Padre Eugênio de Sena Monteiro

Testemunho de vitalidade e de alegria no ministério sacerdotal

 

O padre Eugênio de Sena Monteiro, religioso da Sociedade dos Joseleitos de Cristo, que exercia o ofício de vigário paroquial na Paróquia Nossa Senhora da Glória, em Santa Cruz, foi para a eternidade, nos braços de Deus, na noite do dia 23 de julho, decorrente de uma parada cardíaca, aos 82 anos de vida e 37 anos de sacerdócio.

“Celebramos a certeza da vida. Padre Eugênio, que acreditou e anunciou o Cristo Ressuscitado, voltou para a casa do Pai. Agradecemos pela sua vida, vocação e missão, e que sua fidelidade a Deus e testemunho de vida cristã possa inspirar a todos nós”, disse o arcebispo do Rio de Janeiro, Cardeal Orani João Tempesta, na missa de exéquias, no dia 25 de julho, realizada na Capela Nossa Senhora das Graças, no Cesarão, vinculada à paróquia na qual ele trabalhou nos últimos 22 anos.

“Ele viveu intensamente a vida sacerdotal em nossa arquidiocese, trabalhando com dedicação e zelo pastoral junto aos encarcerados, meninos de rua, doentes e ao povo de Deus. Que ele possa gozar a bem-aventurança eterna junto de Deus”, acrescentou o arcebispo na missa de exéquias, seguida de sepultamento no Cemitério Jardim da Saudade, em Paciência.

 

Sacerdote feliz

Padre Eugênio trabalhou com dedicação na Arquidiocese do Rio de Janeiro por 32 anos, chegando a ganhar, em 2017, o título de Cidadão Honorário da Cidade do Rio de Janeiro.

Trabalhou como vigário paroquial na Paróquia Nossa Senhora dos Navegantes, em Bonsucesso, nomeado em janeiro de 1990, e vigário paroquial na Paróquia Nossa Senhora da Glória, em Santa Cruz, nomeado em setembro de 2000, ultimamente auxiliando o pároco, padre Celso Batista de Oliveira, da mesma congregação.

“Tive a graça de conviver com o padre Eugênio entre os anos de 2012 e 2014 quando fui diácono e vigário paroquial na Paróquia Nossa Senhora da Conceição, em Santa Cruz. Nos momentos de encontros, confraternização e nos mutirões de confissões por ocasião do Advento e da Quaresma, ele sempre deu para mim e os padres mais jovens um bonito testemunho de vitalidade e alegria no ministério sacerdotal. Que Deus conceda a ele o descanso e a luz eterna, e a recompensa dos justos”, disse o pároco da Paróquia Santos Anjos, no Leblon, padre Thiago Azevedo Pereira.

 

Sacerdote humilde e prestativo

A atuação do padre Eugênio foi além-fronteiras das paróquias. Deu assistência, a pedido de Dom Eugenio de Araujo Sales, aos conhecidos meninos da Candelária, doentes e, ultimamente, às encarceradas. Também celebrou por anos na Igreja do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos, no Centro, e na Capela da Casa de Assistência Social Nossa Senhora das Dores, em Todos os Santos, que era mantida pelas religiosas da Congregação das Irmãs Franciscanas Alcantarinas.

Segundo o bispo auxiliar, Dom Paulo Celso Dias do Nascimento, os encontros com o padre Eugênio sempre foram bons e descontraídos.

“Nossas conversas sempre fluíam bem, porque padre Eugênio tinha conhecimento da história dos padres antigos da minha cidade e diocese de origem, inclusive do meu primeiro pároco, monsenhor Jason. As nossas cidades, Tucano (BA), onde ele se ordenou, e Lagarto (SE), onde nasci, são próximas, embora situadas em estados diferentes”, partilhou o bispo auxiliar.

“Padre Eugênio era uma pessoa prestativa, instruída e me impressionava pela oratória e por citar frases em latim. Sempre lembrava com gratidão, quando me encontrava, de uma visita que fiz quando ele esteve internado no Hospital Pasteur. Era solícito em ajudar os padres e paróquias, entusiasmado pela vida pastoral, e fez um bom trabalho de assistência junto às encarceradas do Presídio Feminino Talavera Bruce, em Bangu. “Perdemos um grande e humilde sacerdote. Que o Senhor lhe dê o descanso eterno e o recompense por tudo de bem que fez”, destacou Dom Paulo Celso.

 

Chamado para o sacerdócio

Padre Eugênio nasceu em Teresina, capital piauiense, no dia 8 de janeiro de 1940, filho de Firmino Bernardo de Sena Rosa e de Honorina Monteiro da Silva.

