Introdução
Estamos cada vez mais próximos da Solenidade de Pentecostes. Por isso, as leituras apontam, com mais clareza e intensidade, para o dom do Espírito Santo. Mas, quem é o Espírito Santo? No evangelho, Jesus o chama de Paráclētos, isto é, “Defensor”, aquele que é colocado ao lado para defender e consolar. Jesus também o chama de “Espírito da Verdade”. Se, por um lado, nas palavras de Jesus aos discípulos existe um tom de despedida, por outro lado, afirma que não os deixará sozinhos. O Paráclētos, que ele rogará ao Pai para que envie sobre eles, será, igualmente, comunicado aos fiéis pelo ministério apostólico, de modo que cada um saiba dar razão da sua esperança depositada em Jesus e, assim, possa guardar os mandamentos e enfrentar as adversidades que comportam a generosa fidelidade à vocação recebida e abraçada pela fé.
- Texto
15Se me amais, guardareis os meus mandamentos; 16e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará outro Paráclētos, para que esteja convosco para sempre, 17o Espírito da Verdade, que o mundo não pode receber, porque não o vê nem o conhece; vós o conheceis, porque permanece convosco e estará em vós. 18Não vos deixarei órfãos; venho a vós. 19Ainda um pouco, e o mundo já não me verá; vós, porém, me vereis, porque eu vivo, e vós vivereis. 20Naquele dia conhecereis que eu estou em meu Pai, e vós em mim, e eu em vós. 21Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é quem me ama; e quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele.
- Que diz o texto?
Jesus disse de si: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida” (Jo 14,6). Então, o “Espírito da Verdade” equivale dizer: “Espírito de Jesus”, ou o “Espírito que está e age em Jesus”. De igual modo, é preciso lembrar que Jesus também disse no diálogo com Nicodemos: “Mas quem faz a verdade vem para a luz, para que se manifeste que suas obras são feitas em Deus” (Jo 3,21); no testemunho que Jesus deu de si mesmo, disse aos judeus: “Conhecereis a verdade e a verdade vos fará livres” (Jo 8,32); e, diante de Pilatos, em seu julgamento, Jesus afirmou: “Para isso nasci e para isto vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Quem é da verdade escuta a minha voz” (Jo 18,27).
Na sequência temos: “fazer a verdade”, “conhecer a verdade” e Jesus é “a verdade”, que veio ao mundo “para dar testemunho da verdade”, de modo que “quem é da verdade” escuta a voz de Jesus. Para que isto aconteça, é preciso pertencer ao rebanho de Jesus, pois apenas as suas ovelhas escutam a sua voz e o seguem (Jo 10,4); é como disse aos fariseus (Jo 10,40): “Eu sou o bom pastor; conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas me conhecem, como o Pai me conhece e eu conheço o Pai. Eu dou a minha vida pelas minhas ovelhas (Jo 10,14-15). Nessa dinâmica, é o Espírito Santo quem age no ser humano e o abre para escutar o evangelho e vir ao conhecimento de Jesus, a verdade que liberta de todas as formas de opressão e de injustiças.
Um dado curioso: Jesus diz que o mundo não é capaz de receber o Espírito da Verdade, porque não o vê nem o conhece. Então, para receber o Espírito da Verdade é preciso vê-lo e conhecê-lo. E como isso é possível? Para ver o Espírito, que sopra onde quer (Jo 3,8), é preciso perceber como ele se faz presente e age no mundo. É preciso olhar para Jesus, pois sobre ele desceu o Espírito e o ungiu no momento do seu batismo, recebido de João que afirmou: “Eu não o conhecia, mas, para que ele fosse manifestado a Israel, vim batizar com água. E João deu testemunho e disse: ‘Vi o Espírito descer como uma pomba, vinda do céu, e permanecer sobre ele. Eu não o conhecia, mas aquele que me enviou para batizar com água, disse-me: Aquele sobre quem vires o Espírito descer e permanecer é quem batiza com o Espírito Santo. Eu vi e dou testemunho que ele é o Filho de Deus” (Jo 1,31-34).
A partir desse sinal, ocorrido no batismo ministrado por João, Jesus inaugurou o seu ministério público, pelo qual não só revelava a sua identidade e missão, mas, igualmente, revelava quem estava nele e agia em suas palavras e ações: o Espírito da Verdade. Por meio do seu ministério, Jesus concretizou o reinado de Deus Pai em sua vida, comunicando o seu amor pela humanidade necessitada de resgate do pecado e da morte. Por isso, ao contrário do mundo, os discípulos conhecem o Espírito porque o experimentam, próximo deles, em Jesus, e agindo por e com Jesus; mas, em breve, o Espírito da Verdade também estará dentro deles pelo seu sopro revitalizador: “Soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo” (Jo 20,22).
