O comentário de Santo Ambrósio ao Evangelho de Lucas segue seu princípio exegético de interpretar a Escritura pela própria Escritura, de modo que figuras do Novo Testamento possam encontrar seus tipos ou referências no Antigo Testamento. Isto pode tomar uma dimensão mais ampla ao se notar que essa tipologia pode ser aplicada à vida da Igreja, ou seja, as figuras dos dois Testamentos realizam-se igualmente na Igreja. Assim, por exemplo, Maria é figura da própria Igreja, mãe de outros cristos, nossa mãe. Ao comentar a parábola do filho pródigo, Ambrósio aplica plenamente seu método exegético. Dessa forma, os dois filhos dessa parábola significam respectivamente o povo judeu, o filho mais velho, e os gentios e os cristãos em geral, os filhos mais novos da aliança de Deus. O pai, Deus nosso Pai, reparte seus bens entre seus filhos e entrega a parte de quem o pede. Esta generosidade do pai acarreta, contudo, uma divisão na família. Isto aplica-se perfeitamente de cada cristão: “Vede que o patrimônio divino é dado a quem pede. E não acrediteis que o pai tem culpa por ter dado seu patrimônio ao [filho] mais novo: não há idade para o Reino de Deus, e a fé não sente o peso dos anos. Em todo caso, aquele que o pediu, julgou-se capaz; e agradaria a Deus que ele não tivesse abandonado seu pai! Ele não teria experimentado as desvantagens de sua idade. (…) Depois, diz ele, de ter saído da casa paterna, foi para o estrangeiro, em terra distante… Que há de mais distante do que sair de si mesmo, do que estar separado não por espaços, mas por costumes, diferindo por gostos, não por países, e os excessos do mundo interpondo suas ondas, distanciando-se de sua casa pelo comportamento? Porque quem se separa de Cristo se exila de sua pátria, é cidadão do mundo. Contudo, nós ‘não somos estrangeiros e passantes, mas cidadãos do santuário e da casa de Deus’, Ef 2, 19; pois ‘como estávamos distantes, fomos aproximados no sangue de Cristo’, Ef 2, 1” (Ambrósio de Milão. ‘Traité sur l’Évangile de Saint Luc’, vol. II. Gabriel Tissot. Paris: Du Cerf, 1958, p. 89, tradução do autor).
A ilusão do filho mais novo consistia em pensar que encontraria outra fonte de vida, separado do pai: “Quem se afasta da fonte, tem sede; ao afastar-se do tesouro, torna-se pobre; quem se afasta da sabedoria é estúpido; desviando-se da virtude, a pessoa se destrói. Era, portanto, certo de que ele falhasse, tendo abandonado os tesouros da sabedoria e ciência de Deus, Col 2, 3, e a profundidade das riquezas celestiais. Ele, portanto, passou a ter carência e fome, porque nada bastava para a voluptuosidade pródiga. Sempre sentimos fome quando não sabemos como nos encher com o alimento eterno. Então, ele foi se apegar a um dos cidadãos: aquele que se apega está preso na rede, e parece que esse cidadão é o príncipe deste mundo. Em suma, ele é enviado à sua fazenda ˗ aquela cujo comprador pede desculpas ao Reino, Lc 14, 18 ˗ e alimenta os porcos” (p. 90).
O Pai, contudo, não é mais alegoria, pois é o Pai de Jesus Cristo, o qual foi enviado para o perdão e a reconciliação: “Confessai antes, que Cristo, nosso advogado junto ao Pai, 1Jo 2, 1, que Ele intervém por vós; que a Igreja ora por vós; que o povo chora por vós. E não tenhais medo de não o conseguir: o advogado garante o perdão, o patrão promete a graça, o defensor garante a reconciliação com ternura paterna. Acreditai, pois Ele é a verdade; descansai, pois Ele é força. Ele está prestes a intervir por vós, por não ter morrido desnecessariamente por vós. O Pai também tem motivos para perdoar, pois ‘o que o Filho quer, o Pai quer’, Gl 2, 21. ‘Pequei contra o céu e contra ti’. Isto certamente significa que o pecado da alma diminui os dons celestiais do Espírito, ou que não se deveria afastar do ventre dessa mãe, Jerusalém, que está no céu. ‘Já não sou digno de ser chamado teu filho’: pois o que caiu não deve ser exaltado, para poder ser levantado graças à sua humildade. ‘Tratai-me como um de vossos mercenários’: ele sabe que há uma diferença entre filhos, amigos, mercenários, escravos. Alguém é filho pelo batismo, amigo pela virtude, mercenário pelo trabalho, escravo pelo medo. Contudo, mesmo escravos e mercenários se tornam amigos, como está escrito: ‘Vós sois meus amigos, se fizerdes o que vos mando. Já não vos chamo servos’, Jo 13, 13ss” (p. 93-94).
