O 13º Seminário de Comunicação Social, promovido pela Arquidiocese do Rio de Janeiro e realizado no Centro de Estudos do Sumaré, de 18 a 21 de agosto, reuniu 120 participantes, entre comunicadores, pesquisadores e profissionais de diferentes áreas, para refletir sobre as transformações que marcam o cenário contemporâneo da comunicação.
Com o tema “Narrativas imersivas e confiança pública: desafios da comunicação humana entre transmídia, IA e desinformação”, o encontro teve sua abertura marcada pela mensagem do arcebispo metropolitano do Rio de Janeiro, Cardeal Orani João Tempesta, que chamou a atenção para a responsabilidade dos comunicadores diante das novas tecnologias e para a necessidade de preservar a dimensão humana em um ambiente cada vez mais mediado por algoritmos e sistemas de inteligência artificial.
Ao acolher os participantes, Dom Orani dirigiu uma saudação especial aos profissionais que atuam nas dioceses, paróquias, pastorais, movimentos, organismos e meios de comunicação e que assumem diariamente a missão de comunicar a fé. Para o arcebispo, essa tarefa não se limita à divulgação de acontecimentos ou à transmissão de informações sobre a vida eclesial, mas está diretamente relacionada à missão evangelizadora da Igreja e à sua capacidade de dialogar com as inquietações, dores, sonhos e esperanças das pessoas.
“Comunicar a Igreja é uma missão que exige competência, mas, antes de tudo, exige responsabilidade. Não somos chamados apenas a transmitir informações sobre a vida da Igreja. Somos chamados a colaborar para que a Boa-Nova do Evangelho encontre os homens e as mulheres do nosso tempo, suas perguntas, suas inquietações, suas dores e também seus sonhos e esperanças.”
Novas linguagens e narrativas
Ao abordar o tema central do Seminário, o arcebispo observou que a sociedade atravessa uma transformação profunda na maneira de produzir, compartilhar e receber informações. Texto, fotografia, vídeo, áudio, redes sociais, podcasts, jogos, transmissões ao vivo, ambientes digitais e inteligência artificial passaram a integrar um mesmo ecossistema comunicacional. Nesse cenário, as pessoas transitam naturalmente entre diferentes plataformas e linguagens, fazendo com que uma narrativa possa começar em determinado meio, continuar em outro e adquirir novos significados a partir da participação do público.
Na avaliação do arcebispo, as narrativas transmídia e os ambientes imersivos representam também uma oportunidade para a Igreja. Ao longo da história, recordou, a evangelização estabeleceu diálogo com as linguagens próprias de cada época, utilizando a arte, a música, a arquitetura, a imprensa, o rádio e a televisão. As redes digitais e as novas tecnologias inserem-se nesse processo histórico e não devem ser consideradas somente como ameaças, mas como ambientes nos quais a vida humana também se desenvolve e onde, portanto, a Igreja é chamada a estar presente.
Essa presença, entretanto, não pode ser confundida com a simples ocupação de plataformas. O arcebispo advertiu que números elevados de visualizações, conteúdos tecnicamente bem produzidos ou grande alcance não significam necessariamente que tenha ocorrido verdadeira comunicação. Para a Igreja, comunicar pressupõe relação, proximidade e encontro. A referência apresentada pelo arcebispo foi o próprio mistério cristão da Encarnação: Deus não se limitou a enviar uma mensagem, mas fez-se presença na história humana.
“Podemos alcançar milhares de pessoas e não conseguir estabelecer uma relação. Podemos produzir conteúdos tecnicamente excelentes e não tocar o coração de ninguém. Porque a comunicação cristã não pode ser reduzida à transmissão de conteúdos. A comunicação da Igreja é, essencialmente, comunicação de uma presença.”
Inteligência artificial e o desafio de preservar o humano
A partir dessa perspectiva, Dom Orani colocou no centro de sua reflexão uma das questões que considera fundamentais para o atual momento: como preservar o humano em uma realidade na qual uma parcela crescente da comunicação passa pela mediação de algoritmos e sistemas de inteligência artificial. Ele reconheceu as possibilidades proporcionadas pela IA, que pode auxiliar na pesquisa, organização de informações, tradução, produção de materiais e imagens e ampliação do alcance dos conteúdos. Ao mesmo tempo, destacou que esses recursos introduzem novas responsabilidades para quem comunica.
Desinformação e crise de confiança
A capacidade tecnológica de criar imagens de fatos inexistentes, reproduzir vozes, alterar vídeos e atribuir declarações falsas a pessoas traz, segundo o arcebispo, uma pergunta decisiva sobre a confiança. Nesse contexto, a disseminação de fake news, conteúdos manipulados e deepfakes torna mais difícil, em determinadas situações, distinguir o real do artificial. Soma-se a isso a atuação dos algoritmos, que tendem a apresentar aos usuários conteúdos semelhantes àqueles com os quais já concordam ou que habitualmente consomem, favorecendo ambientes informacionais fechados e contribuindo para o crescimento da polarização.
