Hospital oferece grupo de apoio voltado a familiares e cuidadores de pacientes com transtornos mentais

Um espaço para falar, compartilhar angústias e encontrar acolhimento durante o processo de adoecimento de uma pessoa querida. Essa é a proposta do grupo de familiares e cuidadores do Polo de Atenção Integral à Saúde Mental (PAI) do Hospital São Francisco na Providência de Deus (HSF-RJ). Os encontros oferecem um ambiente livre de julgamentos, no qual quem acompanha de perto pacientes com transtornos mentais também pode ser acolhido e expressar suas próprias emoções e dificuldades.

“No grupo de família, criamos um ambiente livre de julgamentos, onde os cuidadores podem compartilhar emoções, dificuldades e angústias decorrentes do processo de adoecimento de uma pessoa querida. Em um dos nossos encontros, tivemos uma avó que relatou estar com o ‘choro preso’ desde a internação da neta. No grupo, ela pôde falar, expor sua emoção, chorar e dividir o quanto aquele momento estava sendo difícil”, relata a coordenadora de saúde mental do HSF, a psiquiatra Bárbara Estelita.

A experiência do grupo parte de uma constatação que, segundo a especialista, ainda recebe pouca atenção: a saúde física e emocional de familiares e cuidadores também necessita de cuidados. “Precisamos ter familiares e cuidadores saudáveis para poder ajudar o paciente. A rede de apoio, formada por familiares, amigos e cuidadores, pode enfrentar sobrecarga emocional, desgaste físico e até sentimento de culpa diante das dificuldades vivenciadas pelo paciente”, destaca Bárbara. “O cuidador fica cansado, culpado por achar que não está fazendo direito o seu trabalho, se cobrando e achando que errou se acontece uma internação ou se o paciente sofre alguma coisa. Não existe cuidador perfeito. A família, mesmo quando está ‘errando’, faz querendo acertar, buscando o melhor”, observa a coordenadora do PAI.

“Cuidar de quem cuida é um ato de generosidade e é também uma forma de cuidar do paciente. Para isso, é fundamental que profissionais de saúde acolham e escutem a família, reconhecendo os desafios de conviver diariamente com alguém que enfrenta um transtorno mental. O principal é evitar julgamentos e se colocar no lugar desses familiares, considerando que eles também precisam de espaço, de apoio e, às vezes, até de acompanhamento psicológico”, acrescenta.

Autocuidado não é egoísmo

Para romper o ciclo de autocobrança, Bárbara destaca que familiares e cuidadores também precisam reservar tempo para o próprio bem-estar. “O cuidador precisa cuidar dele mesmo. Ele precisa dormir bem, se alimentar bem, fazer exercício físico e ter alguma atividade que dê prazer, porque assim ele vai poder estar mais inteiro. Isso não é egoísmo, é uma forma de garantir esse cuidado de uma forma mais saudável”, orienta.

De acordo com a especialista, a qualidade das relações familiares também influencia a evolução clínica do paciente. “Na saúde mental, a gente não trata só a doença. A gente trata as pessoas, as relações entre as pessoas e as famílias. Ao cuidar bem de quem cuida, fortalecemos toda essa rede de apoio. E a recuperação do paciente é melhor quando o entorno dele também está saudável”, pontua.

Cenário brasileiro

O impacto dos transtornos mentais no país tem se refletido em diferentes indicadores. Dados recentes do Ministério da Previdência Social, analisados em pesquisa do Jornal da USP, mostram que os afastamentos do trabalho por depressão e ansiedade cresceram 15% em relação ao ano anterior, tornando-se a segunda principal causa de licenças trabalhistas no Brasil, atrás apenas das dores na coluna. Já a Organização Mundial da Saúde (OMS) aponta o Brasil como o país com a maior prevalência de ansiedade do mundo, atingindo 18,6% da população.

Alessandra Eckstein

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