Tiago de Sarug: o tabernáculo da Ascensão

Tiago de Sarug, 450-520, grande doutor sírio, foi feito bispo em 519. Escreveu inúmeras homilias sobre os mistérios de Jesus, frequentemente em versos. Por meio de imagens, símbolos, analogias bíblicas cantou a Ascensão do Senhor, assim como outros mistérios da vida de Cristo, como mistério litúrgico.

Os filhos dos mistérios são os primeiros cristãos, nós também somos hoje filhos dos mistérios. Os mistérios são todo o caminho percorrido por Cristo em sua vida, os quais se tornaram sacramentos:

“Ele levantou a mulher pobre, estéril e apaixonada,

e fez com ela o contrato de lhe enviar

os tesouros de Seu Pai.

Ele capturou os cativos,

conduziu-os e afastou-os dos obstáculos;

deu presentes à mulher cansada,

em estado de necessidade.

Ela saiu do cativeiro e se tornou apóstola,

e Ele ascendeu e enviou Espírito Santo;

e o Espírito deu vestes a todos os que estavam nus.

Veio o grande cativeiro, de que Ele redimiu;

ainda assim ela não tinha nada;

e Ele ascendeu para enviar tesouros

e riquezas para ela.

Ele veio, morreu em nosso lugar

e ascendeu para nos fazer viver no lugar de Seu Pai,

para que, por meio de Sua morte,

Ele pudesse vivificar o mundo que estava sem vida.

Os discípulos, os apóstolos, os amigos,

os filhos do mistério foram reunidos

para que Ele se lhes pudesse mostrar em público,

quando ascendia.

Eles viram Sua ressurreição

e foram confirmados sobre Sua ressurreição.

E Ele os trouxe aqui para verem Sua ascensão;

para poderem ser testemunhas da Sua ressurreição

e para Sua ressurreição, bem como de Sua ascensão.

Que eles enchessem a terra com esta proclamação:

Eles ouviram com os ouvidos, os seus olhos viram;

tocaram-no com as mãos.

Eles O conheceram, tocaram-no

e tornaram-se testemunhas de todo Seu caminho”

(Tiago de Sarug. ‘Homily on the Ascension of our Lord’.

By Thomas Kollamparampil. Nova Jersey: Gorgias Press,

2010, p. 24-25, tradução do autor).

O ato da ascensão de Cristo, narrado por Lucas nos Atos dos Apóstolos, é o fato do qual Tiago de Sarug parte para explicar todos os mistérios contidos neste mistério:

“Da terra ao céu Ele foi elevado,

como o livro de Lucas dá a conhecer

aos que o discernem.

Eis que, quando Ele chegava

àquele lugar elevado das nuvens,

uma nuvem procedeu e recebeu-O na passagem.

Não que o levasse,

mas saiu para recebê-lo solenemente,

para o encontro do seu Senhor

que passava por sua vizinhança.

Porque a nuvem não subiu com Ele

para onde Ele ascendeu;

mas recebeu-O e ficou atrás d’Ele.

Assim como Ele havia deixado a terra em Sua ascensão,

quando Ele foi elevado,

assim também Ele deixou a nuvem quando subia.

E todas as legiões em seus lugares e

em suas fronteiras O estavam recebendo,

quando Ele ascendeu a Seu lugar elevado.

Eles O estavam recebendo, não O levaram para ser elevado,

porque Ele é Aquele que carregava as regiões e suas legiões.

Ele deixou a nuvem naquele lugar conturbado das nuvens

e mais alto do que ela, no lugar sereno, Ele foi elevado” (p. 46-48).

A imagem do tabernáculo é explorada por Tiago de Sarug tanto para apresentar o lugar a que Cristo ascendeu como para ligar nossas celebrações aos mistérios de Cristo:

“Rei David, o harpista divino,

despertou sua voz

para os portões do alto se abrirem.

