documentário e convidados.
Quinhentos e vinte e cinco anos após a Primeira Missa celebrada no Brasil, realizada na Praia de Coroa Vermelha, em Santa Cruz Cabrália, na Bahia, a Cruz que remete àquele momento histórico refez, em 2025, o percurso de Portugal ao Brasil. Ao longo de 15 dias, a relíquia passou por mais de 20 cidades nos dois países, em uma peregrinação inédita que despertou manifestações de fé, memória e reflexão e deu origem ao documentário.
Padre Omar: fé, história e ressignificação
Para o reitor do Santuário Cristo Redentor, padre Omar Raposo, a experiência proporcionada pelo projeto representa uma oportunidade de revisitar a história brasileira sob diferentes perspectivas, especialmente a partir do encontro entre a tradição cristã e os povos que já habitavam o território antes da chegada dos portugueses.
“Uma imersão maravilhosa na história do Brasil, um Brasil que traz um nome marcante na sua origem, mas também o carinho, o despertar, o conhecimento junto aos povos originários. Essa nossa percepção, por vezes, fica tão distante da realidade, mas eles já estavam aqui quando essa cruz chegou, foram os que assistiram à Primeira Missa”, afirmou.
Segundo o reitor, a peregrinação permitiu não apenas recordar um acontecimento histórico, mas também promover uma experiência de conhecimento, educação, cultura e espiritualidade. A passagem da Cruz por diferentes lugares possibilitou novos olhares sobre a formação histórica do país e sobre a presença da fé na trajetória do povo brasileiro.
“Podemos ter uma experiência de fé, de conhecimento, de educação, de fusão da cultura, de reconhecer, de fato, o Brasil, um país que tem, desde a sua origem, a fé como uma realidade marcante. Está no DNA do povo brasileiro a referência à Santa Cruz”, destacou padre Omar.
Entre os momentos mais marcantes da peregrinação, o sacerdote recordou a passagem pelos grandes santuários e, especialmente, a chegada a Santa Cruz Cabrália, local diretamente ligado à celebração da Primeira Missa no Brasil. O retorno da Cruz ganhou um significado especial porque, desta vez, ela foi conduzida por uma representante do povo Pataxó.
“Visitar os grandes santuários e o gran finale, o momento quando a gente chega em Santa Cruz Cabrália, realmente foi marcado por uma grande emoção. Cumprimos a missão. Se um dia essa cruz veio ao Brasil trazida pelos navegadores, hoje ela é trazida por uma indígena Pataxó, contando a história, ressignificando esse grande ato. Isso é muito emocionante, isso é muito forte”, ressaltou.
A participação indígena ocupa, assim, um lugar importante na narrativa proposta pelo documentário. Ao recuperar a memória da Primeira Missa, “Terra de Santa Cruz” também chama a atenção para a presença dos povos originários naquele momento histórico e para a necessidade de reconhecê-los como parte fundamental da formação do Brasil.
Para padre Omar, essa ressignificação é um dos principais objetivos da produção. Mais do que revisitar o passado, o documentário procura estabelecer um diálogo entre a história e a realidade contemporânea, reconhecendo a diversidade cultural e religiosa brasileira e os princípios assegurados pela Constituição.
“O que queremos, de fato, é que essa experiência seja marcada pela ressignificação de todo um processo, um processo histórico brasileiro para o reconhecimento daquilo que hoje a nossa Constituição já garante. Um país laico, um país marcado pela liberdade religiosa, mas um país que não esquece a sua história”, explicou.
Ao transformar a peregrinação da Cruz em registro audiovisual, “Terra de Santa Cruz” propõe ao público uma reflexão sobre os diferentes elementos que contribuíram para a construção da identidade brasileira. “Fé, história, memória e diversidade se encontram na produção para apresentar um percurso que começa há mais de cinco séculos, mas que continua provocando novos olhares sobre o Brasil e suas origens”, concluiu.
Dom Orani: memória e raízes cristãs
O arcebispo do Rio de Janeiro, Cardeal Orani João Tempesta, também destacou a importância do documentário como instrumento de preservação da memória histórica e religiosa do país. Para ele, “Terra de Santa Cruz” permite recordar as raízes cristãs presentes na formação do Brasil e refletir sobre a responsabilidade de manter vivos valores que contribuam para a construção de uma sociedade mais justa, humana e fraterna.
Ao abordar a proposta do filme, Dom Orani recordou que a Cruz utilizada na celebração da Primeira Missa no Brasil é conservada em Braga, em Portugal, e ressaltou o significado de sua peregrinação, que refez simbolicamente o caminho entre os dois países.
“Queremos, com esse filme, lembrar um pouco as raízes católicas e cristãs do nosso país, a nossa responsabilidade também com os valores cristãos e, ao mesmo tempo, lembrar que estamos celebrando 200 anos das relações entre o Brasil e a Santa Sé”, afirmou.
Segundo o arcebispo, revisitar essas raízes permite compreender não apenas a presença histórica do cristianismo no país, mas também refletir sobre suas consequências na relação com a Igreja e na atuação dos cristãos na sociedade.
“Essas raízes cristãs têm suas consequências no relacionamento com a Igreja e na nossa presença também na sociedade, para uma sociedade mais justa, mais humana e mais fraterna”, ressaltou.
Para Dom Orani, recuperar essa trajetória é também uma forma de preservar a memória nacional e reconhecer os acontecimentos e valores que participaram da construção da identidade brasileira. Nesse sentido, o documentário contribui para aproximar o público de uma história iniciada há mais de cinco séculos e que permanece presente na cultura e na religiosidade do país.
“Acredito que um país tem que ter memória, tem que saber de onde veio, o que tem nas suas bases e poder fazer jus à sua grande memória e valorizá-la”, concluiu o arcebispo.
Wilza Neves: povos originários, diversidade e esperança
A indígena da etnia Pataxó Wilza Neves, coordenadora do Núcleo de Povos Originários do Santuário Cristo Redentor, acompanhou toda a peregrinação da Cruz, desde Portugal até Santa Cruz Cabrália, na Bahia. Para ela, a experiência foi marcada pela fé e pela esperança.
“Para mim, foi uma experiência de fé, de trazer esperança para o Brasil. Acho que, neste momento, precisamos tanto de esperança, de positividade, de pensar num mundo melhor, mais acolhedor para as pessoas, com mais empatia”, afirmou.
Wilza espera que o documentário também contribua para ampliar o olhar sobre os povos originários e para o reconhecimento da diversidade cultural e religiosa que faz parte da formação do país.
“Eu espero sensibilizar as pessoas para a causa indígena. Espero que as pessoas se sensibilizem com o próximo, tenham mais amor ao próximo, mais amor no coração. Porque, no fundo, o que a gente precisa é isso: olhar e saber que as pessoas têm cosmovisões diferentes”, destacou.
Para a representante Pataxó, reconhecer essa diversidade é também compreender a própria identidade brasileira. “Espero que as pessoas tenham consciência de que o Brasil é indígena, o Brasil é território indígena, e que todos nós somos irmãos, que todos somos iguais em direitos, em dignidade e merecemos a atenção e o carinho de todos”, concluiu.
Carlos Moioli