Sobre esta pedra, o mundo não passa

Na Solenidade dos Santos Pedro e Paulo, a Igreja celebra dois homens que erraram, foram transformados e mudaram a história: um testemunho de que Deus não desiste de ninguém.

Que alegria celebrar este Dia do Papa, o dia em que celebramos as colunas sobre as quais foi edificada a Igreja de Cristo: Pedro e Paulo. Dois homens tão diferentes que, humanamente, dificilmente seriam amigos. Um pescador sem letras, impulsivo, que negou Jesus três vezes numa noite fria. Um intelectual formado aos pés de Gamaliel, que, antes de se converter, perseguia e matava cristãos. E, no entanto, a Igreja os celebra juntos, no mesmo dia, como as duas colunas sobre as quais o Evangelho se espalhou pelo mundo. Isso não é coincidência. É pedagogia de Deus.

Jesus está na região de Cesareia de Filipe quando faz a pergunta (Mt 16,13-18). E a pergunta não é burocrática. Não é um teste de catecismo. É uma pergunta que vai ao fundo: “Quem dizeis vós que eu sou?” (Mt 16,15). Não “quem dizem os outros”. Vós. Cada um de nós, pessoalmente.

Pedro responde antes de pensar, com aquela velocidade que era sua marca: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16). E Jesus, em vez de corrigi-lo ou de pedir que ele explique melhor o que entende por isso, o declara feliz. “Feliz és tu, Simão, filho de Jonas, porque não foi um ser humano que te revelou isso, mas o meu Pai, que está no céu” (Mt 16,17).

Há algo muito importante aqui que não podemos deixar passar. Pedro não chegou a essa resposta por raciocínio próprio. Foi o Pai quem revelou. A fé não é uma conquista intelectual. É um dom. Ninguém chega a Jesus por mérito de inteligência ou de esforço espiritual. Chega porque Deus se inclina, toca o coração e abre os olhos. E Pedro, naquele momento, estava com o coração aberto o suficiente para receber.

É por isso que Jesus muda o nome dele. Simão vira Pedro, que significa rocha. Não porque Pedro fosse naturalmente sólido. Ele era tudo menos sólido: vacilante, contraditório, capaz de andar sobre as águas e de afundar no mesmo instante. Jesus não chama Pedro de rocha porque ele já era rocha. Chama porque vai fazê-lo rocha. A identidade cristã não é o que somos, mas o que Deus está fazendo de nós.

A primeira leitura nos leva para dentro de uma cela – At 12,1-11 –. Pedro está preso. Herodes acabou de matar Tiago à espada e, vendo que isso agradou ao povo, resolveu fazer o mesmo com Pedro. Quatro grupos de soldados o guardam. Dois deles dormem ao seu lado, com ele acorrentado pelo meio. A situação é, humanamente, sem saída.

E Pedro dorme. Esse detalhe me impressiona sempre. Na véspera de ser apresentado ao povo, provavelmente para ser executado, Pedro dorme. Não é insensibilidade. É confiança. É a paz que Paulo descreve como aquela que “ultrapassa todo entendimento” (Fl 4,7). Pedro já aprendeu, depois de tudo o que viveu, que Deus é maior do que qualquer prisão.

O anjo aparece, a luz ilumina a cela, as correntes caem. Pedro acha que está sonhando. Só quando o anjo o deixa, na rua, ele cai em si: “Agora sei, de fato, que o Senhor enviou o seu anjo para me libertar do poder de Herodes” (At 12,11). E, enquanto Pedro estava preso, o texto nos diz uma coisa simples e decisiva: “a Igreja rezava continuamente a Deus por ele” (At 12,5). A oração do povo de Deus sustentou Pedro naquela noite. A intercessão comunitária tem um poder que não vemos, mas que age.

Aqui no Rio de Janeiro, quantas pessoas estão presas em situações que parecem sem saída? A violência que cerca as comunidades. A dívida que não fecha. O diagnóstico que assusta. O relacionamento que se desfaz. O filho que se perdeu no caminho. Deus não prometeu que essas correntes não existiriam. Prometeu que não seriam a última palavra. E prometeu que estaria ao lado, como esteve ao lado de Pedro naquela cela escura.

