Conhecida e querida pelos fiéis católicos da Arquidiocese do Rio de Janeiro, especialmente pelo clero e pelas comunidades paroquiais, Celina Santana Moreira fez sua Páscoa definitiva aos 80 anos, na manhã do dia 6 de maio, mês dedicado a Maria, Mãe de Deus. Nas grandes celebrações da arquidiocese, de maneira constante, especialmente nas realizadas na Catedral Metropolitana, ela estava presente com a sua bandeira do Vaticano. Mais do que essa marca, Celina era uma mulher de fé simples, dedicação silenciosa e profundo espírito de serviço. Ela construiu, ao longo da vida, uma trajetória marcada pelo amor à Igreja, pela solidariedade aos mais pobres e pela generosidade para com familiares e amigos.
Nascida em 7 de fevereiro de 1946, na zona rural de Cachoeira de São Félix, no Recôncavo Baiano, Celina cresceu em uma realidade simples, vivendo com a família em casas de pau a pique. Ainda na infância, contraiu a doença de Chagas, enfermidade que acompanhou sua vida. Segundo a sobrinha, Joice da Anunciação Moreira da Silva, a doença foi adquirida por diversos membros da família em razão das condições precárias da região onde viviam.
“Ela nasceu no interior da Bahia, numa localidade chamada Maria Preta, e viveu uma infância muito simples. A doença de Chagas acompanhou a vida dela por mais de 45 anos, mas isso nunca a impediu de trabalhar, ajudar as pessoas e servir a Igreja”, relatou a sobrinha.
Celina chegou ao Rio de Janeiro no início da década de 1970, período da construção da Ponte Rio-Niterói. Solteira e sem filhos, trabalhou em casas de família, fábricas de tecido e em diversas funções de serviços gerais, sempre disposta a enfrentar qualquer atividade para garantir o sustento e ajudar quem precisasse.
“Era uma mulher que não fugia do trabalho. O que tivesse para fazer, ela fazia sempre no intuito de se manter, ajudar os familiares e o próximo”, destacou Joice.
Ao longo da vida, morou em diferentes bairros do Rio de Janeiro, passando por Niterói e outras regiões da cidade, até fixar residência em Quintino, onde viveu os últimos 30 anos. Apesar disso, ela não se identificava com uma única paróquia. Seu vínculo era com a Igreja em sua dimensão missionária e universal.
“Ela dizia que era uma mulher da Igreja. Não se prendia a uma paróquia específica. A missão dela era estar onde precisassem dela”, contou a sobrinha.
Frequentemente presente nas grandes celebrações arquidiocesanas, especialmente na Catedral de São Sebastião, no Centro do Rio, Celina tornou-se figura conhecida entre os fiéis e membros do clero. Desde o início do governo pastoral do Cardeal Orani João Tempesta, em 2009, acompanhava de perto eventos como a Trezena de São Sebastião e a peregrinação da imagem de Nossa Senhora de Nazaré pela arquidiocese.
Seu trabalho voluntário também foi marcante em tarefas simples e silenciosas, sempre com espírito de disponibilidade. Ela não abria mão de participar todos os domingos do café da manhã, na Catedral Metropolitana, servindo os irmãos em situação de rua. Não importava o que tivesse acontecido durante a semana, ela estava lá servindo. Ela ajudava em tudo. Lavava louça, fazia o que fosse necessário. Era uma mulher que ajudava, que estava sempre onde alguém precisava dela”, recordou Joice.
Segundo a sobrinha, a generosidade de Celina era uma das principais marcas de sua personalidade. Apesar do temperamento forte e da independência, era reconhecida pelo coração solidário e pela disposição constante em ajudar. “Minha tia Celina tinha personalidade forte, era extremamente independente e tinha um coração gigante”, afirmou Joice.
Nos últimos anos, Celina enfrentava um tratamento contra um câncer de mama, além das complicações cardíacas provocadas pela doença de Chagas. Após passar por cirurgia para retirada da mama em um hospital de Duque de Caxias, apresentou complicações decorrentes de coágulos pós-operatórios. Embora tenha retornado consciente após o segundo procedimento cirúrgico, sofreu sucessivas paradas cardiorrespiratórias na manhã do dia 6 de maio, não resistindo em razão da fragilidade do coração.
Exéquias
Seu corpo foi velado na manhã do dia 8 de maio, na cripta da Catedral Metropolitana de São Sebastião. Às 10h30, o vigário episcopal do Vicariato Urbano, padre Wagner Toledo, conduziu a oração do Terço Mariano. Em seguida, às 12h, a missa de exéquias foi presidida pelo arcebispo do Rio de Janeiro, Cardeal Orani João Tempesta. Após a celebração, o corpo foi sepultado no Cemitério São Francisco de Paula, no Catumbi.
Carlos Moioli
Mulher de fé e de grande amor à Igreja
Nossa irmã Celina foi uma mulher de fé, de profunda fé em Deus e de grande amor à Igreja. De maneira muito especial, sua presença nas celebrações com a bandeira do Vaticano era algo bastante emblemático, significativo e, ao mesmo tempo, profundamente evangelizador.
