Exposição “Caminhos da Fé” resgata a memória da fé e o compromisso com o futuro no contexto do Ano Jubilar

O Museu Arquidiocesano de Arte Sacra do Rio de Janeiro, localizado no subsolo da Catedral de São Sebastião, no Centro, acolheu, no dia 28 de abril, a abertura da exposição “Caminhos da Fé: 450 anos de história da Prelazia à Catedral, guardados pelo Museu”. O evento reuniu o arcebispo do Rio de Janeiro, Cardeal Orani João Tempesta, os bispos auxiliares Dom Roque Costa Souza e Dom Hiansen Vieira Franco, sacerdotes, autoridades civis e políticas, representantes de religiões integrantes da Comissão Diálogo e Paz e agentes de pastorais e movimentos eclesiais.

A cerimônia teve como mestre de cerimônias o seminarista José Ítalo da Silva Onofre e foi precedida pela execução do Hino do Jubileu Arquidiocesano, composto por Dom Orani e pelo maestro Marcos Paulo. Durante a abertura, foram ainda cantadas as músicas “Jorra uma fonte de graça” e “O coração do homem quer libertação”, que integram o repertório da Missa do Tricentenário.

A exposição propõe um percurso histórico e espiritual que abrange quatro séculos e meio da presença da Igreja no Rio de Janeiro, evidenciando a evangelização por meio de símbolos, ritos e expressões da arte sacra. O acervo apresentado revela a riqueza da religiosidade do povo carioca e sua contribuição para a formação cultural e espiritual da cidade.

A iniciativa celebra marcos importantes da história eclesial local, como os 450 anos da criação da Prelazia do Rio de Janeiro, os 350 anos de sua elevação à Diocese, os 50 anos da Catedral Metropolitana de São Sebastião e os 25 anos de abertura do Museu Arquidiocesano de Arte Sacra ao público.

 

Expansão da evangelização no Brasil

O primeiro a discursar foi o padre Eduardo Douglas, que abordou a história dos 450 anos da Prelazia do Rio de Janeiro, destacando o papel decisivo da Igreja na formação religiosa, social e territorial da cidade e de grande parte do Brasil colonial.

A Prelazia, segundo padre Eduardo, criada em 1575 pela bula In supereminenti Militantis Ecclesiae, do Papa Gregório XIII, funcionou como uma “quase diocese”, organizando a vida pastoral em um vasto território que se estendia do sul da Bahia até regiões próximas ao atual Uruguai.

Segundo o sacerdote, a criação da Prelazia esteve diretamente ligada à consolidação da presença portuguesa no Rio de Janeiro após a expulsão dos franceses. “À esfera civil correspondia o governador; à esfera religiosa, um governo eclesiástico capaz de ordenar a vida pastoral”, afirmou, destacando que, em muitas regiões, a Igreja chegou antes mesmo da estrutura civil plenamente organizada.

 

Memória viva da Diocese do Rio de Janeiro

Em sua mensagem, o bispo auxiliar do Rio de Janeiro, Dom Hiansen Vieira Franco, destacou os 350 anos da Diocese como expressão viva da caminhada evangelizadora da Igreja na cidade, ressaltando a importância da preservação da memória para a compreensão da identidade cristã.

Ele afirmou que a iniciativa evidencia o cuidado da Igreja em conservar sua história e torná-la acessível à sociedade. “O que a presente exposição nos propõe é uma imersão no nosso próprio passado eclesial”, destacou, ao sublinhar o valor dos elementos históricos e artísticos como testemunho da fé ao longo dos séculos.

Dom Hiansen enfatizou que o Museu Arquidiocesano exerce papel essencial na valorização das raízes da Igreja. “O Museu Arquidiocesano de Arte Sacra é uma realidade necessária porque nos sensibiliza e conscientiza do valor das nossas raízes”, afirmou, comparando a memória à base que sustenta a vida e a identidade de um povo.

Ao refletir sobre o significado da memória histórica, o bispo alertou para os riscos de sua perda. “Não se pode educar sem memória”, citou, recordando o ensinamento do saudoso Papa Francisco sobre a importância de conhecer o passado para construir um futuro com sentido.

Ele também destacou que a fé cristã se expressa por meio da arte e da cultura, tornando visível a ação de Deus na história. “O cristianismo se define como sendo uma religião da memória”, afirmou, ressaltando que os objetos sacros e os testemunhos preservados são sinais concretos da presença de Deus na vida do povo.

Dom Hiansen destacou que a exposição vai além de uma proposta cultural, sendo também um convite à vivência da fé e ao compromisso com o futuro. “A visita ao museu inspira gratidão pelo passado, mas também compromisso com o presente e o futuro”, concluiu.

 

50 anos da Catedral Metropolitana

O pároco da Catedral Metropolitana e diretor administrativo do Museu Arquidiocesano, cônego Cláudio dos Santos, destacou em sua mensagem os 50 anos da Catedral de São Sebastião como marco da presença da Igreja no coração da cidade do Rio de Janeiro. Ele ressaltou a importância histórica e pastoral do templo, inaugurado em 1976 como sede definitiva da cátedra arquiepiscopal.

O sacerdote recordou que a construção da Catedral foi fruto de um longo processo conduzido por importantes pastores da Igreja. “O Rio passou a ter a sua Catedral com um espaço próprio, à altura de sua importância histórica, política e religiosa”, afirmou, mencionando o papel de Dom Jaime de Barros Câmara, monsenhor Ivo Calliari e do Cardeal Eugenio de Araujo Sales na consolidação do projeto.

