Festa da Anunciação do Senhor

“Eis aqui a serva do Senhor, faça-se em mim segundo a tua Palavra” (Lc 1,38)

 

Celebramos no dia 25 de março a Festa da Anunciação do Senhor. Do mesmo modo que a Festa de São José, essa festa ocorre dentro do período quaresmal e, por isso, nesse dia o jejum é facultativo, e durante a missa pode entoar-se o hino de louvor. Quando o dia 25 de março cai na Semana Santa, a festa é transferida para a segunda semana da Páscoa. Isso depende do início do tempo quaresmal e da data em que é celebrada a Páscoa. Neste ano, por exemplo, a Quaresma iniciou no dia 5 de março e, no dia da Festa da Anunciação, estaremos ainda na terceira semana da Páscoa.

Essa festa ocorre exatamente nove meses antes do Natal do Senhor, pois, a partir de então, acompanhamos todo o período de gestação de Nossa Senhora. Essa festa remete ao momento em que o anjo Gabriel aparece a Nossa Senhora e revela que ela seria a Mãe do Salvador. Maria foi a escolhida por Deus, encontrou graça diante de Deus e dos homens. Entre tantas mulheres na Terra, Deus a escolheu para cumprir o seu plano de amor para toda a Humanidade.

Maria é a Imaculada, ou seja, sem a mancha do pecado. Por isso, ela encontrou graça diante de Deus. Nossa Senhora, após o anúncio do Anjo, fica “cheia do Espírito Santo”. Por isso, ela vai transmitir esse Espírito Santo para Isabel, que estava esperando João Batista em seu ventre. Isabel e o menino ficam cheios do Espírito Santo, até porque o menino que Isabel esperava teria uma missão importante pela frente: ser o precursor, aquele que prepararia o caminho para a chegada do Messias.

Podemos dizer que o “sim” de Nossa Senhora ao plano de amor de Deus mudou a história da Humanidade, pois, ao aceitar a missão de ser a Mãe de Jesus, Deus selou de uma vez por todas a aliança de amor com a Humanidade através da morte de Jesus na Cruz e da posterior ressurreição. Jesus é a nova lei. Como Ele mesmo disse, não veio abolir a lei antiga, mas dar pleno cumprimento. Como Nossa Senhora diz no cântico do Magnificat, Deus fez maravilhas com o seu povo e escolheu essa humilde serva para ser a Mãe do Filho de Deus.

Nossa Senhora estava prometida em casamento com José, mas ainda não viviam maritalmente, estavam noivos. A notícia da gravidez de Nossa Senhora pegou de surpresa a José. Por isso, ele toma a atitude de abandonar Nossa Senhora em segredo. Mas o Anjo lhe revela que o Filho que Nossa Senhora esperava era o Filho de Deus e que ele deveria aceitá-los e cuidar deles. José se torna um pai e esposo exemplar. Nossa Senhora guardava todas as coisas no coração, e Jesus crescia em sabedoria, estatura e graça. Deus escolheu uma família para revelar o seu Filho e para que essa família fosse um exemplo para todos nós.

Lucas é o único dos evangelistas sinóticos que narra esse momento, justamente para mostrar às primeiras comunidades cristãs como se deu a encarnação do Verbo. São Lucas escreveu o seu Evangelho por volta dos anos 70/80 d.C. e, como havia muitos recém-convertidos dentro da comunidade, pairava a dúvida. A narrativa bíblica explicita o diálogo entre o humano e o divino, entre Maria e o Anjo, que, na ocasião, era o mensageiro de Deus. Ao longo da história da salvação, Deus sempre falou ao povo por meio de seus mensageiros, como, por exemplo, profetas, pastores, reis e anjos. Lucas é o único evangelista que explicita as passagens sobre a infância de Jesus.

O fundamento dessa solenidade encontra-se na narrativa do Evangelho de Lucas (Lc 1,26-38). Essa solenidade exalta o “sim” de Maria ao projeto salvífico de Deus para toda a Humanidade. Podemos imaginar o que seria de nós se Nossa Senhora não tivesse dado o seu “sim”. Através de seu “sim”, foi possível a encarnação do Filho de Deus. A história da salvação teve continuidade: Jesus morre na Cruz para nos salvar, vence a morte e nos deixa o Espírito Santo como mediador.

Através dos concílios de Niceia (325) e Constantinopla (381), os padres da Igreja defenderam a virgindade perpétua de Nossa Senhora e, sobretudo, como se deu a Encarnação do Verbo de Deus. Nesses dois concílios, foi estabelecido o Credo Niceno-Constantinopolitano, que declara definitivamente que Jesus nasceu de Maria e é o Filho de Deus.

Jesus tinha consigo as duas naturezas, a humana e a divina. Elas não se confundiam, mas coabitavam em plena união hipostática. O pequeno e humilde filho do carpinteiro de Nazaré era o Filho de Deus, através da ação do Espírito Santo ao longo da história.

A Igreja, através de seu Magistério e dos conhecidos padres da Igreja, continuou os estudos, pois nada na Igreja é imposto aos fiéis ou instituído de qualquer maneira, mas é fruto de um longo estudo. No ano de 431, foi proclamado o dogma “Theotokos”, ou seja, Maria, Mãe de Deus. Se ela é a Mãe de Jesus e Ele é o Filho de Deus, consequentemente, ela é Mãe de Deus. Após a Igreja decretar esse dogma, foi institucionalizada a Festa da Anunciação do Senhor.

Somente no século VI, por meio do Pontífice Sérgio I, a Igreja introduziu definitivamente a Festa da Anunciação do Senhor, celebrando sempre no dia 25 de março, exatamente nove meses antes do Natal do Senhor. Em Maria, Deus realiza o plano salvífico no tempo e na história.

Celebremos com alegria e com o coração agradecido a Deus e a Nossa Senhora a Festa da Anunciação do Senhor. Perguntemos, em nosso íntimo, se temos respondido “sim” aos projetos de Deus para a nossa vida, se temos acolhido com gratidão. Que possamos nutrir uma vida de oração e criar uma intimidade com o Senhor, pois, assim, fica mais fácil responder com sim aos projetos de Deus para nós.

 

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

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