“Vivemos uma verdadeira crise de confiança pública. A desinformação se espalha com enorme velocidade. As chamadas fake news, os conteúdos manipulados e os deepfakes tornam cada vez mais difícil distinguir, em determinados contextos, o real do artificial.”
Diante desse cenário, o arcebispo ressaltou a responsabilidade da comunicação da Igreja com a verdade, entendida não como instrumento de confronto, mas como caminho capaz de libertar, reconciliar e conduzir ao encontro. Para tornar-se uma presença de confiança em uma sociedade marcada pela desinformação, afirmou, é necessário verificar antes de publicar, contextualizar informações, corrigir erros quando necessário, evitar rumores e rejeitar o uso da indignação ou da emoção como instrumentos de manipulação.
Alcance não é sinônimo de evangelização
Outro aspecto enfatizado foi a necessidade de não submeter a comunicação eclesial exclusivamente aos critérios que determinam o desempenho nas plataformas digitais. O arcebispo alertou para o risco de confundir alcance com impacto, audiência com relação e viralização com evangelização. Enquanto a lógica algorítmica procura aquilo que consegue reter a atenção do usuário, a missão evangelizadora, segundo ele, deve perguntar o que é capaz de tocar o coração e aproximar as pessoas de Deus e umas das outras.
“Nem tudo aquilo que gera engajamento gera comunhão. Essa talvez seja uma das grandes tentações da comunicação contemporânea: confundir alcance com impacto, audiência com relação, viralização com evangelização.”
A reflexão também contrapôs algumas características predominantes nas redes digitais, como velocidade, novidade e polarização, aos valores que devem orientar a comunicação inspirada no Evangelho: escuta, paciência, discernimento, reconciliação e comunhão. Para o arcebispo, isso não significa abandonar as novas linguagens, mas aprender a utilizá-las a partir de uma lógica diferente. Nesse sentido, a Igreja pode contribuir para o ambiente digital oferecendo discernimento diante do excesso de informações, diálogo diante da polarização, compromisso com a verdade diante da desinformação, comunidade diante da solidão e esperança diante do medo.
A autenticidade da voz humana
Ao mencionar as preocupações apresentadas pelo Papa Leão XIV sobre a preservação das vozes humanas diante dos algoritmos, o arcebispo destacou que a autenticidade não pode ser fabricada pela tecnologia. Uma voz humana, afirmou, traz consigo uma história, uma responsabilidade, uma experiência e um testemunho. Essa dimensão é particularmente significativa para a comunicação cristã porque, conforme ressaltou, o Evangelho não constitui simplesmente uma informação a ser transmitida, mas uma vida a ser testemunhada.
“A tecnologia pode reproduzir uma voz, mas não consegue fabricar a autenticidade de uma vida.”
A partir dessa constatação, Dom Orani propôs aos participantes uma reflexão que ultrapassa a discussão sobre ferramentas e plataformas. Mais do que perguntar como a Igreja deverá comunicar no futuro, considerou necessário questionar que futuro humano a comunicação pode ajudar a construir. A alternativa apresentada coloca, de um lado, uma realidade em que as pessoas são reduzidas a perfis, números e indicadores de desempenho e, de outro, uma cultura que reconhece a dignidade de cada indivíduo.
Para o arcebispo, o futuro da comunicação da Igreja não será determinado somente pelas tecnologias disponíveis, mas pela capacidade de colocá-las a serviço da pessoa humana. Essa perspectiva exige reconhecer que o valor de alguém não depende de sua influência, do número de seguidores ou de sua capacidade de gerar engajamento. Cada pessoa, ressaltou, é única, merece respeito e escuta e não pode ser reduzida a um dado.
O encontro como essência da comunicação cristã
Ao final da mensagem, Dom Orani convidou os comunicadores a encarar as novas tecnologias com realismo e esperança, sem medo da inovação, mas também sem ingenuidade diante de seus riscos. Defendeu o uso ético da inteligência artificial, a construção de narrativas criativas sem manipulação, uma presença digital que não elimine a proximidade humana, a comunicação da verdade sem agressividade e o diálogo sem abandono das próprias convicções. Acima de tudo, pediu que os profissionais não percam a capacidade de reconhecer o outro como irmão.
“Porque, no final, a grande tecnologia da comunicação cristã continua sendo o encontro. Um rosto diante de outro rosto. Uma história diante de outra história. Uma pessoa que escuta outra pessoa. Uma comunidade que acolhe. Uma Igreja que acompanha. Um coração que encontra outro coração.”
Confiando os comunicadores à proteção de Nossa Senhora, apresentada como mulher da escuta, do silêncio, da acolhida e da esperança, o Cardeal expressou o desejo de que o Seminário não se limitasse ao aprendizado de novas ferramentas, mas se transformasse em oportunidade de renovação da missão daqueles que atuam na comunicação da Igreja. Em um tempo caracterizado por muitas vozes e incertezas, sintetizou a missão dos comunicadores em quatro compromissos que atravessaram sua mensagem: servir à verdade, construir confiança, promover o encontro e comunicar esperança.
“Que possamos ser, neste tempo de tantas vozes e tantas incertezas, servidores da verdade, construtores da confiança, artesãos do encontro e comunicadores da esperança.”
Carlos Moioli