A Igreja do Rio de Janeiro despediu-se, no dia 3 de julho de 2026, de um de seus filhos mais dedicados ao serviço do Evangelho. Aos 55 anos de idade e após 27 anos de ministério presbiteral, o cônego Paulo Hamurábi Ferreira Moura realizou sua Páscoa definitiva, sendo chamado pelo Senhor para o encontro nos braços do Pai. Sua partida encheu de tristeza o coração do presbitério arquidiocesano, dos familiares, dos amigos e de todos aqueles que tiveram a graça de conhecer sua vida, sua amizade e seu testemunho sacerdotal. Ao mesmo tempo, fortaleceu em todos a esperança cristã na ressurreição e na vida eterna.
O velório foi realizado na Paróquia São Domingos de Gusmão, na Tijuca, comunidade da qual era pároco desde agosto de 2016 e onde exerceu, com amor, dedicação e espírito de serviço, um fecundo ministério pastoral. Após a celebração das exéquias, seu corpo foi sepultado, no dia seguinte, na quadra dos padres da Irmandade de São Pedro, no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, em meio às orações da Igreja e à gratidão de um povo que reconhece o bem que recebeu por meio de seu sacerdócio.
Ao contemplarmos a liturgia do dia em que Deus o chamou para junto de Si, encontramos uma bela síntese de sua própria existência. A primeira leitura proclama que a Igreja está edificada “sobre o fundamento dos apóstolos e dos profetas, tendo o próprio Cristo Jesus como pedra angular” (Ef 2,19-22). Podemos afirmar que o cônego Paulo Hamurábi fez jus ao nome que recebeu em homenagem ao Apóstolo São Paulo. Seu ministério esteve solidamente alicerçado em Cristo, fundamento de toda vocação sacerdotal. Sua vida foi marcada pela fidelidade ao Evangelho, pelo amor à Igreja e pela dedicação perseverante ao povo de Deus.
Não deixa de ser profundamente significativo que sua páscoa tenha acontecido justamente na Festa de São Tomé Apóstolo. O Evangelho daquele dia apresenta o discípulo que, ao encontrar o Ressuscitado, professa uma das mais belas declarações de fé das Escrituras: “Meu Senhor e meu Deus!” (Jo 20,24-29). Também o cônego Paulo Hamurábi, como discípulo do Senhor, experimentou em sua própria carne as marcas do sofrimento. Nos últimos tempos, carregou com serenidade e fortaleza as limitações impostas pela enfermidade, unindo suas dores às chagas gloriosas de Cristo. Mesmo sem jamais perder a confiança, continuou acreditando, servindo e testemunhando a esperança cristã. Sua vida tornou-se uma silenciosa profissão de fé naquele Senhor que sempre amou e anunciou.
Seu sacerdócio foi marcado por uma integridade exemplar. Homem de profunda vida espiritual, buscava incessantemente a verdade e conduzia os fiéis ao encontro com Cristo por meio da Palavra de Deus, da celebração dos sacramentos e da direção espiritual. Quantos encontraram nele um conselheiro prudente, um confessor paciente, um pastor atento e um amigo disposto a escutar! Seu modo discreto de evangelizar era, muitas vezes, mais eloquente do que qualquer discurso, pois ensinava, sobretudo, pelo exemplo.
Mesmo quando sua saúde já se encontrava bastante debilitada, jamais deixou de exercer seu ministério. A cadeira de rodas, as dificuldades respiratórias e as limitações físicas nunca se transformaram em obstáculos para seu amor sacerdotal. Pelo contrário, fizeram resplandecer ainda mais sua fidelidade. Continuou servindo até o fim, oferecendo seu sofrimento em união com Cristo e transformando sua fragilidade em testemunho vivo de esperança. Quantas almas foram fortalecidas e aproximadas de Deus ao contemplarem sua perseverança! Viveu plenamente o que tantas vezes anunciava: que a cruz, acolhida com amor, torna-se caminho de salvação.