O filho pródigo refletiu e ‘então caiu em si e disse a si mesmo: ‘Quantos empregados do meu pai têm pão com fartura, e eu aqui, morrendo de fome’. E Ambrósio completa: “mas não basta falar se não ides ao Pai. Onde procurá-lo, onde encontrá-lo? Levantai-vos primeiro, quero dizer, vós que até agora estáveis sentado e dormindo. Também o Apóstolo diz: ‘Levanta-te, tu que dormes, e levanta-te dentre os mortos’, Ef 5, 14. A iniquidade assenta-se sobre um talento de chumbo, Zc 5, 7; mas Ele disse a Moisés: ‘Mas tu, fica aqui comigo’, Dt 5, 31. Cristo escolheu aqueles que estão de pé. Levantai-vos, correi para a Igreja, onde está o Pai, onde está o Filho, onde está o Espírito Santo. Ao vosso encontro vem Aquele que vos ouve falar no segredo de vossa alma. E, quando ainda estais longe, Ele vos vê e vem correndo. Ele vê vosso coração, apressa-se, para que ninguém vos atrase. Ele também vos beija. Seu encontro é sua presciência; seu abraço é sua clemência e demonstrações de seu amor paterno. Ele se lança em vosso pescoço para vos levantar e, carregado de pecados e, voltado para a terra, vos fazer voltar para o céu para lá buscar vosso criador. Cristo joga-se em vosso pescoço, para libertá-lo do jugo da escravidão e pendurar aí seu doce jugo, Mt 11, 30” (p. 94-95).
As providências materiais para celebrar a volta do filho são símbolos sacramentais, que nos são prodigalizados pelo Pai: “‘Vinde a mim, vós que labutais, e eu vos consolarei; tomai sobre vós o meu jugo’ Mt 11, 28ss. É assim que Ele vos abraça, se vos converterdes. E Ele trouxe manto, anel, sapatos. A túnica é a vestimenta da sabedoria, pois os Apóstolos cobrem com ela a nudez do corpo; todo mundo se envolve nele. E eles recebem o manto para revestir a fraqueza de seu corpo com a força da sabedoria espiritual. Sobre a sabedoria, com efeito, diz-se: ela ‘lavará no vinho sua veste’, Gn 49, 11. O manto, então, é a vestimenta espiritual e a vestimenta nupcial. O anel é outra coisa que não o selo da fé sincera e a marca da verdade? Quanto ao sapato, é a pregação do Evangelho. Assim, ele recebeu a primeira sabedoria ˗ pois há outra, que ignora o mistério ˗ ele recebeu o selo em suas palavras e em seus atos, e como salvaguarda de sua boa intenção e seu curso, para não tropeçar com o pé contra uma pedra, Sl 90, 12, e, derrubado pelo diabo, e abandonar o ofício de pregar o Senhor” (p. 95).
Quem não perdoa, exclui-se da comunidade e da fonte da vida, e a fonte da vida é o Pai: “Agora, o mais velho é insolente e semelhante àquele fariseu que se fez de justo em sua oração presunçosa, que pensava nunca ter falhado no mandamento de Deus, porque literalmente observava a Lei, Lc 18, 11ss. Sem coração, ele acusava o irmão de ter esbanjado a fortuna de seu pai em cortesãs. Ele devia ter observado o que lhe foi dito: ‘Cortesãs e publicanos passarão diante de vós no Reino dos Céus’, Mt 21, 31. Ele fica à porta: não é excluído, mas não entra, desrespeitando a vontade de Deus de chamar os gentios, filho agora feito servo, pois ‘o servo não sabe o que faz o seu senhor’, Jo 15, 14. Ao saber disso, fica com ciúmes, é torturado pela felicidade da Igreja e fica do lado de fora. De fora, de fato, Israel ouve o canto e a sinfonia, e irrita-se com a harmonia alcançada pela graça do povo, o alegre concerto da multidão. Mas o pai, que é bom, gostaria de salvá-lo. ‘Sempre estiveste comigo’, disse ele: ou como um judeu, sob a Lei, ou como justo, por nosso comum acordo. Além disso, deixeis de invejar, ‘tudo o que tenho é teu’: como judeus, possuís os mistérios do Antigo Testamento; como batizados, também os do Novo” (p. 98).
Todos compõem um único reino, congregados por um único chamado, porque um é o Pai. Nesse reino, o pai é pródigo. O Pai prodigalizou-nos seu Filho e, pelo Filho, o Espírito Santo. Quem encontra o Pai, não só encontra o perdão, mas a abundância de dons que vem do seu amor.
Carlos Frederico, Professor da Universidade Católica de Petrópolis e da PUC-RIO