Uma palavra que poderia resumir a vida da Celina é missão. Ela dedicou-se de forma intensa à missão, percorrendo os diversos cantos da nossa Arquidiocese, participando de celebrações, procissões e momentos de evangelização, sendo para todos nós um testemunho vivo da presença de Deus.
Antes de realizar sua cirurgia, esteve na Catedral Metropolitana na véspera da ordenação sacerdotal. Ela fazia questão, todos os anos, de entregar a cada padre ordenado uma casula da Jornada Mundial da Juventude. Tivemos a oportunidade de pedir ao reitor, monsenhor Jorge André, e a todo o seminário, que ela pudesse ir até o retiro dos diáconos para entregar pessoalmente a cada um dos 19 novos sacerdotes a lembrança que preparava com tanto carinho. E assim aconteceu.
Depois, retornou à Catedral, onde recebeu a Unção dos Enfermos, preparando-se espiritualmente para o momento da cirurgia. Deus permitiu que ela fosse sendo preparada serenamente para esse encontro definitivo com Ele na eternidade.
Celina também manifestou, junto a pessoas próximas, o desejo de reencontrar no céu aqueles com quem partilhou a missão evangelizadora. Ela citava Valcíria, que foi da OVS, e também dona Margarida, dizendo que deixaria a bandeira para elas, mas que ambas haviam partido antes dela. Por isso, acreditava que seria uma grande festa reencontrá-las no céu.
Tenho certeza de que ela está junto de Deus, vivendo a alegria daqueles que combateram o bom combate, guardaram a fé e agora recebem do Senhor a coroa da glória eterna, como nos recorda o apóstolo São Paulo.
Celina, descanse em paz e interceda por nós.
Cônego Cláudio dos Santos – Pároco da Catedral Metropolitana de São Sebastião
Belo Testemunho
“Seja nas procissões, nas grandes celebrações arquidiocesanas na Catedral Metropolitana ou nas romarias ao Santuário Nacional de Aparecida, era sempre possível ver Celina, de forma incansável e alegre, balançando a bandeira do Vaticano, em um gesto simples que expressava seu profundo amor a Deus, à Igreja e aos sacerdotes. Obrigado, Celina, por seu testemunho.”
Padre Thiago Azevedo – Vigário episcopal do Vicariato para a Educação
Amor às vocações
Bom falar sobre a dona Celina é falar sobre amor às vocações, a se doar muito mais do que a bandeira do Vaticano que a caracterizou, que ela levava para toda parte, em todas as missas do seminário, onde quer que fosse, se fossem na Catedral, em igrejas próximas ou em igrejas longe, em lugares de difícil acesso, lá ela estava presente com a sua bandeira do Vaticano erguida, e isso, de fato, a caracterizou. Porém, eu creio que ela pode ser melhor descrita muito mais do que por uma bandeira do Vaticano, mas pela bandeira do amor às vocações, que ela manifestou durante a sua vida.
Aqui no Seminário São José, todos nós a conhecíamos e por ela nutríamos um carinho muito grande, uma vez que ela não era simplesmente aquela senhora da bandeira, não é? Era, precisamente, uma dessas senhoras que marcam a vida dos seminaristas pela sua doação em favor das vocações.
Recordo-me de algumas convivências em Itaipava, nossas, dos seminaristas, em que ela lá estava lavando as louças. Então, quando os seminaristas se reúnem, nas refeições se produz muita louça para lavar; somos em grande número, graças a Deus. Então, lá ela estava fazendo aquele serviço escondido, aquele serviço que não tem aplausos. Se bem que, nas celebrações, ela estava com a bandeira erguida, balançando, tinha essa sua característica, mas muito antes ela havia já escolhido essa sua opção do serviço escondido.
Agora, a nossa oração é pelo descanso da sua alma, mas é uma oração muito esperançosa, porque nós vimos que, mesmo no escondimento, ela se preocupava com cada um de nós. Agora, a nossa confiança na ressurreição faz com que nós tenhamos muita esperança e muita paz. Essa é uma despedida, sim, mas é mais um até logo daquela que nós esperamos encontrar em breve.
Então, nós somos muito gratos ao testemunho da dona Celina e à sua importância para o nosso seminário e para as nossas vocações.
Rennan Maria Nazar – Seminarista do 4º de Teologia no Seminário Arquidiocesano de São José
Uma pessoa simples, mas de fé
Quem é Celina Santana Moreira? Para muitas pessoas, ela é a mulher da bandeira do Vaticano, que hasteava em todas as principais celebrações da nossa Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro. Na Catedral, nas paróquias, na Trezena de São Sebastião, ali estava uma mulher que, na sua discrição, na sua humildade e também na sua profunda fé e amor à Igreja, comparecia para mostrar uma bandeira, a bandeira que simboliza o Vaticano, não apenas como um Estado Pontifício, mas como o coração da Igreja.
