Nossa Senhora Assunta aos céus, intercedei por nós!

A Solenidade da Assunção da Bem-Aventurada Virgem Maria celebra a consumação da obra redentora de Cristo no primeiro fruto da sua Páscoa. Como ensinam a Constituição Dogmática Lumen Gentium (n. 59) e a Constituição Apostólica Munificentissimus Deus, de Pio XII (1950), Maria, permanecendo Imaculada e Virgem, preservada da mancha do pecado, terminado o curso de sua vida terrestre, foi elevada ao Céu em corpo e alma à glória celestial. Para além da linguagem devocional, a Liturgia da Palavra deste domingo (Lc 1,39-56) nos oferece uma chave de leitura exegética e teológica profunda: o mistério da Assunção não é um privilégio isolado, mas a hermenêutica divina sobre a história e o destino da carne humana.

No relato lucano da Visitação, São Lucas constrói o texto utilizando o recurso estilístico do paralelismo e da tipologia do Antigo Testamento. Maria, que sobe à região montanhosa de Judá, evoca Davi transportando a Arca da Aliança para Jerusalém (2Sm 6). Como a Arca de madeira de acácia guardava as tábuas da Lei, o maná e a vara de Aarão, Maria carrega em seu ventre o próprio Verbo, o Pão do Céu e o Sacerdote Eterno. O salto de João Batista no ventre de Isabel espelha a dança de Davi diante da presença da glória divina.

O cântico do Magnificat ergue-se sobre a tradição do cântico de Ana (1Sm 2). Para a hermenêutica bíblica, os verbos “derrubou”, “elevou” e “encheu”, que denotam ações pontuais e definitivas no passado, expressam, por sua vez, a certeza profética de que o que Deus prometeu já está virtualmente realizado na vitória da Cruz e da Ressurreição, ou seja, descrevem o agir de Deus na História. Seguindo tal perspectiva, a Assunção é a concretização definitiva dessa exegese: a humilde serva foi elevada à glória superabundante de Deus. Não é por acaso que o Catecismo da Igreja Católica (CIC 966) nos lembra que a Assunção de Maria é uma participação singular na Ressurreição do seu Filho e uma antecipação da ressurreição dos demais cristãos.

Longe de ser uma heresia gnóstica que despreza a matéria, o dogma da Assunção reafirma a teologia da criação e da encarnação. Contra o dualismo corpo/alma, o mistério da Assunção reforça a certeza de que Deus não salva apenas a alma “desincorporada”; Ele redime o ser humano na sua totalidade psicossomática. A preservação de Maria da corrupção do sepulcro reflete a sua Imaculada Conceição (dogma de 1854). Onde não houve a mancha do pecado original, a morte não pôde reter a sua vitória moral. Quando contrapomos essa sólida arquitetura doutrinária às realidades do século XXI, o dogma da Assunção manifesta uma força crítica e profética indispensável.

No âmbito moral e cultural, vivemos sob a hegemonia de uma cultura do efêmero e do descarte, na qual o corpo é frequentemente reduzido a mercadoria, objeto de consumo ou produto de manipulação ideológica. O dogma da Assunção proclama a inviolabilidade e a santidade do corpo humano, desde a concepção até a morte natural. No âmbito econômico e social, em um sistema globalizado que gera assimetrias extremas, marginalizando populações inteiras e devastando a casa comum, o Magnificat denuncia a autossuficiência dos mercados e dos imperativos tecnocráticos. O dogma reafirma que a última palavra sobre a história humana não pertence aos conglomerados financeiros, mas à justiça restauradora de Deus. No âmbito eclesiástico interno, a Igreja, em seu constante processo de reforma e atualização, corre, por vezes, o risco de cair em duas tentações opostas: o mundanismo espiritual (reduzir a fé a uma ONG sociopolítica) ou o clericalismo e o espiritualismo desencarnado (fugir dos dramas do mundo). A Assunção de Maria equilibra a eclesiologia: a Igreja deve atuar no mundo com os pés na História, mas sabendo que a sua cidadania e o seu termo final estão nos Céus.

É missão da Igreja, de tempos em tempos, reacender a chama deste mistério. Ela o faz ao consolidar-se ad intra, na formação catequética, na fidelidade litúrgica e no testemunho da comunhão eclesial, purificando as estruturas de todo pecado e escândalo que obscurecem o rosto do Esposo. Faz isso também ao consolidar-se ad extra, erguendo a voz profética nas praças públicas, na defesa dos direitos humanos, na promoção do bem comum e no diálogo com as ciências e a cultura, demonstrando que o Evangelho é força de humanização integral.

Não deixemos que os desafios do tempo presente roubem a nossa esperança. Nas dores da enfermidade, nos conflitos familiares, nas incertezas econômicas e no luto pelos nossos entes queridos, olhemos para a Virgem Assunta ao Céu. Maria não chegou à glória sem passar pelo Calvário. A sua vida foi costurada na fidelidade diária, no anonimato de Nazaré e na espada que transpassou o seu coração ao pé da Cruz. No entanto, o seu sim desaguou no abraço eterno da Trindade. Que sejamos santuários de amor e perdão. Eduquemos os filhos na certeza de que eles foram criados para o Céu, ensinando-os a cuidar dos enfermos, dos idosos e dos mais fracos.

Comunidades de fé: sejamos a “casa da caridade” e a “escola de comunhão”, onde os desanimados encontram refúgio e os pobres encontram a dignidade restaurada. Se o grão de trigo cai na terra e morre, produz muito fruto. Em Maria, a colheita já começou. Firmes na fé e perseverantes na caridade, caminhemos com alegria ao encontro do Senhor, sabendo que Aquele que começou em nós uma boa obra há de levá-la à perfeição no dia de Cristo Jesus, dia em que, felizes, também gozaremos das bonanças do Céu, elevados em glória e majestade, no Reino de sempre e para sempre, unidos a Maria Santíssima por toda a eternidade.

 

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

Categorias
Categorias