Eugênio teve seu despertar vocacional ainda na pré-adolescência, inspirado pelo exemplo do padre José Luiz Barbosa Cortez, diocesano, seu pároco na Igreja de São Benedito, em Teresina.

Havia quem o persuadisse de não seguir a vocação sacerdotal por causa de sua cor e por não ter condições de custear os estudos. Por sugestão de frei Heliodoro, tornou-se frade, ingressando no Convento da Ordem dos Frades Menores Capuchinhos, aos 14 anos de idade.

Estava prestes a formular os votos perpétuos quando a ‘revolução’ do Concílio Vaticano II reacendeu seu sonho vocacional de ser sacerdote.

Por ter o costume de consultar o bispo antes de qualquer decisão, procurou o arcebispo de Teresina, à época, Dom Avelar Brandão Vilela, para melhor se inteirar das possibilidades e, ao revelar suas intenções, ouviu dele o encorajador conselho pastoral: ‘Arrisque, vá! E se você conseguir terminar os estudos, você será ordenado padre’.

Diante das palavras, irmão Eugênio emendou um intrépido pedido ao arcebispo: ‘O senhor me ordena?’. ‘Onde quiser e quando quiser’, respondeu o arcebispo.

 

Religioso dos Joseleitos de Cristo

Na época, Eugênio ingressou, por convite do fundador, o Servo de Deus padre José Gumercindo dos Santos, na Sociedade dos Joseleitos de Cristo. Fundada em 1950, a congregação religiosa, de direito diocesano, tem sua sede em Tucano (BA), tendo por carisma amar, com desvelo às vocações, e, principalmente, a dos jovens mais pobres.

Em preparação ao sacerdócio, inicialmente estudou no Seminário Menor São José, em Garanhuns (PE), de 1974 a 1978.  Depois foi enviado para o Rio de Janeiro, onde cursou filosofia de 1979 a 1981 na Escola Teológica do Mosteiro de São Bento, residindo na Paróquia de Nossa Senhora dos Navegantes, em Bonsucesso, confiada a sua congregação. Nesta época, também residiu na Paróquia Imaculada Conceição, no Engenho Novo, com o padre Alexandre Língua.

A teologia foi feita no Mosteiro de São Bento, em Olinda (PE), de 1982 a 1985, sendo que, na época, tinha como abade Dom Basílio Penido.

Ao voltar para a congregação após os estudos, recebeu a ordenação diaconal em Tucano (BA), no dia 12 de junho de 1984, por Dom Aloysio José Leal Penna. Depois, entrou em contato com Dom Avelar Brandão Vilela, que tinha sido transferido de Teresina para a Arquidiocese de Salvador (BA), e este reconheceu sua voz 20 anos depois e se prontificou em lhe ordenar: “Onde quer e quando quer!”.

Foi por ele ordenado no Convento de Santa Clara do Desterro, em Salvador, na Igreja de Nossa Senhora do Desterro, no dia 3 de março de 1985.

 

Devoto da Flor de Lisieux

Ao ser ordenado, padre Eugenio recebeu um santo protetor – prática comum de sua congregação –, mas ele não gostou e pediu para trocar, recaindo o nome de Santa Teresinha do Menino Jesus, conhecida como Flor de Lisieux, por sinal, a quem tinha especial devoção.

Quando ele comemorou 25 anos de sacerdócio, escreveu para o Convento Carmelita de Lisieux e pediu à priora que enviasse uma relíquia. Foi atendido com uma medalha de ouro, acrescida de uma relíquia, partilhando na época que gostaria que fosse colocada, por ocasião de sua morte, em seu túmulo.

 

Fraternidade sacerdotal

Em muitas celebrações, padre Eugênio usava um ingóbio, medalhão ricamente trabalhado, contendo, em dupla face, os ícones de Nossa Senhora da Ternura e do Cristo Pantokrator (Jesus Todo-Poderoso), encimado por uma coroa, tendo no ápice a Cruz de Malta.

Ele recebeu a insígnia (unicamente destinada a seus eparcas) de presente da Igreja Greco-Católica Melquita, fruto da visita do então eparca Dom Farès Maakaroun ao Rio de Janeiro.

Desde o tempo em que atuava no centro do Rio, junto aos menores da Candelária, padre Eugênio sempre teve um fraterno convívio com os padres da Paróquia São Basílio e Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, situada na Rua República do Líbano, no Centro, começando com monsenhor Alphonse Sabbagh e, depois, com o padre George Toufik Khoury, hoje à frente da Eparquia de Nossa Senhora do Paraíso, em São Paulo.

Carlos Moioli

 

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