Ao destacar a arquitetura do templo, cônego Cláudio ressaltou seu caráter catequético e simbólico, e propôs uma reflexão espiritual: a verdadeira beleza da Catedral revela-se no interior, assim como a ação de Deus na vida humana. “Só conseguimos admirar e entender a beleza quando nos permitimos entrar e contemplar. É assim que Deus age entre nós”, disse. Ele acrescentou ainda que, enquanto o mundo muitas vezes se detém nas aparências externas, Deus contempla o interior dos corações: “Deus não vê o externo, Deus vê o interior”. Ele explicou ainda que os vitrais representam uma verdadeira catequese sobre a Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica.

O pároco também sublinhou a dimensão espiritual e acolhedora da Catedral, especialmente em meio à dinâmica urbana. “A Catedral é atualmente um oásis no Rio contemporâneo”, disse, ao destacar o espaço como lugar de silêncio, oração e encontro com Deus no centro da cidade.

Além da dimensão religiosa, a Catedral se consolidou como referência no atendimento aos mais necessitados. “Tornou-se um grande polo caritativo, com o abraço do Pai misericordioso”, afirmou.

 

25 anos do Museu Arquidiocesano

O vigário episcopal do Vicariato para a Cultura, cônego Marcos Willian Bernardo, destacou os 25 anos do Museu Arquidiocesano de Arte Sacra como espaço privilegiado de memória, fé e cultura na vida da Igreja no Rio de Janeiro. Em sua mensagem, ressaltou o valor da arte sacra como linguagem que expressa a experiência do sagrado ao longo da história.

O sacerdote recordou as origens da arte cristã nos primeiros séculos, especialmente nas catacumbas, quando os fiéis, mesmo em meio à perseguição, buscavam manifestar sua fé. “A arte cristã começa não impulsionada pela estética, mas pelo simbolismo que contava a fé”, afirmou.

Cônego Marcos explicou que a arte sacra vai além da dimensão estética e possui uma função essencial na vida litúrgica da Igreja. “A arte sacra é uma linguagem para falar do sagrado, da relação do homem com Deus”, disse.

Ao refletir sobre o papel do museu, destacou que o espaço permite o encontro com essa herança espiritual e cultural. “Falar de arte sacra é falar de vida, de vida eclesial, de experiência de Deus”, afirmou.

O vigário episcopal enfatizou que a exposição convida à contemplação. “A arte é uma mostra, um símbolo que nos liga a tantas pessoas que viveram antes de nós”, concluiu.

 

Proposta cultural e espiritual da exposição

Na sua mensagem, o diretor artístico do Museu Arquidiocesano de Arte Sacra, padre Fernandes Elias Júnior, apresentou a proposta cultural e espiritual da mostra, destacando seu caráter histórico, formativo e acessível ao público. A iniciativa, segundo ele, nasceu do desejo de valorizar a memória da Igreja no Rio de Janeiro. “Foi um revisitar a nossa história”, afirmou.

O sacerdote ressaltou que a exposição reúne peças de diferentes períodos. “Nós adentramos as nossas reservas técnicas e trouxemos elementos desde o Brasil Colônia para que todos tenham acesso a esse patrimônio”, disse.

Padre Fernandes evidenciou a riqueza do acervo apresentado. “Temos objetos de quase todas as catedrais, mobiliários, prataria, objetos litúrgicos e também peças da família imperial”, explicou.

A proposta da exposição segue uma organização didática. “Tem que ser didático”, destacou.

Ele também ressaltou o caráter espiritual da mostra. “É uma exposição rica e cheia de detalhes, feita para que todos possam conhecer e celebrar esses 450 anos”, afirmou.

 

Memória e missão para o futuro

Durante a abertura da exposição “Caminhos da Fé”, o arcebispo do Rio de Janeiro, Cardeal Orani João Tempesta, destacou a importância da memória histórica da Igreja como fundamento para a missão evangelizadora no presente e no futuro. Em sua mensagem, ressaltou o significado do momento celebrado no contexto do Ano Jubilar Arquidiocesano. “É um ponto de chegada e ponto de partida”, afirmou.

Dom Orani evidenciou o papel do Museu Arquidiocesano e do arquivo da Arquidiocese como guardiões da história da fé e da própria sociedade brasileira. “Marca um pouco a história, não só da Igreja, mas também a história do Brasil”, disse, ao recordar que documentos e objetos preservados testemunham a trajetória de pessoas que deixaram “marcas indeléveis” na vida da cidade.

O arcebispo recordou ainda os marcos celebrados ao longo do jubileu, como os 450 anos da Prelazia, os 350 anos da Diocese e os 50 anos da Catedral Metropolitana, ressaltando a ação da providência divina na condução da história. “São histórias que marcam as nossas vidas e a nossa caminhada como povo de São Sebastião do Rio de Janeiro”, afirmou.

Ao refletir sobre o presente, Dom Orani destacou que, embora o território da Arquidiocese seja hoje menor do que no passado, os desafios são maiores. “Hoje temos uma realidade menor territorialmente, mas com população e preocupações muito maiores”, observou, sublinhando a necessidade de renovado compromisso com a missão evangelizadora.

O arcebispo também destacou que a memória não deve ser apenas recordada, mas assumida como responsabilidade. “Queremos não só recordar, mas também nos responsabilizar”, afirmou, incentivando os fiéis a levarem adiante a missão recebida ao longo da história.

Por fim, Dom Orani exortou os presentes a se reconhecerem como continuadores dessa trajetória de fé. “Precisamos ver com os olhos, com o coração e com a vida”, disse, acrescentando: “Sejamos responsáveis e dignos sucessores daqueles que nos precederam”, ao convidar especialmente as novas gerações a valorizarem a memória e a cultura como parte essencial da identidade cristã e da missão da Igreja.

 

Carlos Moioli

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