Papa emérito fala dos 60 anos do Concílio Vaticano II

“O Concílio Vaticano II no início ameaçava perturbar e abalar a Igreja mais do que dar-lhe uma nova clareza para sua missão. Ao mesmo tempo tornou-se gradualmente evidente a necessidade de reformular a questão da natureza e da missão da Igreja. Desta forma, o poder positivo do Concílio também está lentamente emergindo”., escreveu Bento XVI aos participantes de Simpósio realizado em outubro passado na Franciscan University of Steubenville, em Ohio, EUA.

 

O 11 de outubro de 2022 marcou os 60 anos da abertura do Concílio Vaticano II por São João XXIII. Caminho entre o passado e o presente, entre a memória e a profecia, o Concílio produziu um corpus doutrinal, um salto em frente, que não foi caracterizado por novas verdades ou pela condenação de erros, mas por um necessário “aggiornamento” da Igreja, para torná-la capaz de saber transmitir o Evangelho e buscar caminhos de unidade com as outras confissões, o bem comum e estabelecendo um diálogo com o mundo moderno, centrando-se “no que nos une e não no que nos separa”, iluminados e guiados pela ação do Espírito Santo.

Iniciativas têm sido realizadas em diversas partes do mundo para recordar este importante evento concluído por São Paulo VI em 8 dezembro de 1965. Na Universidade Franciscana de Steubenville, nos Estados Unidos, por exemplo, foi realizado em outubro o Simpósio Internacional de Eclesiologia de Ratzinger. Para a ocasião, o Papa emérito, que foi perito oficial no Concílio, escreveu uma mensagem, tema da reflexão do padre Gerson Schmidt*:

“Em uma de suas já raras intervenções públicas, o Papa emérito Bento XVI volta 60 anos no tempo, ao anúncio de João XXIII que deixou atordoados os cardeais reunidos na Basílica de São Paulo fora-dos-muros. BENTO XVI escreveu, em outubro passado, uma carta em inglês endereçada ao padre Dave Pivonka, presidente da Franciscan University of Steubenville, em Ohio (EUA), onde foi realizado o X Simpósio Internacional sobre a Eclesiologia de Joseph Ratzinger. Uma ocasião de “grande honra e alegria” para o Pontífice emérito que, do Mosteiro Mater Ecclesiae, onde reside desde a sua renúncia há cerca de dez anos, pega caneta e papel para agradecer por este evento que insere “meus pensamentos e meus esforços na grande corrente em que se moveu” por ocasiao do tempo do Concílio.

Na Carta do Papa emérito ao presidente da Universidade Franciscana de Steubenville, nos EUA, por ocasião do Simpósio Internacional de Eclesiologia de Ratzinger, escreve assim: “No início, o Vaticano II parecia perturbar e abalar a Igreja mais do que dar-lhe uma nova clareza para sua missão. Seu poder positivo está surgindo lentamente”. O Vaticano II, por outro lado, revelou-se não apenas “significativo”, mas também “necessário”, afirmou Bento XVI. “Quando comecei a estudar teologia, em janeiro de 1946,  – escreve o Papa emérito – ninguém pensava em um Concílio Ecumênico”.  “Quando o Papa João XXIII o anunciou, para grande  surpresa de todos, havia muitas dúvidas sobre o fato se seria significativo, antes ainda, se seria possível, organizar as instituições e perguntas no conjunto de uma declaração conciliar e de uma declaração de outra pessoa e, portanto, de dar à Igreja uma direção para o seu ulterior caminho. Na realidade, um novo Concílio se revelou não apenas significativo, mas necessário”.

O Concílio Vaticano II buscou ser um concílio ecumênico e por isso quis dialogar com as igrejas cristãs e com as outras confissões e religiões. Quis também que a Igreja dialogasse com o mundo, tanto que dedica uma contituição especial a esse respeito que ressultou na Gaudium et Spes – A Constituição Pastoral sobre a Igreja no mundo de hoje. “Pela primeira vez – escreve o Papa emérito -, a questão de uma teologia das religiões se mostrou em sua radicalidade. O mesmo vale para a relação entre a fé e o mundo da simples razão”. Ambos os temas que “nunca haviam sido previstos dessa maneira”. Isto, explica Ratzinger, “porque o Concílio Vaticano II no início ameaçava perturbar e abalar a Igreja mais do que dar-lhe uma nova clareza para sua missão. Ao mesmo tempo – acrescenta na carta – tornou-se gradualmente evidente a necessidade de reformular a questão da natureza e da missão da Igreja. Desta forma, o poder positivo do Concílio também está lentamente emergindo”.

Na carta, o Papa emérito recorda também como seu trabalho eclesiológico tenha sido marcado pela “nova situação” criada na Igreja na Alemanha após o fim da Primeira Guerra Mundial. “Se até aquele momento a eclesiologia havia sido tratada essencialmente em termos institucionais, agora se percebia com alegria a mais ampla dimensão espiritual do conceito de Igreja”. Voltam as palavras de Romano Guardini, autor de referência para o Pontífice alemão: “Iniciou-se um processo de imensa importância. A Igreja está despertando nas almas”.

Houve na ocasião uma melhor e mais correta compreensão da Igreja e do mundo. “No Vaticano II, a questão da Igreja no mundo tornou-se finalmente o verdadeiro problema central”, afirma nas últimas linhas o Papa emérito. Daí os votos de que o Simpósio da Universidade de Steubenville pudesse ser “útil na luta por uma justa compreensão da Igreja e do mundo em nosso tempo”.”

 

Texto: Vatican News

Foto: Vatican Media/Dicastério para a Comunicação

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