Paulo escreve a Timóteo de dentro de uma prisão também, mas agora já no fim da vida – 2Tm 4,6-8.17-18 –. E as palavras que escreve são de uma serenidade que só vem de quem já não tem mais nada a provar: “Combati o bom combate, completei a corrida, guardei a fé” (2Tm 4,7). Três verbos no passado, três certezas. Não diz que venceu todos os adversários. Não diz que nunca caiu. Diz que combateu, que completou, que guardou.

Paulo não chegou a esse ponto facilmente. Antes de ser o maior missionário da história da Igreja, foi perseguidor. Antes de escrever que “o amor é paciente e bondoso” (1Cor 13,4), teve conflitos sérios com Barnabé, com Pedro, com comunidades inteiras. Antes de dizer “aprendi a contentar-me em qualquer situação” (Fl 4,11), passou por naufrágio, por açoites, por rejeição. A maturidade espiritual de Paulo não caiu do céu. Foi forjada na vida real, com as marcas que a vida real deixa.

E é exatamente por isso que ele é um modelo para nós. Não porque era perfeito, mas porque não desistiu. Porque, quando caiu, levantou. Porque, quando errou, reconheceu. Porque, quando o caminho ficou difícil, não voltou atrás. “O Senhor esteve a meu lado e me deu forças” (2Tm 4,17). Essa é a chave de tudo. Não a força de Paulo. A força do Senhor, que esteve ao lado de Paulo.

Jesus entrega a Pedro as chaves do Reino dos Céus. É uma imagem poderosa e cheia de responsabilidade. As chaves não são um símbolo de poder pessoal. São um símbolo de serviço. Quem tem as chaves tem a responsabilidade de abrir. De garantir que a porta não fique fechada para quem precisa entrar. De não usar a autoridade para excluir, mas para acolher.

E a promessa que acompanha essa entrega é uma das mais fortes de todo o Evangelho: “o poder do inferno nunca poderá vencê-la” (Mt 16,18). A Igreja que Jesus constrói sobre a pedra de Pedro não é invencível porque é perfeita. É invencível porque Jesus está com ela. A história da Igreja é uma história de pecados, de erros, de momentos vergonhosos que precisamos reconhecer com humildade. Mas é também uma história de ressurreições. De momentos em que parecia que tudo estava perdido e Deus abriu uma porta nova.

Aqui no Rio de Janeiro, celebramos esta solenidade numa cidade que conhece bem o que é resistir. Uma cidade que foi capital federal, que perdeu o status, que carrega contradições enormes e que, mesmo assim, continua de pé, com sua fé popular, suas procissões, suas comunidades que resistem à violência com o poder do Evangelho. Essa cidade é, a seu modo, uma rocha. E o Cristo Redentor, que a abraça do alto do Corcovado, é o sinal de que Deus não desistiu dela.

Pedro e Paulo chegaram ao mesmo lugar por caminhos completamente diferentes. Pedro foi chamado à beira do lago, largou as redes e seguiu. Paulo foi derrubado do cavalo no caminho de Damasco e teve que reconstruir tudo o que acreditava. Um veio do interior, da cultura popular, da pesca. O outro veio das cidades, da academia, do direito romano e da teologia judaica. E os dois terminaram em Roma, os dois morreram como mártires, os dois são celebrados juntos.

A Igreja não é feita de um único tipo de pessoa. É feita da diversidade de Pedro e Paulo, do pescador e do intelectual, do impulsivo e do metódico, do que nega e do que persegue e que, depois, transformados pela graça, se tornam testemunhas do mesmo Senhor. Essa é a beleza da comunhão eclesial. Não a uniformidade, mas a unidade na diversidade. “Para que todos sejam um” (Jo 17,21).

Nesta Solenidade, queremos renovar nossa adesão ao ministério petrino do amado Papa Leão XIV. Ele é o Pedro de hoje. Ele tem o poder das chaves de ligar e desligar, dado por Jesus a Pedro e aos seus sucessores. Continue, amantíssimo Santo Padre, a nos fazer enxergar as belezas da alegria de viver e testemunhar o Evangelho da Vida!

Que Pedro e Paulo intercedam por nós. Que sua coragem nos inspire. Que sua fidelidade, comprada a preço alto, nos lembre que vale a pena guardar a fé até o fim. E que o Senhor, que esteve ao lado deles, esteja ao lado de cada um de nós, nesta cidade, neste tempo, nesta missão que é nossa.

 

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

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