Monsenhor João de Deus: uma vida entregue a Cristo e à Igreja

Fez sua Páscoa neste Domingo do Senhor, 20 de setembro de 2026, aos 92 anos, monsenhor João de Deus Góis, pároco emérito da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, em Del Castilho. Foram 65 anos de sacerdócio marcados pela oração, pelo amor a Nossa Senhora, pelo zelo pela liturgia e por uma permanente disponibilidade para servir à Igreja e ao povo de Deus.

O velório será realizado nesta segunda-feira, 21 de setembro, na Basílica São Francisco Xavier, na Tijuca, a partir das 9h. Às 10h, será celebrada a Santa Missa e, às 14h30, a celebração das exéquias. O sepultamento acontecerá às 16h, na quadra dos padres da Venerável Irmandade do Príncipe dos Apóstolos São Pedro, no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju.

É um momento de tristeza pela partida de um servo bom e fiel, mas também de esperança e gratidão. À luz da liturgia deste 25º Domingo do Tempo Comum, podemos contemplar sua vida e sua morte nas palavras de São Paulo: “Cristo vai ser glorificado no meu corpo, seja pela minha vida, seja pela minha morte. Pois, para mim, o viver é Cristo e o morrer é lucro” (Fl 1,20-21).

Também podemos recordar a parábola dos trabalhadores da vinha (Mt 20,1-16). Monsenhor João de Deus foi um daqueles operários chamados pelo Senhor desde a primeira hora. Entrou no seminário aos 14 anos e dedicou praticamente toda a sua existência ao serviço do Evangelho. Ao final de uma longa caminhada, confiamos que o Senhor lhe conceda aquilo que prometeu aos que lhe permanecem fiéis: a vida eterna.

A vida e o ministério de monsenhor João de Deus, como ele próprio gostava de recordar, estavam alicerçados na oração, na devoção a Nossa Senhora, no zelo pela liturgia e na disponibilidade para o serviço. Grande parte de sua missão sacerdotal foi vivida em nossa Arquidiocese do Rio de Janeiro.

Agradecemos ao Senhor por sua vida e seu ministério e por todo o bem que realizou em favor de milhares de fiéis por meio da pregação da Palavra de Deus, da celebração da Eucaristia, da administração dos sacramentos, do acompanhamento das comunidades e de sua paternidade espiritual.

A ação de Deus na história se concretiza também nas pessoas que Ele chama e convida a participar de seu mistério. São homens e mulheres concretos, com uma história e uma missão, que o próprio Senhor vai conduzindo para que cresçam na vida cristã e estejam disponíveis ao serviço. Monsenhor João de Deus procurou responder a esse chamado durante toda a sua existência, conduzindo o povo de Deus no caminho da santidade.

Referência espiritual para muitas gerações, esteve sempre próximo do povo, demonstrando ternura, acolhimento, sensibilidade e misericórdia. Configurado a Cristo pelo sacerdócio, dedicou-se inteiramente à Igreja, auxiliando as vocações, seus irmãos sacerdotes, o arcebispo metropolitano e os bispos auxiliares. Acompanhou de perto muitos vocacionados que posteriormente chegaram ao sacerdócio, entre eles os padres Antônio José Afonso da Costa, Carlos Augusto Azevedo da Silva e Leonardo Agostini Fernandes.

Uma vocação cultivada desde a infância

João de Deus Góis nasceu em Simão Dias, no Estado de Sergipe, no dia 4 de maio de 1934. Filho de Leôncio José dos Santos e Conrada de Jesus Góis, ainda criança enfrentou a perda do pai, ficando, com os irmãos, sob os cuidados da mãe.

Iniciou os estudos primários em uma escola administrada pelas Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, em São Cristóvão, cidade onde também viveu, durante o noviciado, Santa Dulce dos Pobres, religiosa da mesma congregação.

De volta à cidade natal, tornou-se coroinha em sua comunidade paroquial. Aos 14 anos, ingressou no Seminário Diocesano Sagrado Coração de Jesus, em Aracaju, para estudar Humanidades, sendo acolhido por Dom Fernando Gomes dos Santos. Na preparação para o sacerdócio, cursou Filosofia no Seminário Arquiepiscopal de Olinda e Recife, concluindo os estudos em 1956, e Teologia no Seminário Arquiepiscopal de Fortaleza, concluída em 1959.

No dia 18 de dezembro de 1960, aos 26 anos, pouco antes do início do Concílio Vaticano II, recebeu a ordenação sacerdotal das mãos de Dom José Vicente Távora, então arcebispo de Aracaju. Ao longo da vida, procurou guardar uma recomendação recebida de seu bispo ordenante: buscar a santidade no exercício do ministério.

Essa entrega foi sintetizada pelo próprio monsenhor João de Deus ao recordar sua vocação: “O meu sacerdócio eu entreguei a Maria, e acredito que ela aceitou. Como mascate de Deus, minha alegria é celebrar todos os dias a Eucaristia com o povo. Na minha vida fiz muitas coisas: batizados, casamentos, primeira comunhão, crisma e até visita pastoral. Sempre procurando fazer que todos sejam pertenças à Igreja de Cristo, que eu amo com todo o meu coração, e quero que todos façam o mesmo”.