Como se dissesse: ‘Ó portões da eternidade,

levantai’, pois eles nunca estão abertos a ninguém,

somente para Ele,

a região, escondida,

escondida e temível e de não se pode falar,

mais alta do que todas as alturas,

comprimentos e regiões.

Legiões após legiões permaneceram atrás d’Ele

enquanto Ele ascendia.

Cada um deles permaneceu em sua região,

mas Ele foi exaltado,

para o lugar oculto que não faz parte da criação,

nem sua história está misturada com coisas criadas

ou coisas formadas:

o tabernáculo incriado,

que nada tem de parecido entre as coisas criadas,

a região longe dos anjos e dos intelectos humanos.

Nem mentes nem pensamentos ascendem a ele.;

nem contemplam isso,

nem mesmo os anjos podem falar onde está.

Os seres abaixo ficaram para trás,

os intermediários ficaram para trás

e os seres sublimes ficaram para trás;

e aqueles acima deles permaneceram

dentro a fronteira de seus reinos.

Assim como Ele se escondeu das companhias no Monte das Oliveiras,

Ele escondeu-se dos intermediários e dos seres superiores.

E só Ele entrou no interior do Santo dos Santos

e ninguém entrou com ele,

nem intelecto, nem pensamento.

A própria mente ficou atrás d’Ele

e não foi capaz de se aventurar a levantar para olhar para o Filho

como Ele foi elevado tão alto.

Como um anjo, a mente ascende

e não pode fazer nada mais.

E onde permanecem os observadores,

também permanecem os pensamentos.

O Filho foi velado pelos homens e pelos anjos

como foi velado por Tomé e João também.

Até onde ele conseguia olhar,

Simão observou quando Ele ascendeu.

Tanto quanto podia, Gabriel olhava, e Miguel também.

E, enquanto é capaz de se aventurar,

até almas também olharam.

Os pensamentos também estenderam seus impulsos

para ver Seu lugar.

Ele foi elevado, foi longe;

Ele estava escondido dos discípulos e dos anjos,

dos intelectos também;

E das almas e dos pensamentos e de seus impulsos;

e eles não foram capazes de olhar para Ele

para ver até que ponto Ele foi elevado.

Para atrás, ó Simão,

teu Senhor subiu a Seu lugar elevado e,

até onde olhares, não verás o quão longe Ele foi elevado.

Para atrás, ó Gabriel,

porque Ele foi elevado acima de tua legião

e não tens poder para seres elevado com Ele para o Seu lugar.

Descansa, ó Carruagem, e move tuas rodas para falar,

porque não tens permissão do Oculto em Seu lugar para ver Seu lugar.

Descansa, Miguel, ó grande líder das hostes celestiais,

porque não alcançarás as escadas altas do teu Senhor.

Descansa, ó Intelecto, porque aquele que se aventura,

avançando e saltando, cairá;

então não te deves aventurar novamente

nos passos que são incompreensíveis.

O Sumo Sacerdote entrou no Santo dos Santos,

com Seu próprio sangue Ele reconciliará

Seu Pai com humanidade.

Ele é a oferta, o Sumo Sacerdote e a libação também

e Ele mesmo entrou para que toda a criação

possa ser perdoada por meio dele.

Aquele que desceu, subiu,

e Aquele que se rebaixou subjugou as alturas.

Ele desceu, visitou-nos e subiu nos redimindo.

A Ele seja a glória” (p. 52-58).

A ascensão de Jesus é uma das páscoas da Páscoa. Embora festa única, a páscoa desdobra-se para nós, no tempo litúrgico, em muitas festas, correspondentes aos mistérios de Cristo. Com a Ascensão de Cristo, a Igreja ascende, porque Cristo é a cabeça deste corpo místico. Eis a passagem mistério de Cristo; a nossa, contudo, dá-se na celebração, na aproximação do tabernáculo dominical. Ascendemos com Cristo em cada celebração de seus mistérios e sacramentos.

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