Concerto na Igreja de São Francisco de Paula revela obra sacra esquecida

No dia 18 de agosto de 2026, o público carioca terá a oportunidade de ouvir uma obra há muito esquecida, especialmente criada para a Venerável Ordem dos Mínimos de São Francisco de Paula, em 1867. Trata-se da Missa São Francisco de Paula, de Henrique Alves de Mesquita. Começa-se por situar o compositor, talvez desconhecido por muitos. Mesquita nasceu no Rio de Janeiro, em 15 de março de 1830. Iniciou os estudos de música ao trompete com Desidério Dorison, músico francês radicado na cidade. Em 1848, ingressou no Liceu Musical, na classe do italiano Gioacchino Giannini (1817-1860). Prosseguiu os estudos com o mesmo professor no Conservatório de Música, onde se diplomou, em 1856, recebendo a Medalha de Ouro. Foi o primeiro aluno a receber o prêmio de Viagem à Europa como pensionista do governo imperial. Seguiu para a França, em 1857, e ingressou na classe de François-Emmanuel-Joseph Bazin (1816-1878) no Conservatório de Paris. Naquela capital, apresentou sua primeira ópera, Une nuit au chateau (Uma noite no castelo), e fez sucesso com uma quadrilha chamada Soirée brésilienne. Em Paris, compôs e remeteu para o Brasil uma Missa, executada em 26 de agosto de 1860, na Igreja da Santa Cruz dos Militares, e a abertura L’Étoile du Brésil, executada no Conservatório de Música, em 1861. Sua ópera O vagabundo foi representada a 24 de outubro de 1863, no Teatro Lírico Fluminense. Em Paris, um mal esclarecido incidente o levou à prisão por “ofensa à moral pública e aos bons costumes” e fez com que perdesse a pensão, sendo obrigado a retornar ao Brasil, em julho de 1866. No Rio de Janeiro, integrou como trompetista a orquestra do Teatro Lírico e do Alcazar Lírico. A partir de 1869, passou a atuar como regente da orquestra do Teatro Fênix Dramática. Na mesma função, atuou no Teatro Santana a partir de 1894. Em 1872, assumiu o cargo de organista da Igreja de São Pedro. No mesmo ano, tornou-se professor do Conservatório de Música. Após o golpe da República, permaneceu como professor quando o Conservatório se transformou no Instituto Nacional de Música, pelo qual se aposentou em 1904. Entre seus alunos ilustres estão Joaquim Antônio da Silva Callado (1848-1880) e Anacleto de Medeiros (1866-1907). Mesquita é considerado o compositor que estabeleceu o tango brasileiro, quando assim designou sua composição intitulada Olhos matadores, em 1871. Foi uma figura importante e admirada por vários músicos e artistas. Chiquinha Gonzaga dedicou a ele seu tango característico Só no choro (1889). Ernesto Nazareth escreveu em sua homenagem o tango Mesquitinha. Faleceu no Rio de Janeiro, em 12 de julho de 1906.

A produção de Mesquita abrange basicamente três gêneros: a música de salão, as operetas e a música sacra. No primeiro estão modinhas, canções, polcas, tangos, valsas, lundus, jongos e cateretês, especialmente para piano, mas também retiradas de suas obras cênicas. No segundo gênero estão obras de grande sucesso em seu tempo, como as operetas e mágicas Trunfo às avessas (1871), Ali Babá (1872) e A coroa de Carlos Magno (1873). Na música sacra constam as Missas dedicadas a São Miguel Arcanjo (1851), Santa Cecília (1856) e Nossa Senhora do Amparo (1871), como também a Novena de São Pedro (1880), O salutaris hostia (1892), Ave Maria (1895), quatro Te Deums e sua derradeira obra, um Padre Nosso, de 1906.

