Finados: convite para nos prepararmos para a morte!

A comemoração de Todos os Fiéis Defuntos coloca toda a Igreja diante do mistério da morte. É um dia dominado pela saudade afetuosa das pessoas falecidas que nós amávamos quando vivas. No dia 2 de novembro, a Igreja convida-nos, com maior insistência, a rezar e a oferecer sufrágios pelos fiéis defuntos do Purgatório. Com esses nossos irmãos, que “também participaram da fragilidade própria de todo o ser humano, sentimos o dever — que é, ao mesmo tempo, uma necessidade do coração — de oferecer-lhes a ajuda afetuosa da nossa oração, a fim de que qualquer eventual resíduo de debilidade humana, que ainda possa adiar o seu encontro feliz com Deus, seja definitivamente apagado” (São João Paulo II, no cemitério em Madri, 02/11/1982).

O Dia de Finados é dia de aprendizado: para lembrar o que somos e o que nos aguarda. Hoje é dia de aprender com a morte. Quando nasce alguém, pouco se pode dizer: talvez venha a ser sábio, talvez não; talvez rico, talvez pobre; talvez viva muito tempo, talvez não. Mas de ninguém se diz: talvez morra, talvez não. A única coisa certa na vida é a morte. E o incrível é que, se alguém está com uma doença incurável, dizemos: pobrezinho, deve morrer, está condenado, não tem cura, está com os dias contados. Mas não deveríamos dizer o mesmo de cada um que nasce? Dizia Santo Agostinho: a morte é uma doença incurável que contraímos ao nascer. Nascemos para morrer. Pode parecer trágico a alguns, mas é a pura verdade.

O fato de que vamos morrer nos ensina a aproveitar o tempo que nos resta. É a seriedade da vida e da morte. Todos os dias morremos um pouco. E sempre estamos a um só passo da morte. Sua possibilidade real pesa sobre cada um de nós. Milhares de pessoas morrem a cada minuto. Muitas delas não pensavam na morte mais do que nós. Não há nada mais certo do que a morte, nem nada mais incerto do que o momento em que ela virá. Logo nos encontraremos diante de Deus para a retribuição eterna. E de que adiantará ter conquistado o mundo inteiro? Mais dia, menos dia, tudo deixaremos.

Nós, cristãos, devemos crer que nossos mortos vivem num sentido bem verdadeiro e pleno: vivem “em Deus”.

“As almas dos justos estão na mão de Deus”, diz a Escritura, “nenhum tormento os tocará” (Sb 3,1). A coisa mais útil que podemos fazer enquanto meditamos a Palavra de Deus não é, portanto, falar dos mortos, mas falar da morte. A morte toca de perto a todos nós. Diante dela, somos radicalmente iguais, todos indefesos, como crianças que, na escuridão da noite, sozinhas na grande cama dos pais, medrosas, apertam-se entre si.

Dom José Maria Pereira

Bispo Auxiliar da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro

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