
“O logotipo assume a forma do Tau, um símbolo caro a Francisco, pois nos lembra da inexorável passagem diária da morte para a Vida e da maneira como fomos redimidos. Por isso, há duas cores contrastantes: preto e amarelo, a morte e a luz do Ressuscitado. À direita, a mão crucificada de Cristo é maior e vence todas as barreiras do mal, porque a morte foi definitivamente derrotada. Dolorosas cicatrizes vermelhas representam as feridas do Seu amor ardente por cada homem e mulher. Os sinais da ressurreição são agora motivo de profunda consolação para Francisco, a ponto de ele poder colocar sua própria mão, visivelmente perfurada, ao lado da de Cristo, sem qualquer temor. E isso torna possível que até mesmo a morte mereça o título de irmã, porque somente nela e com ela se realiza o ato corajoso e confiante de entrega total de si ao bom Pai.
Assim, no dia da Páscoa definitiva, o pequeno santo finalmente se encontra inteiramente revestido de glória. E se antes o hábito penitencial cinza-escuro, com seus mil remendos, era um símbolo de pobreza, agora e para toda a eternidade, a nova vestimenta tecida com fios de ouro traz impressa toda a riqueza dos irmãos, das irmãs e da criação”.
No dia 03 de outubro de 1226 São Francisco de Assis encerrou o seu processo de nascimento para a Vida! Do ponto de vista teológico, é na morte que encontramos o real significado da vida pela qual Deus insuflou em cada um de nós o seu Espírito. Não nascemos para a morte, para o pó, o aniquilamento, o nada, mas para a vida plenificada e vida de Deus e em Deus.
Como dizia José Marti: “morrer é fechar os olhos para ver melhor”, ver Deus e as realidades bem-aventuradas que desde sempre nos preparou”.
Morrer é um acabar de nascer. A vida vai para além da morte. “Morrer é penetrar no coração do universo onde todas as teias de relação encontram o seu nó de origem e de sustentação” (BOFF, L, 1973).
800 anos depois, aqui estamos, celebrando o trânsito de São Francisco para Deus, quando nos vemos envolvidos com sua instigante e misteriosa presença. São Francisco vive na glória eterna, e se não podemos ainda contemplar com os nossos olhos humanos essas realidades misteriosas que assentimos pela fé, suas memórias, testamentos, seguidores e obras se tornam o locus simbólico da proximidade, qual lentes carregadas de crença, independente do espaço e do tempo, que nos conectam com a energia viva do Pobrezinho de Assis.
Por isso, embora tenhamos sinais e vestígios de uma presença, o devoto ou o discípulo do santo não pode achar simplesmente que se encontrou ou se encontra com São Francisco de Assis, de forma completa, íntegra, pessoal, nem lá no Sacro Convento, em sua urna mortuária, supostamente dormindo o sono tranquilo e eviterno da morte, enquanto aguarda a ressurreição da carne e o fim dos tempos, e nem tampouco em partes de suas relíquias, espalhadas pelo mundo católico. Não! Ele não está ali! E nem naquilo que restou dele. O que vemos, e a partir do qual veneramos a santidade do Poverello, são sinais externos da morte que pertencem ao mundo físico e a ele também pertenceram. Deste modo, a inteligência da fé aponta, mergulhada na promessa e na esperança nos aponta para este mistério: São Francisco está em Deus, e em comunhão com os santos e participa da vida gloriosa de Deus na dimensão do inefável. Assim, sua presença espiritual pode ser experimentada naquilo e naqueles que, guardando sua memória, atualizam a intuição vital da sua experiência pessoal e irrepetível de Deus.
São Francisco é uma semente que caiu na terra, germinou, cresceu e tornou-se uma árvore frondosa que atravessa os séculos e chega até nós com o vigor primaveril de um amanhecer!
Como nos ensinou o Mestre de Nazaré, o Cristo de Deus, “se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto” (cf. Jo 12, 24). São Francisco, “o outro Cristo” acolheu esta Palavra e deu fruto para a Igreja inteira e para o mundo, manifestando a vida do Reino, vida dada em abundância (GALARDI, E, 2026). É esta semente que caiu em terra boa (Mt 13, 8) e continua produzindo frutos, porque é semente de eternidade sob a ação do Espírito Santo de Deus. Ao mesmo tempo, São Francisco é “terra boa” onde a semente da palavra de Deus germina, cresce e dá frutos.
“Quem semeia no Espírito, do Espírito colherá a vida eterna” (Gl 6, 8).
Estas palavras se cumpriram em São Francisco (Ministros Gerais, 2026). Após haver acolhido dentro de si o Espírito de Jesus, até o ponto de levar no seu corpo os sinais do Crucificado, torna-se ele mesmo uma semente do Evangelho repleto de frutos de vida eterna.
São Francisco nasceu definitivamente para Deus há oito séculos, deixando-se abraçar radicalmente pela Irmã Morte, e nela encontrar Aquele que desejou e buscou em sua travessia terrestre, plenificando todos os outros encontros parciais, limitados, feitos na fraqueza e na dúvida ao longo do percurso.
