Criado em janeiro de 1992 numa paróquia de Cascadura, o Testemunho de Fé se tornou veículo oficial da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro no ano do Grande Jubileu do Milênio e hoje segue registrando, semana a semana, a vida das comunidades católicas da cidade.
O jornal Testemunho de Fé chegou no domingo, 16 de agosto, à edição de número 1.500. São 34 anos de circulação ininterrupta, período em que a publicação passou de informativo paroquial reproduzido em xerox a veículo oficial da Arquidiocese, hoje sob a responsabilidade da Fundação Catedral.
O papel dos jovens na comunicação pastoral
A origem do jornal está ligada à pastoral juvenil. Na primeira quinzena de janeiro de 1992, jovens do Grupo Amor e Força da Amparo, ligado à Pastoral da Juventude, decidiram produzir um informativo para a comunidade da Paróquia Nossa Senhora do Amparo e Santa Maria Goretti, em Cascadura, na Zona Norte do Rio. À frente da iniciativa estavam Fernando Magalhães e Alex Assis. “O jornal é resultado da Crisma que fiz em 1991”, conta Fernando, que se preparava então para cursar jornalismo. A primeira edição contou com a participação de várias pessoas da comunidade e foi reproduzida em xerox a partir de uma única matriz. A capa trazia um desenho de Jesus, feito à mão por Emmanuel Martins, também integrante do grupo.
O padre Antônio Carpinteiro assumiu a paróquia na segunda quinzena daquele mês e acolheu a iniciativa dos jovens, tornando-se seu principal incentivador. “Ele deu apoio e incentivo para a equipe”, recorda o fundador. O pároco permaneceu à frente da publicação como responsável durante toda a fase paroquial. “O Testemunho de Fé é fruto e projeto da juventude”, escreve Fernando. “Jovens recém-crismados tocados pelo amor de Jesus e da Virgem Santíssima que queriam anunciar uma Igreja que evangeliza com novo ardor missionário.”
As três primeiras edições foram feitas em papel A4, com cinco ou seis folhas. A número 3, de março de 1992, é a mais antiga preservada no arquivo. Em maio, a quarta edição já saiu de gráfica, com oito páginas, e trouxe uma cartilha de prevenção à AIDS em oito recomendações, que incluía o direito à cidadania de quem vivia com o vírus, ao lado de um texto sobre a morte de Irmã Dulce. Na mesma edição, um informe anunciava que a Rádio Catedral FM entraria no ar nos meses seguintes, o que se confirmou naquele mesmo ano.
De veículo paroquial a voz da Arquidiocese
A vocação arquidiocesana da publicação amadureceu cedo. “Depois de ter lançado o jornal, descobri que vários estados, como São Paulo, Minas e Bahia, tinham jornais arquidiocesanos, e o Rio de Janeiro não tinha”, afirma Fernando Magalhães. A equipe passou então a cobrir a vida eclesial de toda a Arquidiocese e, em seguida, os principais acontecimentos da Igreja no Brasil. A publicação passou de mensal a quinzenal e, em setembro de 1993, adotou o formato tabloide.
Com a proposta de apresentar uma Igreja atuante e próxima das comunidades, a redação acompanhou celebrações, assembleias episcopais e eventos culturais, recebida com abertura pelos bispos. “A reportagem de O Testemunho de Fé estava em todos os lugares e eventos da Igreja do Rio de Janeiro”, resume o fundador. Numa assembleia da CNBB em Itaici, no interior de São Paulo, o cardeal Eugênio Sales encontrou entre os jornalistas credenciados a equipe do jornal paroquial de Cascadura.
As edições de 1997 documentam esse alcance. Em abril, a publicação acompanhou a 35ª Assembleia Geral dos Bispos e o documento “A Igreja e a Comunicação Rumo ao Novo Milênio”. Em novembro, dedicou 28 fotografias à visita de São João Paulo II ao Rio e noticiou a participação de Dom Eugênio Sales no Sínodo para as Américas. O cabeçalho já trazia então a expressão “órgão católico de circulação na Arquidiocese do Rio”. Em agosto de 1999, o jornal adotou o tamanho standard.
