Uma réplica do ícone de Nossa Senhora de Częstochowa, padroeira do povo polonês, visitará o Rio de Janeiro. Chegará às terras cariocas, da nossa querida Terra de Santa Cruz, a imagem daquela que concebeu e gerou o Redentor, o alimentou e o viu entregar sua vida num ato de amor incondicional, perdoando os pecados de toda a Humanidade. Um caráter todo particular adquire a imagem da Virgem Maria, venerada há séculos no Monte de Jasna Góra, ao considerarmos que a Polônia é uma nação que ao longo dos séculos e de diversos momentos históricos – de importância única para a Europa e o mundo – testemunhou o valor ímpar da vida humana em frente aos mais variados ataques à sua dignidade, decorrentes, sobretudo, de guerras e ideologias de regimes totalitaristas, como o nazismo e o comunismo, e todas as consequências deles resultantes. A imagem da Czarna Madonna Częstochowy (Virgem Morena de Częstochowa) para mim pessoalmente está relacionada ao amor de Deus pela Polônia, pela Europa e pelo mundo! A primeira vez que a visitei foi ao participar no Santuário de Częstochowa da primeira missa celebrada pelo padre Wojciech Żebrowski, um dos sete presbíteros do nosso Seminário Missionário Arquidiocesano Redemptoris Mater, de Varsóvia, ordenados juntamente aos demais sacerdotes da Arquidiocese de Varsóvia, em 1996. Tudo para mim era novo, desafiador e repleto de incertezas, como para um jovem candidato ao sacerdócio que havia apenas terminado a filosofia e aceitara continuar a formação presbiteral num país estrangeiro! As palavras da homilia pronunciadas pelo então neopresbítero, ornadas por muita simplicidade, alegria, confiança e gratidão a Virgem de Częstochowa, ficaram em mim marcadas pelo olhar penetrante e compenetrado de Nossa Senhora com as cicatrizes em seu rosto e portando em seus braços Jesus Cristo. Padre Wojciech, o qual havia deixado uma promissora carreira como professor universitário de matemática para ser catequista itinerante e anunciar o Evangelho no norte da Polônia e na Ucrânia, após ser ordenado presbítero aos 46 anos de idade, foi vigário durante 20 anos em algumas paróquias da Arquidiocese de Varsóvia e fez sua páscoa definitiva ao Reino dos Céus em dezembro de 2016. Por graça de Deus, pude participar também de seu funeral. A vida deste presbítero como de tantos outros, assim como a vida de muitos leigos vivenciando sua vocação à santidade decorrente do Sacramento do Batismo, sempre esteve e estará sob o olhar sereno de Nossa Senhora Rainha, a qual nos acompanha em meios aos mais variados sofrimentos do nosso cotidiano e sempre nos mostra Jesus Cristo, o Filho Amado de Deus, Rei Coroado e Senhor da Vida e da Morte (Jo 11, 25-26; Ap 1, 18).
Esta primeira visita de 1996, no meu quinto mês de Polônia, marcou todas as outras vezes que pude visitar Częstochowa como seminarista e celebrar a primeira missa como neopresbítero em junho de 2003, juntamente aos padres Paweł Andzejevski (lituano) e Zbigniew Jędrzejczyk (polonês), meus irmãos de formação presbiteral no Seminário Redemptoris Mater de Varsóvia. Por isso, relaciono o ícone da padroeira da Polônia à missão universal da Igreja de levar a todos o Evangelho de Jesus Cristo e a Vida Eterna que o Senhor mesmo nos promete, missão esta pela qual vale a pena entregar nossa vida! Como presbítero na Polônia e, desde 14 anos como reitor do nosso Seminário Missionário Arquidiocesano Redemptoris Mater do Rio de Janeiro, testemunhei a vida nova que Cristo concede a todos que o acolhem, através do testemunho de sacerdotes e também de inúmeros leigos os quais aceitando o chamado de Deus à vida matrimonial decidiram-se por se amar incondicionalmente e acolher a vida que o Senhor mesmo lhes queira dar. Esta abertura à vida no matrimônio é uma vocação, torna-se algo de fundamental no mundo de hoje, caracterizado pela pós-modernidade, a qual – como dizia São João Paulo II – afirma que “o tempo das certezas teria irremediavelmente passado, o homem deveria finalmente aprender a viver num horizonte de ausência total de sentido, sob o sinal do provisório e do efêmero” (Encíclica Fides et ratio, 91). Neste tempo de tantas incertezas é que a Igreja, à luz do Evangelho de Jesus Cristo, “Evangelium vitae”, anuncia continuadamente que a dignidade da vida humana, ou seja, o respeito devido a cada ser humano fundamenta-se não em algo provisório, efêmero e sem sentido, e sim no valor inegociável do ser humano criado à imagem e semelhança de Deus. Relembrando São Paulo VI, afirmamos tratar-se duma “plenitude de vida que se estende muito para além das dimensões da sua existência terrena, porque consiste na participação da própria vida de Deus” (Encíclica Evangelium vitae, 2). Assim, falar da pessoa humana equivale a falar da natureza corpórea-espiritual e do valor incomparável do ser humano que provém do fato dele ser chamado de maneira única à participação na vida divina: a vida humana possui uma dignidade transcendental e não pode ser, portanto, instrumentalizada de nenhuma forma. Agradeço a Deus e a todos os que em nome de nossa Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro acolhem, promovem, defendem a vida e a colocam sob o olhar sereno e a intercessão de Nossa Senhora de Częstochowa!
Padre Marcos André N. Silva, sacerdote da Arquidiocese de Varsóvia (Polônia), ordenado aos 31.05.2003, de nacionalidade brasileira e polonesa, é reitor do Seminário Missionário Redemptoris Mater de nossa Arquidiocese do Rio de Janeiro e doutor em Teologia Dogmática pela Universidade Católica Stefan Wyszyński em Varsóvia