Um ano de pontificado do Papa Leão XIV
A sucessão apostólica transcende a mera transição administrativa ou institucional; ela assegura a irrupção ininterrupta do sopro do Espírito Santo sobre a Igreja Católica ao longo dos séculos. Ao celebrarmos, neste 8 de maio de 2026, o primeiro ano do pontificado do Papa Leão XIV, a urgência dos tempos exige uma análise profunda sobre o peso e a essência do múnus petrino. O papado não opera como um mandato político secular, sujeito às oscilações das massas ou às conveniências de grupos ideológicos. Ele atua como a bússola espiritual inegociável da humanidade. Um pontífice pauta a Igreja e orienta seus fiéis porque encarna, no tempo presente, a promessa divina de que o Evangelho permanece vivo e atuante. O Sucessor de Pedro conduz o rebanho ao reafirmar as verdades eternas, aplicando-as como remédio direto para as feridas contemporâneas.
Para dimensionar a magnitude deste momento, o dever histórico e eclesial exige reverenciar a herança monumental deixada pelo Papa Francisco. Sua passagem pela Cátedra de Pedro alterou a dinâmica pastoral de maneira irreversível, exigindo que a Igreja assumisse, na prática, a postura de um autêntico hospital de campanha. Francisco caminhou sem medo até as periferias existenciais, gravou na história a urgência da misericórdia e defendeu a dignidade da nossa casa comum. Honramos a sua memória de forma verdadeira quando mantemos vivas as chamas dessa audácia pastoral, compreendendo que a fé exige movimento e proximidade com os esquecidos.
É exatamente sobre os alicerces dessa “Igreja em saída” que o Papa Leão XIV assumiu o leme. A direção espiritual e o tom de seu pontificado revelaram-se de imediato, cifrados na grande simbologia da escolha de seu nome. Ao adotar o nome de Leão XIV, o Santo Padre buscou inspiração direta no legado de Leão XIII, um pontífice que guiou a Barca de Pedro logo após o encerramento das devastadoras guerras napoleônicas. Aquela foi uma época em que o mundo experimentava mudanças políticas e sociais profundas, marcadas pelo trauma e pela reconstrução. Hoje, a humanidade enfrenta um cenário análogo de ruptura, confusão diplomática e conflitos armados. Ao evocar essa memória histórica, o novo Papa estabelece uma premissa inabalável: em um tempo dilacerado pela violência e pelo desespero, a fé cristã precisa atuar, obrigatoriamente, como uma presença firme de esperança e um instrumento eficaz de diálogo entre os povos.
O diagnóstico do nosso tempo atesta o ápice de uma polarização política asfixiante e desumanizadora. A sociedade moderna insiste em fragmentar a realidade, reduzindo a convivência a trincheiras e exigindo que todos escolham lados em disputas ideológicas estéreis. A resposta de Leão XIV a esse adoecimento coletivo ocorreu logo em sua primeira saudação, há exatamente um ano. Do balcão – loggia – da Basílica de São Pedro, o mundo ouviu o antídoto exato para a beligerância atual. O Papa declarou: “Esta é a paz de Cristo Ressuscitado, uma paz desarmada e uma paz que desarma, que é humilde e perseverante”. Ele recusou frontalmente a lógica do confronto. O primado da fé que ele defende atua em uma dimensão superior: a Igreja deve ser sinodal, avançar unida, procurando sempre a caridade e a proximidade radical com os que mais sofrem. Leão XIV demonstra que o católico autêntico promove a pacificação em ambientes de guerra e foca na eternidade enquanto o mundo se consome na agressividade efêmera.
Essa vocação incansável para a paz exige materialidade pastoral. O amor ao próximo não subsiste no campo das ideias vagas ou dos discursos teóricos. Em 4 de outubro de 2025, durante a festa de São Francisco de Assis, Leão XIV publicou sua primeira Exortação Apostólica: a Dilexi Te (“Eu te amei”). O documento fixa a atenção da Igreja no núcleo intransponível do Evangelho: o amor de Cristo pelos pobres. Mais do que um tratado, a exortação exige atitudes práticas, traduzindo o amor divino em obras de misericórdia. De maneira providencial, o Santo Padre reconhece o exemplo de São Marcelino Champagnat, fundador da missão Marista, destacando sua dedicação obstinada no século XIX para educar e evangelizar crianças e jovens necessitados, em uma época em que o ensino funcionava como privilégio de poucos. O Papa aponta para modelos concretos de santidade, ensinando aos fiéis que a verdadeira conciliação passa, invariavelmente, pela promoção da dignidade humana e pela educação integral.
A continuidade dessa Igreja viva depende, fundamentalmente, do encontro transformador com as novas gerações. O pontificado de Leão XIV pautou o protagonismo juvenil logo em seus primeiros meses de governo. Em agosto, o Papa presidiu a Missa de encerramento do Jubileu dos Jovens em Tor Vergata, reunindo mais de um milhão de peregrinos de todo o mundo. O Santo Padre não ofereceu facilidades mundanas ou mensagens vazias. Ele falou diretamente ao coração inquieto da juventude, garantindo que o desejo humano por sentido e felicidade só encontra resposta definitiva em Deus. Ele enviou esses jovens de volta aos seus países com uma missão clara: caminhar com alegria e contagiar a sociedade com o entusiasmo irresistível do testemunho cristão.
A recusa absoluta à polarização e a defesa irrestrita dessa “paz desarmada e desarmante” ganham contornos proféticos diante das tragédias geopolíticas atuais. A sociedade civil, os chefes de Estado e as instituições globais precisam olhar para o Vaticano-Santa Sé e reconhecer no pontificado de Leão XIV a grande reserva moral e de diálogo em uma era de surdez coletiva. Diante da escalada da violência global, o Santo Padre não permite que o silêncio se torne cúmplice. Em suas preces recentes de março, ele classificou o sofrimento e a morte provocados pelas guerras como um escândalo absoluto para toda a família humana e um “grito diante de Deus”. O Papa estabelece um princípio inalienável: a Igreja perde sua razão de ser se silenciar diante da dor de vítimas indefesas. Ao afirmar que “o que as fere, fere toda a humanidade”, ele expõe a falência do ódio bélico, exige das autoridades um cessar-fogo imediato e insiste que o diálogo constitui a única via civilizatória aceitável.
Na Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro, acolhemos as diretrizes e a imensa lucidez deste primeiro ano de pontificado com um profundo senso de responsabilidade missionária. O cenário metropolitano que habitamos, marcado por desigualdades seculares e desafios urbanos imensos, exige de nós a mesma postura que o Papa Leão XIV tem testemunhado para o mundo: uma fé firme, uma capacidade inesgotável de escuta e a coragem de rejeitar o sectarismo em prol do Evangelho. Nossa resposta pastoral abraçará sempre a conciliação e a caridade prática.
Ao celebrarmos este primeiro ano, elevamos aos céus a nossa gratidão. Que o Espírito Santo continue a fortalecer o Papa Leão XIV. Que Nossa Senhora o proteja sob seu manto, e que o seu ministério de paz desarmada conduza a Barca de Pedro, segura e unida, rumo ao abraço definitivo de Cristo Salvador.
Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