Grande apreciador da boa música, incentivava com entusiasmo o canto coral e compreendia a beleza da liturgia como expressão da fé da Igreja. Sua sensibilidade artística caminhava lado a lado com uma sólida formação intelectual. Natural da cidade de Regeneração, no Piauí, nasceu em 25 de setembro de 1970, filho de Paulo Pereira de Moura e Júlia Ferreira de Freitas Moura. Ingressou no Seminário Arquidiocesano de São José em 1992, sendo ordenado diácono pelo Cardeal Eugenio de Araujo Sales, em 8 de novembro de 1997, e presbítero em 15 de agosto de 1998.
Sua trajetória acadêmica revela o mesmo zelo que caracterizou seu ministério. Estudou Filosofia e Teologia, concluiu mestrado em Filosofia Medieval e Antiga pelo Institut Catholique de Paris, mestrado e doutorado em Teologia Sistemático-Pastoral pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e realizou o Curso de Altos Estudos de Política e Estratégia na Escola Superior de Guerra. Era um sacerdote que compreendia a importância de unir sólida formação intelectual à missão evangelizadora da Igreja.
Ao longo de quase três décadas de sacerdócio, exerceu inúmeros serviços pastorais. Foi vigário paroquial em diversas comunidades, capelão hospitalar, pároco de diferentes paróquias da Arquidiocese do Rio de Janeiro, capelão militar, membro do Conselho Presbiteral, assessor administrativo da Casa do Padre do Rio de Janeiro e, desde 20 de outubro de 2023, cônego efetivo da Insigne Colegiada de São Pedro, assumindo também o ofício de teologal da instituição. Em cada missão que recebeu, procurou responder com disponibilidade, humildade e espírito de comunhão.
Também deixou significativa contribuição para a reflexão teológica. Em 2018, publicou a obra A Visão Política de Santo Agostinho: Utopia ou Realidade?, fruto de seus estudos sobre a clássica obra A Cidade de Deus. Em 2026, ofereceu à Igreja mais um importante trabalho com o lançamento de Os Fundamentos da Paz em Santo Agostinho num Mundo em Conflito, aprofundando a compreensão cristã da paz como expressão da ordem do amor, da justiça e do bem comum. Sua produção intelectual revela um sacerdote profundamente comprometido em fazer dialogar a riqueza da tradição cristã com os desafios do mundo contemporâneo.
Cônego Paulo Hamurábi foi um verdadeiro soldado de Cristo, anunciando o Evangelho com coragem, inteligência, serenidade e fidelidade. Sua presença marcou profundamente as comunidades por onde passou, não apenas pelas palavras que pronunciava, mas pela coerência de vida que testemunhava diariamente. Catequizava, antes de tudo, por seu exemplo, despertando nos fiéis o amor às Sagradas Escrituras, à Igreja e aos sacramentos.
Sua partida representa uma perda imensurável para nossa Igreja particular, mas, na esperança da fé, podemos afirmar que é também um grande ganho para o Céu. Cremos que descansou do longo oferecimento de seus sofrimentos e concluiu com fidelidade a missão que o Senhor lhe confiou. Como servo bom e fiel, entregou sua vida ao anúncio da Palavra e ao cuidado do rebanho que lhe foi confiado.
Neste momento de dor, manifesto minha proximidade espiritual aos seus familiares, aos paroquianos da Paróquia São Domingos de Gusmão, aos irmãos sacerdotes, aos diáconos, aos religiosos, aos seminaristas e a todos os fiéis que choram sua ausência. Que o Senhor seja o consolo de todos e fortaleça nossa esperança na ressurreição.
Agradecemos a Deus pela vida e pelo ministério do cônego Paulo Hamurábi, por todo o bem que ele fez como sacerdote do Senhor. Que a luz perpétua o ilumine e que ele receba a bem-aventurança eterna, podendo contemplar Aquele a quem conheceu, amou e serviu, sendo fiel até o fim.
Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro-RJ