Os primeiros anos do sacerdócio

Durante os nove anos em que permaneceu na Arquidiocese de Aracaju, exerceu o ministério como vigário ecônomo nas paróquias Nossa Senhora do Rosário, em Rosário do Catete, e Nossa Senhora da Saúde, em Japaratuba.

Em Aracaju, foi capelão do Colégio Patrocínio de São José e do Hospital São José. Também foi pároco em Carmópolis e vigário cooperador na Paróquia Nossa Senhora da Vitória, em São Cristóvão.

Em 1969, ainda jovem sacerdote, chegou à Arquidiocese do Rio de Janeiro, onde seria incardinado em 1986. Nomeado pelo Cardeal Jaime de Barros Câmara, assumiu a Paróquia Divino Espírito Santo, no Barata, em Realengo.

Pouco tempo depois, já durante o governo pastoral do Cardeal Eugenio de Araujo Sales, uma das capelas sob seus cuidados, situada no Jardim Novo, em Realengo, foi elevada à condição de paróquia. Em 24 de junho de 1971, foi criada a Paróquia Nossa Senhora de Fátima e São João de Deus, tendo padre João de Deus como seu primeiro pároco. Ali permaneceu durante três anos, dedicando especial atenção à formação religiosa das crianças.

Quatro décadas em Del Castilho

Em 1974, padre João de Deus foi transferido para a Paróquia Nossa Senhora do Rosário, em Del Castilho, na Zona Norte do Rio. Curiosamente, reencontrava no Rio a mesma padroeira da primeira paróquia em que havia exercido o ministério ainda na Arquidiocese de Aracaju.

Del Castilho se tornaria uma referência fundamental de sua trajetória sacerdotal. Foram 42 anos dedicados à comunidade, acompanhando gerações de famílias, celebrando os sacramentos, formando agentes pastorais e participando intensamente da vida da Igreja no Vicariato Suburbano.

Ao lado da missão paroquial, dedicou-se à preparação dos ministros extraordinários da Sagrada Comunhão do Vicariato Suburbano, a pedido do então vigário episcopal, monsenhor Feliciano Castelo Branco.

No mesmo vicariato, exerceu as funções de coordenador de liturgia, coordenador da Pastoral Vocacional e vigário forâneo da 5ª Região. A serviço da Arquidiocese, integrou o Conselho Presbiteral e a Comissão Arquidiocesana de Liturgia, além de ter sido, durante cinco anos, responsável pela produção do folheto da Missa.

Seu cuidado com a formação cristã também se expressou por meio da escrita. Publicou seis livros relacionados à fé, à liturgia e aos sacramentos: “Pequeno Catecismo do Ano Santo” (Vozes, 1974), “Catecismo do Ano Santo” (1983), “Breve Curso de Liturgia” (Loyola, 1983), “Breve Curso Sobre os Sacramentos” (Loyola, 1985), “Catecismo do Terceiro Milênio” (Loyola, 1996) e “O Coroinha e a Liturgia” (Loyola, 2001).

Depois de se tornar pároco emérito da Paróquia Nossa Senhora do Rosário, após 42 anos de pastoreio em Del Castilho, continuou servindo. Passou a auxiliar o cônego José Li Guozhong na Basílica São Francisco Xavier, na Tijuca, onde permaneceu até o fim de sua vida.

Uma vida que continua a dar frutos

Monsenhor João de Deus fez sua Páscoa às portas do tempo da primavera, estação que nos fala de renascimento e de vida nova. Se, de um lado, sua partida encerra um longo ciclo de 92 anos de vida e 65 de sacerdócio, de outro, recorda-nos a imagem evangélica da semente que precisa cair na terra e morrer para produzir muitos frutos. Na ação de Deus, a morte não tem a última palavra: pela Ressurreição de Cristo, somos chamados à esperança de uma vida que se renova e floresce para a eternidade.

Ao contemplarmos sua longa caminhada, da infância em Sergipe aos muitos anos de ministério no Rio de Janeiro, encontramos o testemunho de um sacerdote que fez de sua vocação uma entrega cotidiana, com especial amor à Eucaristia, à liturgia, a Nossa Senhora, às vocações e ao povo que lhe foi confiado. Exemplo de fidelidade e servidor zeloso das coisas do Senhor e de sua Igreja, deixa sementes plantadas em tantas comunidades, famílias e vidas que encontrou ao longo de sua missão.

Que essas sementes continuem a germinar e a produzir frutos, especialmente no coração dos jovens vocacionados que sentem o desejo de servir. Que, inspirados por seu testemunho, tenham a coragem de responder ao chamado de Deus e entregar a própria vida, com generosidade e fidelidade, ao ministério sacerdotal.

Hoje, agradecemos a Deus pelo dom de sua existência e elevamos nossas preces para que o Senhor o acolha na eternidade. Que monsenhor João de Deus possa agora contemplar face a face Aquele cujo chamado ouviu, em quem acreditou e a quem anunciou por meio de sua vida e de seu sacerdócio.

“Dai-lhe, Senhor, o descanso eterno. E a luz perpétua o ilumine. Descanse em paz. Amém.”

Orani João, Cardeal Tempesta, O.Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro

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