A comunicação a serviço da evangelização
Em 15 de abril de 2000, a própria publicação anunciou aos leitores a possibilidade de ser assumida pela Fundação Catedral, em matéria ilustrada com a fotografia do monsenhor Abílio da Nova, então diretor da instituição. O cardeal Eugênio Sales, que havia fundado a Rádio Catedral FM, desejava dotar a Igreja no Rio de um veículo impresso capaz de dar voz às pastorais e aos movimentos. “Ele pediu que o jornal, que já era conhecido dos padres nas paróquias, fosse passado para a Fundação Catedral”, explica o editor-chefe de jornalismo da instituição, Carlos Moioli. A Fundação Cultural, Educacional e de Radiodifusão Catedral de São Sebastião reunia então a emissora e a Editora Nossa Senhora da Paz.
A edição 136, de 1º de maio de 2000, circulou como órgão oficial da Arquidiocese, no ano do Grande Jubileu. A capa registrava a Semana Santa na Catedral de São Sebastião, que reuniu mais de 30 mil fiéis, com o rito do lava-pés celebrado sobre doze homens desempregados, de 19 a 69 anos, assistidos pela Pastoral Social, e o almoço de Páscoa oferecido a dois mil moradores de rua.
A partir daquele ano, os quase quatro mil Amigos da Rádio, contribuintes mensais da Catedral FM, passaram a receber o jornal em casa. Às comunidades, a publicação chegava junto com o folheto da missa dominical, com pelo menos quinze exemplares por paróquia. Por muitos anos, o jornal manteve ainda uma coluna social assinada por Suelly Vasconcelos, voluntária da rádio e conselheira do Banco da Providência e da Pastoral do Menor, dedicada a aniversários de sacerdotes, bodas e festas das comunidades.
Do impresso ao digital, um novo alcance
Em 2009, o Cardeal Orani João Tempesta assumiu a Arquidiocese e passou a assinar textos no jornal, como haviam feito Dom Eugênio Sales e Dom Eusébio Scheid. Em julho de 2011, a publicação retornou ao formato tabloide. O acervo digital hoje disponível tem início na edição 898, de abril de 2015, e em 2019 o jornal ganhou aplicativo próprio.
A última edição impressa é de 22 de março de 2020, semana em que as igrejas suspenderam as celebrações presenciais. “Não se podia pegar em papel, e até os folhetos deixaram de ser impressos”, relata Moioli. Desde então, o Testemunho de Fé circula exclusivamente em versão digital, repassado pelos grupos paroquiais, pelas pastorais e pelos movimentos. “Por incrível que pareça, verificamos que o jornal é lido por mais pessoas”, observa o editor-chefe. A publicação é sustentada pelos Amigos da Rádio Catedral, grupo de benfeitores do Sistema de Comunicação da ArqRio, cujos nomes são publicados ao fim das páginas.
Memória viva da Igreja no Rio
A edição 1.500 traz a campanha da Cáritas Arquidiocesana em favor das vítimas do terremoto na Colômbia, a abertura da Semana da Família, a admissão de candidatos ao diaconato permanente, a programação da Quaresma de São Miguel e o concerto na Igreja de São Francisco de Paula, com uma missa composta em 1867 por Henrique Alves de Mesquita.
Ao longo de 34 anos, o jornal registrou a ação das pastorais, as festas das padroeiras e o nome de fiéis que nunca haviam aparecido em qualquer publicação, e cada edição fica arquivada na Biblioteca Nacional, à disposição de quem quiser pesquisar, no futuro, a vida da Igreja no Rio de Janeiro deste período. A agenda do arcebispo é hoje o eixo dessa cobertura. Segundo Carlos Moioli, Dom Orani preside celebrações em quase todos os dias da semana, e a redação procura publicar ao menos as principais, o que dá dinamismo não apenas ao jornal, mas à percepção do trabalho realizado na Arquidiocese. É também o limite conhecido da casa: com as paróquias da cidade, os bispos auxiliares, os vigários e os párocos em atividade, é impossível transformar tudo em reportagem. O próprio arcebispo reconhece a desproporção. “Precisaria ter quase um Testemunho de Fé por dia”, afirma, em mensagem em que saúda a edição 1.500. Dom Orani agradece “essa bela herança que recebemos há mais de 30 anos” e pede a colaboração de todos “para que nós continuemos no presente e no futuro anunciando Jesus Cristo através também da imprensa”.