Eu penso que a Celina foi uma testemunha missionária que, com a sua presença, trouxe dois grandes ensinamentos: que a Igreja é representada por pessoas simples, por pessoas de fé. Naquela bandeira se via toda a presença da Igreja em qualquer parte onde a Celina se encontrava. Então, essa sua missão de levar as pessoas a crerem na Igreja como mãe, como aquela que nos acolhe e que hoje acolhe, na Igreja Celestial, essa mulher de fé, humilde, discreta, mas missionária.
E depois, também, o grande ensinamento da Celina, para mim, foi seu amor aos sacerdotes. Ela conhecia cada um e procurava cumprimentá-los; ela sabia o nome, o sobrenome, sabia o dia da ordenação. Ela tinha uma verdadeira sintonia de oração e de presença junto aos sacerdotes.
Não tenho dúvida de que a sua missão de levar a bandeira hasteada para evidenciar a sua fé e amor à Igreja, e a sua oração, a sua dedicação, a sua presença junto aos sacerdotes, mostrou que a Igreja é feita por pessoas discretas, humildes, presentes e que sabem evangelizar de um modo talvez muito concreto, mas eficiente.
A figura da Celina será sempre lembrada cada vez que houver uma celebração na Catedral ou grandes solenidades da arquidiocese. Sua presença física, visível, não a teremos, mas, com certeza, do céu Celina estará presente com a sua oração, com a sua intercessão junto a Deus.
A Arquidiocese do Rio de Janeiro não perdeu uma mulher de fé, mas ganhou uma intercessora junto de Deus para manter a nossa Arquidiocese do Rio de Janeiro hasteada no alto pela sua missão e pela sua unidade, tão fortemente defendidas e queridas pela Celina.
Dom Antonio Augusto Dias Duarte – Bispo auxiliar emérito do Rio de Janeiro
A sentinela da unidade: Uma crônica a Celina
Há vidas que se traduzem em gestos, e há gestos que se tornam símbolos de algo muito maior que a própria existência. Celina era, em sua essência, a tradução do silêncio que preenche. Enquanto o mundo busca palcos e aplausos, ela encontrava o sagrado na obediência e na simplicidade de quem sabe que servir é a forma mais alta de reinar.
Quem frequentou as celebrações litúrgicas arquidiocesanas habituou-se a uma visão que beirava o poético: lá estava ela, empunhando a bandeira do Vaticano. Naquele retângulo de amarelo e branco, Celina não carregava apenas um tecido; carregava a comunhão. A cada passo firme em direção ao altar, ela recordava a todos que as paróquias e a Catedral do Rio de Janeiro não são ilhas, mas partes de um corpo vivo e universal. Ela era o elo visível entre o local e o eterno.
Amiga dos sacerdotes, Celina possuía a sabedoria das mulheres orantes — aquelas que falam pouco com os homens para poder falar muito com Deus. Sua intercessão era o arrimo invisível de muitas vocações. Ela não precisava de títulos complexos; sua autoridade emanava da humildade de quem, ao se fazer pequena, tornava-se gigante diante do mistério.
Hoje, Celina não carrega mais bandeiras de tecido. Ao partir para a eternidade, deixou o estandarte fincado no coração da comunidade. Fica o legado de quem entendeu que a vida cristã não é um espetáculo, mas uma procissão contínua de fidelidade. A sentinela da unidade agora descansa, mas seu exemplo permanece como um farol, lembrando-nos de que o caminho para o Céu é pavimentado com a doçura de uma prece e o vigor de um compromisso assumido com amor.
Cônego Aldo de Souto Santos – Vigário episcopal do Vicariato Norte
Um presente para os padres
Eu só tenho que agradecer a Deus pelo dom da vida da Celina e pelo presente que ela é na vida da nossa Arquidiocese do Rio de Janeiro. Agora, de uma forma muito mais especial, tenho certeza de que está ao lado de Deus, intercedendo por nossa Igreja aqui do Rio de Janeiro.
Ao mesmo tempo em que meu coração se entristece, eu me encho também de alegria por ter tido a oportunidade de conhecer a Celina e de tê-la como um presente para nós, padres. Recordo-me de que, há seis anos, quando fui ordenado, ela passou cumprimentando a mim e aos meus 19 irmãos de turma. A muitos, ela entregou de presente uma casula da Jornada Mundial da Juventude (JMJ), como um sinal concreto da felicidade e do contentamento que sentia ao nos ver sacerdotes.
Eu rogo ao bom Deus que, da mesma forma que ela teve a sensibilidade de presentear com uma casula da JMJ — que é um sinal claro da nossa unidade na arquidiocese e que, em diversos momentos, utilizamos para celebrar juntos —, cada vez que eu vestir essa casula possa me recordar dessa santa mulher e oferecer a ela aquilo que tenho de mais importante: a celebração da Santa Missa.
Que ela possa encontrar a felicidade eterna junto de Deus, a quem tanto amou e serviu aqui na Terra.
Obrigado, Celina. Que Deus te abençoe e que você possa receber agora, na eternidade, o feliz convívio dos santos. Amém.
Padre Iago Deodato Abreu – Pároco da Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em Ramos