Oito anos da Laudato Si’: legados e ações

No dia 24 de maio, celebraremos os oito anos do lançamento da Encíclica Laudato Si’, este documento da Igreja Católica que retrata a problemática socioambiental de nossa casa comum planetária. A inspiração profética do Papa Francisco, ao lançar este grande desafio para os crentes e não crentes, do cuidado que devemos ter com a obra do Criador, que se encontra agredida e desfigurada pela má administração do ser humano, esta Encíclica entra para a história como um legado que jamais será esquecido. Com o objetivo de mostrar o que está acontecendo em escala global, regional e local, a Laudato Si’ une os clamores oriundos das ciências, da sociedade e da Igreja, conclamando a todos para três questões fundamentais, a saber: uma conversão ecológica, uma ecologia integral e um conjunto de práticas em prol da sustentabilidade socioambiental. 

Se olharmos estes oito anos da história da Laudato Si’, podemos perceber que esta Encíclica nos deixou legados éticos e motivações para as ações práticas que estão ao alcance de nossas mãos. Os legados, carregados de apelos sociais, ecológicos e teológicos, continuam ecoando até o presente, sobretudo com o agravamento da crise socioambiental em tempos de mudanças climáticas que vêm se acentuando, com consequências danosas e imprevisíveis para a sociedade. 

Vejamos como caminhamos em relação às três questões fundamentais. A conversão ecológica, como um processo lento de mudança de mentalidade e de paradigma sociorreligioso, é algo lento e difícil de ser mensurado, pois supõe mudanças de hábitos e formação de uma nova cultura. Os sinais que visibilizam esta conversão são o crescimento da sensibilidade ecológica e as práticas sustentáveis em nível pessoal e institucional. Quanto à ecologia integral, processo sujeito aos avanços e recuos das políticas socioambientais, percebe-se um progresso na busca de um pensamento mais sistêmico, onde as preocupações antropológicas, sociológicas, ecológicas e teológicas têm ganhado mais espaço nos movimentos em defesa do meio ambiente, da qualidade de vida humana e da preservação dos biomas e ecossistemas. No Brasil, movimentos ligados às Igrejas e organizações da sociedade civil foram os que mais avançaram na temática da ecologia integral, embora ainda muita coisa precisa ser feita para superar a visão fragmentada que ainda predomina na ciência, na política e na sociedade. No que diz respeito às ações, em escala maior e menor, certamente foi onde a Laudato Si’ mais avançou e continua crescendo nas práticas políticas, nas ações comunitárias e no testemunho concreto de pessoas e organizações sociais. O incentivo das políticas públicas e privadas nas mudanças das matrizes energéticas, no combate às poluições, no apoio aos projetos de educação ambiental, na ênfase das agendas socioambientais, entre outras, é algo visível, reforçado pela Laudato Si’. O aumento de pequenas ações na linha da sustentabilidade, como reciclagem, plantio de árvores, cursos e atividades de educação ambiental, campanhas de redução de papel, consumo de energia, economia de água etc., são atividades que cresceram muito nos últimos anos em comunidades, igrejas, escolas, movimentos ambientalistas, empresas e órgãos públicos e privados. Certamente, a Laudato Si’ tem sido um estímulo para estas ações que estão ao alcance de todos, sem muita burocracia e com poucos recursos econômicos. Cremos que estas pequenas iniciativas são as que farão a diferença, tanto no desenvolvimento sustentável, como na mudança de hábitos e na criação de costumes socialmente mais justos e ambientalmente mais solidários com a nossa Casa Comum.

Peçamos ao Criador que nos ajude a viver a vocação de guardiães de sua obra criacional, construindo alianças, superando as rupturas e procurando deixar para as gerações futuras um legado socioambiental mais adaptado às mudanças climáticas.

 

Padre Josafá Carlos de Siqueira SJ 

Vigário Episcopal para o Meio Ambiente e Sustentabilidade da Arquidiocese do Rio de Janeiro

 

 

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