A busca pela santidade no cotidiano da vida cristã exige do fiel não apenas esforço ascético, mas a imersão em fontes seguras de espiritualidade que guardem a capacidade de plasmar o coração à semelhança do Divino Salvador. Nesse itinerário de configuração a Jesus, a presença da Virgem Maria ergue-se não como um adendo devocional e facultativo, mas como um elemento intrínseco e vital para a economia da salvação. Compreender a profundidade desse mistério, equilibrando a pureza dos afetos filiais com a solidez de uma fé madura e encarnada, constitui o cerne de uma autêntica mística mariana. Nesse sentido, de modo especial, a meditação do Santo Rosário sinaliza um caminho singelo sem deixar de ser profundo. Assim, convidamos a refletir, iluminados pelo pensamento de Edith Stein (Santa Teresa Benedita da Cruz), sobre como essa terna e consciente entrega à Mãe de Deus, através da devoção, estreita os laços espirituais de cada pessoa com Deus.
A devoção à Santíssima Virgem Maria é nutriente para a vida cristã. Como afirma a Lumen Gentium, “a Mãe de Deus é o tipo e a figura da Igreja” (LG 63) e, por possuir uma posição inestimável no mistério da redenção, devemos venerá-la com especial predileção. Sendo mãe da cabeça – o Cristo –, é mãe de todos os que, congregados pela fé, são parte do seu corpo místico. Devotamente, desde o primeiro século, os cristãos saúdam Maria e sua maternidade divina, que se estende a todos nós, confiando em sua intercessão por todas as necessidades da Igreja e do mundo. A Mater Populi fidelis é cooperadora da salvação, uma vez que é mais perfeitamente semelhante a Cristo, pois abraçou, desde o seu Fiat, com inteireza, o plano de amor do Pai.
Para que também cada fiel diga a Deus: “Faça-se em mim a tua Palavra”, somos chamados a nos aproximar da Mãe. Isso porque a correspondência ao projeto do Pai pode ser melhor vivida na escola de Maria; por isso, precisamos nos atentar à devoção mariana que cultivamos em nossa vida. Tem ela sido, de fato, um meio de conformidade à vontade de Deus? Ou a temos transformado em uma mera repetição de palavras? Todos os atos piedosos nasceram de um amor humilde, mas profundo e real para com a Mãe de Deus. A cada jaculatória, cântico e oração composta sob a ação do Espírito Santo, nos colocamos como filhos necessitados diante daquela que pode mais junto do eterno mediador, Jesus. Assim, as breves preces a Maria são como remédio em doses homeopáticas, que curam e modelam a nossa vida para mais se parecer com o Cristo.
A presença de Maria é cotidiana e não invasiva. Ela, educadamente, prepara-nos com esmero para a união com o Rei Jesus, assim como a rainha Ester preparara um banquete para suplicar pelo seu povo (cf. Est 5,3-5). Maria, uma vez aceitando a missão da maternidade divina, uniu-se perenemente pelo sangue e pelo espírito ao Verbo encarnado e, consequentemente, está unida a todos os membros da Igreja. “Por isso, existe uma ligação íntima entre ela e nós. Ela nos ama, ela nos conhece, ela quer fazer de cada um de nós o que devemos ser e, sobretudo, quer levar cada um a uma relação mais estreita com o Senhor.” (A mulher: sua missão segundo a natureza e a graça, Stein, 1999, p. 265). Nesse sentido, as devoções marianas são reflexo de uma alma que está em processo de cristificação, no qual a pessoa, consciente e livremente, se deixa transformar para uma realidade eterna.
Santa Edith Stein reconhece Maria como protótipo da Igreja e, por isso, identifica a necessidade de que as devoções sejam mais conscientes e maduras entre os cristãos. A oração é percurso na via unitiva da alma com Deus. Desse modo, cada prece dirigida eleva a alma ao seu Amado, convertendo-a, pelo fogo da caridade, em doçura e leveza que se deixa conduzir pelo Senhor. A filósofa alemã pondera, em sua preocupação com a formação dos jovens, especialmente das moças católicas, sobre uma devoção que auxilia, educa e conduz os neófitos na santidade. Nesse sentido, não deixa de valorar as puras devoções populares de seu tempo: “Sem dúvida, a poesia dos hinos a Nossa Senhora e das devoções. O simbolismo das cores e bandeiras marianas exerce seu encanto sobre mentes infantis; trata-se certamente da manifestação de um verdadeiro amor a Maria […]” (ibid., p. 274). Entretanto, reforça que isto deve avançar para a consistência da luz da fé, que garante firmeza e convicção para enfrentar os desafios do século; em outras palavras, Edith Stein nos recorda que a oração não pode ser simplesmente labial, mas, sim, encarnada na vida do fiel. “Só quem tiver fé no poder ilimitado da auxiliadora dos cristãos se entregará à sua proteção, não apenas com orações decoradas e imitadas, e, sim, num ato interno pleno de entrega consciente. Quem estiver na proteção de Maria será salvo por ela” (ibid., p. 274).
