Os leigos, protagonistas da nova evangelização!

Avançados em nosso itinerário ao longo do mês vocacional, vemo-nos chamados a refletir sobre a vocação laical. A vocação do leigo não é um arranjo funcional recente, tampouco uma concessão da hierarquia diante da escassez de ministros ordenados. Trata-se de uma dimensão constitutiva da própria natureza da Igreja, cujas raízes remontam às primeiras comunidades cristãs e cujo resgate doutrinário representa um dos frutos mais maduros da eclesiologia contemporânea.

Nas origens do cristianismo, a distinção entre clericalismo e laicato não existia nos moldes organizacionais posteriores. Todos os batizados compreendiam-se como membros do Povo de Deus. Os Atos dos Apóstolos e as cartas paulinas revelam leigos e leigas como colaboradores fundamentais na expansão da fé. Basta lembrar Priscila e Áquila (Rm 16,3-5), Lídia (At 16,14-15) e Febe (Rm 16,1-2).

Com o passar dos séculos e a institucionalização da Igreja na Era Medieval, fortaleceu-se uma visão piramidal e clerical. O leigo passou a ser visto frequentemente como elemento passivo (ecclesia discens — a Igreja que aprende), enquanto o clero detinha a exclusividade da missão e do ensino (ecclesia docens — a Igreja que ensina).

O resgate bíblico e patrístico da vocação laical atingiu seu ápice no Concílio Ecumênico Vaticano II. A Constituição Dogmática Lumen Gentium revolucionou a eclesiologia ao colocar o capítulo sobre o “Povo de Deus” (Cap. II) antes do capítulo sobre a “Hierarquia” (Cap. III). Ficou estabelecido que a dignidade cristã fundamental deriva do Batismo.

“Por leigos entendem-se aqui todos os cristãos que não são membros da sagrada Ordem ou do estado religioso reconhecido pela Igreja, isto é, os fiéis que, incorporados em Cristo pelo Batismo, constituídos em Povo de Deus e tornados participantes, a seu modo, da função sacerdotal, profética e real de Cristo, exercem, pela parte que lhes toca, a missão de todo o Povo cristão na Igreja e no mundo.” — Lumen Gentium, n. 31.

Ainda no âmbito conciliar, o Decreto Apostolicam Actuositatem (1965) dedicou-se especificamente ao apostolado dos leigos, definindo-o como participação na própria missão salvífica da Igreja. Em 1988, São João Paulo II publicou a Exortação Apostólica Pós-Sinodal Christifideles Laici, um divisor de águas que aprofundou a ontologia do laicato a partir da metáfora da vinha (Mt 20,1-2). O documento enfatiza que os leigos não são trabalhadores de segunda classe, mas ramos vivos unidos à Videira, que é Cristo. O Catecismo da Igreja Católica (CIC, 897-913) sintetiza esse ensino ao destacar que os leigos são chamados por Deus para contribuir, como fermento, para a santificação do mundo a partir de dentro, exercendo o seu múnus sacerdotal, profético e real.

No Brasil, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) coroou essa reflexão com o Documento 105 (“Cristãos Leigos e Leigas na Igreja e na Sociedade”, 2016), ressaltando a identidade, as atribuições e o papel do laicato como sujeitos eclesiais maduros na Igreja e na sociedade. A instituição do Mês Vocacional em agosto é uma criação própria e original da Igreja Católica no Brasil, coordenada pela CNBB. A iniciativa nasceu oficialmente durante a 19ª Assembleia Geral da CNBB, em 1981. O objetivo central era conscientizar as comunidades eclesiais sobre a responsabilidade de todos na promoção, na oração e na sustentação das diversas vocações.

Para dinamizar o mês de agosto, a Pastoral Vocacional organizou as semanas temáticas distribuídas ao longo dos domingos: o primeiro domingo, com a vocação para os ministérios ordenados (diáconos, presbíteros e bispos); o segundo, com a vocação para o matrimônio e a vida em família (coincidindo com o Dia dos Pais e iniciando a Semana Nacional da Família); o terceiro, com a vocação para a vida consagrada (religiosos, religiosas e institutos seculares); o quarto domingo, com a vocação para a dimensão laical (leigos e leigas); e o último domingo, ou quinto domingo (quando houver), com o Dia Nacional dos Catequistas.

A escolha do quarto domingo de agosto para a celebração do laicato busca reafirmar que a missão da Igreja no mundo é mantida pela imensa maioria do Povo de Deus, inserida nas realidades temporais. À medida que a Igreja avança no terceiro milênio, os desafios do futuro exigem uma presença laical ainda mais incisiva e qualificada. A presença dos leigos e leigas nos conselhos, na coordenação das pastorais e movimentos e em tantos serviços, pastorais e missões na Igreja recorda a importância de sua atuação dentro das comunidades. No último domingo do ano litúrgico, Domingo de Cristo Rei, celebramos o Dia do Leigo e da Leiga, destacando sua missão de presença no mundo.

Enfrentamos um mundo em rápida transformação: a revolução digital e a inteligência artificial, as crises ambientais, o avanço da polarização social, a solidão existencial e as novas configurações do trabalho. Diante dessas realidades, a hierarquia eclesial não conseguirá chegar sozinha onde o leigo já está presente. O futuro da evangelização passa inevitavelmente por uma Igreja verdadeiramente sinodal, na qual bispos, padres, religiosos e leigos caminham juntos, respeitando a diversidade de carismas.

Amados cristãos leigos e leigas, não olhem para o seu Batismo como um evento do passado, mas como uma fonte inesgotável de graça para o presente e o futuro. O mundo não precisa de uma Igreja fechada em suas próprias estruturas sacristãs, mas de uma Igreja em saída, cujos pés e mãos são os seus fiéis leigos.

Nas profissões do amanhã, nos debates éticos sobre as novas tecnologias, na formulação de políticas públicas, na preservação do planeta e no cuidado com a saúde mental e espiritual das famílias, vocês são os apóstolos que Cristo envia. Não se intimidem diante da complexidade dos tempos modernos, nem se deixem vencer pelo desânimo ou pelo clericalismo que reduz o leigo a um mero executor de tarefas. Assumam com coragem o seu lugar de sujeitos eclesiais. Sejam a presença de Cristo nos ambientes onde a fé é desafiada e o amor é necessário. Que a consciência de sua dignidade batismal renove a sua esperança, para que, como fermento na massa, vocês continuem a transformar a sociedade por dentro, para a maior glória de Deus e a edificação do seu Reino.

 

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

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