Missa no Santuário Cristo Redentor reforçou o compromisso com a dignidade e os direitos da população em situação de rua

Em um momento de oração, memória e compromisso com a vida, o Santuário Arquidiocesano Cristo Redentor acolheu, no dia 19 de agosto, a celebração eucarística pelo Dia Latino-Americano de Luta da População em Situação de Rua e, no Brasil, pelo Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua.

A celebração reuniu pessoas em situação de rua, representantes da Igreja Católica, movimentos sociais, instituições e visitantes, em um chamado à solidariedade, à fraternidade e à defesa da dignidade humana.

A celebração foi dedicada também às vítimas dos terremotos ocorridos recentemente na Venezuela, na Colômbia e na Indonésia.

Presidida pelo vigário episcopal do Vicariato Episcopal para a Caridade Social, monsenhor Manuel de Oliveira Manangão, a celebração foi promovida pela Pastoral do Povo da Rua da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, pela Rede Dom Hélder Câmara de Economia Solidária, pelo Santuário Cristo Redentor e por instituições parceiras que atuam na defesa dos direitos da população em situação de rua.

Durante a celebração, o monumento ao Cristo Redentor foi iluminado de vermelho, cor do Movimento Nacional da População em Situação de Rua. A iluminação simbolizou solidariedade, visibilidade e defesa da dignidade das pessoas que vivem nas ruas.

Na homilia, monsenhor Manangão destacou que a celebração também era uma oportunidade para refletir sobre as fragilidades humanas e sobre a necessidade de aprender com as tragédias que marcam a história. Para ele, a fraternidade e o amor ao próximo devem orientar a maneira como cada pessoa se relaciona com aqueles que estão ao seu redor. “Ou a gente caminha para a eternidade vivendo na fraternidade ou a gente vai se perder”, destacou o vigário episcopal, ressaltando que todos os seres humanos são iguais e irmãos, independentemente da cor da pele, do fenótipo, do biotipo ou da nacionalidade.

O encontro também foi marcado pela participação do Coral Canto da Rua, formado por pessoas em situação de rua atendidas pela Pastoral do Povo da Rua. As canções entoadas ajudaram a criar um ambiente de acolhimento e demonstraram, nas palavras do sacerdote, a capacidade das pessoas que vivem nas ruas de amar, criar e vivenciar momentos de beleza.

A atuação em defesa da população em situação de rua também faz parte da trajetória do Santuário Cristo Redentor. Segundo Silvia Gonzaga, presidente da Obra Social Leste Um – O Sol e coordenadora dos projetos sociais do Consórcio Cristo Sustentável, formado pelo Santuário Cristo Redentor, pela Obra Social Leste Um – O Sol e pelo Instituto Redemptor, o Santuário participa dessa missão desde 2019, quando teve início o Projeto Banho de Amor.

Ao longo dos anos, novas parcerias foram estabelecidas, entre elas iniciativas com a Catedral Metropolitana de São Sebastião do Rio de Janeiro e o Instituto Dom Hélder Câmara. Durante a celebração, Silvia destacou ainda a implementação de novas ações em parceria com o coletivo “Trilhas de Cuidado nas Ruas”, da Fiocruz. “Essa luta mexe com cada um de nós e nos impele a seguir em frente, a não parar nos obstáculos”, afirmou Silvia, reforçando a importância da união entre instituições para ampliar as iniciativas voltadas às pessoas em situação de rua.

De acordo com dados do Cadastro Único (CadÚnico) de maio de 2026, analisados pelo Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua (OBPopRua/UFMG), mais de 35 mil pessoas em situação de rua vivem no Estado do Rio de Janeiro.

Para Caroline Dias dos Reis, da Secretaria Executiva do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, a construção de políticas públicas voltadas a essa população deve ser responsabilidade do Estado e de toda a sociedade. Ela ressaltou que as pessoas em situação de rua devem ter garantidos direitos como moradia, educação, saúde, circulação e acesso à cidade.

Ao final da celebração, Admael, morador da comunidade do Jacarezinho e pessoa em situação de rua acompanhada pela Pastoral do Povo da Rua, falou sobre a realidade vivida por quem enfrenta essa condição. Ele ressaltou que muitas pessoas chegam às ruas contra a própria vontade e destacou a necessidade de amor e de pessoas dispostas a contribuir para transformar essa realidade.

Admael também agradeceu às pessoas e instituições que fizeram parte de sua trajetória e declamou um poema de sua autoria dedicado àqueles que trabalham pelo cuidado e pela dignidade da população em situação de rua. “Há pessoas medicinais que, quando chegam perto da gente, curam a nossa alma”, declarou.

O dia 19 de agosto tornou-se um marco na luta pelos direitos da população em situação de rua em memória do Massacre da Sé, ocorrido em São Paulo entre os dias 19 e 22 de agosto de 2004. O episódio, que vitimou pessoas que dormiam na Praça da Sé, tornou-se símbolo da violência, da invisibilidade social e da violação de direitos enfrentadas por essa população.

Para Laura Dias, coordenadora do Movimento Nacional de Luta e Defesa da População de Rua, a data representa, ao mesmo tempo, um dia de luto e de luta. A partir da mobilização dos movimentos sociais, importantes conquistas foram alcançadas, mas, segundo ela, ainda existem muitos desafios para que os direitos da população em situação de rua sejam, de fato, garantidos. “Hoje eu luto pela dignidade da população de rua e pelo direito a políticas públicas”, afirmou Laura, defendendo que as políticas públicas alcancem efetivamente as pessoas que vivem nas calçadas.

Para Tânia Ramos, assistente social do Vicariato da Caridade Social e integrante da coordenação da Pastoral do Povo da Rua, um dos principais desafios da pastoral é reconhecer e reafirmar a dignidade de cada pessoa em situação de rua. “Nós não somos diferentes deles. A única coisa que nos difere é a moradia”, destacou. Para ela, o trabalho da pastoral parte do reconhecimento da presença de Cristo no outro e da defesa de direitos fundamentais, como moradia, trabalho, alimentação, educação e lazer.

Ao refletir sobre a celebração, monsenhor Manangão destacou que, embora a data tenha origem em uma tragédia, ela também pode ser uma oportunidade para valorizar os gestos de cuidado, amor e solidariedade que acontecem diariamente. “Diante dessa realidade, é possível fazer uma coisa diferente”, afirmou. Para ele, recordar não apenas as tragédias, mas também os momentos de alegria, beleza, cuidado e amor é uma forma de reconhecer as possibilidades de transformação presentes na sociedade.

A celebração no Santuário Cristo Redentor deixou, assim, a mensagem de que a construção de uma sociedade mais justa passa pelo reconhecimento de que todas as pessoas têm dignidade, direitos e lugar na cidade. Diante do Pai, a fé se encontrou com a ação social em um compromisso de cuidado, escuta e defesa da vida.

 

Vanessa Sabino

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