A sensibilidade daquela que ouve e responde ao anúncio do Anjo Gabriel brota no coração de cada um que repete as mesmas palavras: “Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é contigo!” A cada Ave-Maria, contemplamos o mistério da encarnação do Verbo e abrimos espaço na interioridade para que o Espírito fecunde em nós Jesus. Quando um devoto de Nossa Senhora, em um de seus inúmeros títulos, toma tempo para rezar repetidamente as Ave-Marias do santo Terço, não o deve fazer e não o faz como um ritual vazio. O verdadeiro devoto deixa-se tocar pelos mistérios revelados em cada dezena. Dirige-se à Virgem com as mãos abertas, e ela igualmente o acolhe, dispensando as graças de seu Filho Jesus. Essa atitude é pedagógica, pois é para todos, independentemente de condição social ou intelectual. É a oração dos simples, pois iguala em amor, diante da Mãe, todos os filhos e filhas; e, se somos filhos, somos todos irmãos (cf. Mt 23,8). Com isso, nos tornamos imitadores de Nossa Senhora e, por consequência, imitadores de Cristo, “pois foi ela a primeira a segui-lo e a imagem mais perfeita de Cristo” (ibid., p. 221).
Ao meditarmos o Santo Terço, encontramos momentos da vida do Salvador em que Maria sabe o seu lugar. Maria escuta, canta, guarda no coração… Em Caná, ela silenciosamente percebe, organiza, dá as instruções e, depois de proclamar “Façam tudo o que Ele vos disser” (cf. Jo 2,5), se retira para que seu Filho faça o milagre. Tudo isso ocorre porque ela, sendo a Esposa do Espírito Santo, possui o dom do discernimento. Essa união é sinal do matrimônio místico entre a alma e Deus ao qual cada um de nós é chamado. Tal estado espiritual conta com a nossa disponibilidade, demonstrada pela busca diária da oração e dos sacramentos. Porém, tudo se faz pela vontade de Deus, que atrai as almas a si através da ação da Graça, e se completa quando vivemos o grande mistério da Paixão, Morte e Ressurreição do Senhor.
Na cruz, Jesus nos dá Maria como Mãe: “Eis aí o teu filho… Eis aí a tua mãe” (Jo 19,26-27). Esta é a prova do caminho que necessitamos percorrer: o terço nos conduz pela vida do Salvador e, de modo singular, na cruz, ao recebermos a Mãe que sempre está presente. Maria nos acompanha desde a Encarnação (1° mistério gozoso), é a primeira discípula no seguimento de Jesus (2° mistério luminoso), está presente na hora da dor (5° mistério doloroso), chega à Ressurreição do Filho (1° mistério glorioso), vivencia o Pentecostes (3° mistério glorioso) e nos apresenta o futuro da glória que nos espera (5° mistério glorioso). Iluminados pela fé, ao contemplarmos o Terço, portanto, nos incluímos na história da salvação. Dessa maneira, essa devoção se torna entrega consciente nos braços de Nossa Senhora.
Assim como Edith Stein exalta em sua poesia “Esposa do Espírito Santo” – possivelmente escrita no Pentecostes de 1942 – a figura de Maria por ser “uma imagem fiel, puríssima flor da criação, divina e mansa” do Espírito, peçamos hoje que o Paráclito nos transforme interiormente em sua imagem. Que Ele nos dê um coração puro, divino e manso, a fim de que exalemos, com piedade e devoção, os perfumes do Divino Mestre. E recordemo-nos: não estamos sós; temos uma advogada que nos auxilia em todas as situações.
“Com mão materna conduz suavemente
e, apesar de tudo, com a força de tua força, seu filho.
Onde seus pés pisam, os campos florescem e reverdecem,
e o resplendor do Céu ilumina a natureza.
A radiante glória da plenitude da graça
a escolheu desde toda a eternidade como trono,
e, através dela, flui para a terra
e todo dom vem de suas mãos” (Esposa do Espírito Santo, Stein, 1942).
Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