São Francisco vive na glória de Deus e na lembrança de sua história pessoal e comunitária de fé, feita pelos seus seguidores e admiradores. Vive no coração de seus filhos e filhas espirituais, e seu espírito anima e motiva o discipulado de Cristo em todos os tempos e lugares, onde já conseguiu chegar. São Francisco está na dimensão do “já” da eternidade feliz do Reino de Deus, pelo qual contempla a Deus, “Altíssimo, Onipotente e Bom Senhor”, face-a-face, e junto d’Ele olha e reza por todos nós para que no nosso “ainda não”, podendo seguir seu rastro luminoso, cada qual no seu tempo e ritmo, mas todos no mesmo caminho que é Cristo e na mesma direção do Pai que nos aguarda de braços abertos para esta páscoa. Ao contrário de São Francisco, já nascido definitivamente para Deus em seu trânsito, ainda estamos sendo gestados no útero da vida mortal, transitória, limitada e terrena. E nisso consiste sua experiência bonita de vida enquanto modelo e inspiração para nascermos do alto, do e no Espírito de Deus. Seguimos então, caminhando, na tensão escatológica do Reino enquanto contemplamos a chegada e o nascimento do “alter christus”, São Francisco de Assis, no banquete eterno, e fazemos festa, porque ele agora vive eternamente.
Sua presença é notada também, no viés da esperança, em sua herança de vida e missão. E esta herança se desdobra em muitas dimensões e áreas através de toda família franciscana: missão, evangelização, testemunho de fraternidade, promoção social, educação etc. Assim, herdeiro do Pai Seráfico, o carisma franciscano é um caminho capaz de gerar no mundo, com simplicidade e humildade, um horizonte de esperança (TROVARELLI, C, 2026). Como diz Pietro Maranesi, outra herança deixada pelo Poverello pode também ser compreendida a partir de seu Testamento, no pedido que faz aos seus seguidores, que marcaram três momentos fundamentais de sua experiência religiosa: a pobreza, a submissão à Igreja e o dom dos Irmãos. “Essa é a preciosa herança que nos deixou. Uma herança que ainda hoje fala ao coração e à mente da nossa geração, ajudando-nos a crer no Evangelho, a “ter o Espírito do Senhor e a sua santa operação” (RB 10, 8) e a tornar-nos sinais de paz”, lembraram os Ministros Gerais em sua carta comemorativa do jubileu do trânsito (2026).
Não nos esqueçamos que o evento do oitavo centenário de seu trânsito pascal é significativo e noticiado para todos os cantos da orbi católica e, portando, assunto que tem pautado o quotidiano não só da família franciscana, em suas três Ordens e ramificações congregacionais contemporâneas, mas também de muitos devotos e simpatizantes do santo dentro e fora do cristianismo.
Isso confere a São Francisco de Assis, o Homem do segundo milênio, segundo a Revista “Times” um significado de humanidade surpreendente, evidenciando que ele vive também na memória de um mundo doente, caótico, envolvido em guerras, desigualdades sociais, disputas políticas, degradação da natureza e menosprezo pela vida. Vive como protótipo humano que preserva e defende a vida em todas as suas manifestações ao ponto de chamar a essas manifestações de irmãs.
O que seria então celebrar a páscoa de São Francisco de Assis, 800 anos depois?
É São Francisco, presente no coração de Deus Vivo, proporcionando ao nosso tempo a reflexão acertada sobre os mistérios da vida e da morte e, mesmo cônscios de que em vida ele não quisesse ser nomeado e venerado com fama de santidade, no dia da morte, partida para Deus, entregou-se, por um lado livre, feliz e sereno nos braços de seu Senhor e por outro, comovido, saudoso, mas também apaziguado e obediente, despojou-se nas mãos inumeráveis de seus filhos e seguidores.
Por isso, a celebração de seu oitavo centenário, é antes de tudo, uma grande homenagem de seus atuais filhos, que mostram, através de frágeis, mas irrefutáveis sinais, a vida significativa de um homem que se santificou, foi e continua sendo inspiração de santidade para muitos de nós, pois ele está vivo, pascal, luminoso na eternidade de Deus em nossos corações. Depois, continua sendo um suave e solene convite para que sempre, cada vez de maneira renovada, possamos revisitar nosso primeiro amor, nossa identidade primeira assinalada na vida e na páscoa de nosso Seráfico Irmão e Pai. Que essas festividades transportem nosso olhar para além daquilo que podemos enxergar, o espírito vivente de São Francisco de Assis, pois para além de um ser que vive eternamente em Deus Vivo, vive também, ainda e mais uma vez de maneira frágil em nossas vulnerabilidades.
Fraternalmente,
Frei Carlos Roberto de Oliveira Charles, OFMConv.
GUARDIÃO DO CONVENTO S. FRANCISCO DE ASSIS
RIO COMPRIDO