A Missa São Francisco de Paula foi composta, em 1867, para a festa do padroeiro da Venerável Ordem dos Mínimos de São Francisco de Paula. Foi estreada em 5 de maio daquele ano, em cerimônia solene, na Igreja de São Francisco de Paula, no Centro do Rio de Janeiro, sob a regência do compositor. A obra mereceu uma crítica entusiasmada na coluna Folhetim, da edição de 12 de maio de 1867 do Correio Mercantil. O crítico era o advogado, escritor e teatrólogo França Júnior (1838-1890), sob o pseudônimo de Osíris, que considerou a obra uma “peça digna de mestre”, sendo “a melhor d’entre as que tem composto o professor brasileiro”. No mesmo dia, mas no periódico Semana Ilustrada, seria a vez de ninguém menos que Machado de Assis (1839-1908), sob o pseudônimo de Dr. Semana. Não obstante ter considerado a Missa “uma obra de inspiração e de estudo e mais um florão para sua coroa de compositor”, não deixou de identificar “ressaibos de música profana”. Machado de Assis depositou grandes esperanças no compositor e concluiu: “Cabe-lhe o papel invejável de ser o continuador de José Maurício. A arte brasileira atual precisa de um Beethoven: Mesquita pode sê-lo”.

Após a morte do compositor, há registros de execução da Missa São Francisco de Paula em 23 de abril de 1911 e em 14 de abril de 1912, regida pelo maestro Francisco Braga. Posteriormente, a obra caiu no esquecimento gradativo. A colaboração entre várias instituições viabilizou o retorno da obra ao repertório. Graças ao trabalho de organização do arquivo da Venerável Ordem, realizado por Daisy Gil Ketzer e Júlio César Coutinho Fernandes, sob a liderança dos Padres Silmar Alves Fernandes e Álvaro José Assunção Inácio da Silva, a partitura original de 1867 foi reencontrada junto com um conjunto de partes recopiadas para a execução de 1911. A parceria com a Academia Brasileira de Música viabilizou a digitalização do material manuscrito. A edição foi preparada pela Música Brasilis. Por fim, as universidades federais do Rio de Janeiro e de Juiz de Fora juntam seus corpos artísticos, sob a regência do maestro Victor Cassemiro, para que a Missa São Francisco de Paula, de Henrique Alves de Mesquita, volte a soar no templo para o qual foi composta.

A redescoberta do manuscrito da Missa São Francisco de Paula propõe algumas reflexões. Ao longo de muitos séculos, a Igreja Católica acumulou um enorme e valioso patrimônio musical, ou seja, música composta para as mais diversas cerimônias litúrgicas por alguns dos mais importantes compositores da história, desde os primórdios da monodia gregoriana. No Brasil, o repertório sacro católico que sobreviveu começa no século XVIII e tem sua mais alta expressão na produção dos compositores mineiros do período colonial e na obra de Padre José Maurício Nunes Garcia (1767-1830). A música sacra sempre foi permeável a outros gêneros musicais. Não à toa, Machado de Assis identificou na Missa de Mesquita “ressaibos de música profana”, ou seja, a ópera italiana que dominava os palcos e direcionava o gosto do público e a produção dos compositores no Rio de Janeiro do século XIX. Tal tendência se acentuou no século XX, após a invenção dos meios de comunicação de massa. A liturgia acabou por se render à música da chamada indústria da cultura, voltada para o entretenimento, desconectando muitas vezes o conteúdo musical do sentido do texto. Os órgãos, por sua vez, foram silenciados na maioria das igrejas e são hoje instrumentos sem vida, meros ornamentos incorporados à arquitetura do templo. A Missa São Francisco de Paula, de Mesquita, é o retrato de uma época. Hoje seria impensável executá-la no Ordinário de uma missa. Seu lugar atual é no formato de um concerto. Sua redescoberta, no entanto, faz pensar em quantas obras ainda jazem esquecidas nos arquivos de irmandades, ordens religiosas e nas próprias igrejas, à espera de que sejam trazidas novamente à vida. Sim, pois o manuscrito é apenas o suporte físico. Localizar e preservar os manuscritos é etapa crucial, mas a música só se revela quando executada. É o que a Orquestra Sinfônica da UFRJ fará no dia 18 de agosto, contribuindo, assim, para a valorização do patrimônio musical sacro católico brasileiro.

 

André Cardoso – Professor da UFRJ e Vice-presidente da Academia Brasileira de Música

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