Os vv. 18-20 ajudam a compreender o motivo pelo qual o mundo não vê nem conhece o Espírito da Verdade: a certeza de que Jesus vive nos discípulos e que estes vivem em Jesus. Como Jesus está no Pai, pelo Espírito, assim Jesus está nos discípulos, e estes em Jesus, pelo Espírito, tornando-os sinais vivos da presença e da ação de Jesus no mundo. Aqui, é fundamental perceber que, ao lado do anúncio sobre o Espírito da Verdade, está a exigência do amor: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é o que me ama; e quem me ama será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele”. Nota-se que esses dois versículos se completam e nos permitem ver o sentido querido por Jesus para o verbo amar (ἀγαπάω), que ocorre cinco vezes (v. 15.21). Assim como Jesus ama o Pai e guarda os seus mandamentos, manifestação da sua vontade salvífica, também os discípulos demonstram o seu amor por Jesus, guardando, isto é, cumprindo e protegendo os mandamentos recebidos de Jesus. É dessa forma que se experimenta a força da declaração feita no v. 18: “Não vos deixarei órfãos, venho a vós”.
Então, Jesus, consciente de que a sua hora estava chegando (v. 19), quis aliviar a dor da separação dos seus discípulos, anunciando a eles que o Pai não os deixaria sozinhos, mas que o tornaria presente no meio deles por um novo modo de se comunicar: pelo Paráclētos (v. 18). Pelo envio do seu Filho Unigênito, Deus desposou a humanidade em absoluta fidelidade. Pelo mistério pascal, Jesus Cristo, por sua morte, não desfez o mistério da encarnação e, por esta a sua solidariedade fraterna, com a humanidade, mas deu início a uma nova etapa da história da salvação pelo envio e missão do Espírito Santo no mundo, dom do Pai (v. 16a), que permanece com os discípulos para sempre (v. 16b). A condição preliminar e indispensável é o amor a Jesus Cristo pela obediência aos seus mandamentos (v. 15). É assim que Jesus se torna presente no mundo e se faz ver na pessoa e nas ações dos discípulos (v. 19-21). O mundo poderá ver e conhecer o Espírito Santo não apenas pela missão apostólica, mas se cada ser humano se abrir para o dom de Deus revelado em Jesus Cristo.
- Que propostas o texto faz?
Como Jesus Cristo permanece entre nós? Esta é a questão mais premente e que continua sendo o maior desafio para os fiéis que frequentam a Sagrada Liturgia, pela qual todo o mistério do amor de Deus se faz visível pela ação interior e vivificadora do Espírito Santo que concretiza e torna esse amor real e presente.
Estamos disponíveis para perceber e compreender esse novo modo de Deus se fazer presente e de se comunicar com a comunidade de fé e, por esta, com o mundo inteiro? Estamos dispostos e disponíveis para testemunhar essa presença diante das dificuldades, crises e adversidades que diariamente encontramos?
Diante de um mundo marcado por tantas formas de violência, os cristãos não pagam o mal com o mal, mas pagam o mal com o bem (Rm 12,17.21). Este modo de agir, por certo, é sinal da presença do Paráclētos, que está ao nosso lado como Defensor e Consolador no testemunho do Evangelho. Podemos compreender isso muito bem retornando ao que Jesus disse: “Aquele que tem os meus mandamentos e os guarda, esse é quem me ama”. Pensemos nessa exigência nos dias atuais, onde abundam a mentira, a corrupção e as falsidades ideológicas eclesiais e políticas, estas, inclusive, elaborando leis conta a vida, violando-a.
A humanidade, apesar de todos os avanços científicos e tecnológicos, está cada vez mais indefesa e parece estar regredindo, pois está banalizando a vida novamente pela perda de valores, em particular pela perda do sentido do trabalho, da honestidade e da dignidade pessoal e familiar. Na contramão, está Jesus Cristo e a sua Boa Nova, testemunho incondicional do amor de Deus por toda a humanidade. Esta aguarda a nossa tomada de posição: é melhor temer a Deus que ter medo do mundo e dos homens. Se teme a Deus, amando-O e se ama a Deus, fazendo a sua vontade a exemplo de Jesus que exortou os discípulos para os ensinar a fazer o mesmo: “o meu alimento é fazer a vontade de meu Pai e consumar a sua obra” (Jo 4,34).
- Que o texto faz dizer a Deus em oração?
Senhor Jesus Cristo, encarnação do amor infinito de Deus pela humanidade, ao se entregar nas mãos e na boca dos apóstolos pelo pão partido e pelo cálice partilhado, instituindo a Eucaristia e o ministério sacerdotal, revelaste o modo pelo qual essa doação se tornaria sempre presente na Igreja e, por esta, no mundo: pelo envio do Paráclētos, o Espírito da Verdade, que nos defende e consola em todas as nossas tribulações, por causa do teu nome e da tua Boa Nova. Ajuda-nos e ensina-nos a sermos dóceis ao Espírito Santo, a fim de que, conhecer e obedecer aos teus mandamentos, não seja um peso, como muitos pensam, mas nossa prova de amor à tua Pessoa e ao teu amor salvífico. Que em nossas palavras e ações Deus Pai seja sempre glorificado e o mundo saiba que te conhecemos e somos por ti conhecidos e amados, pois não existe orfandade em quem vive no amor e do amor. Assim, te amando e vivendo na tua presença, amamos o Pai na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém.
- Que decisões o texto leva a tomar?
Como Jesus está unido ao Pai no amor e na obediência à sua vontade salvífica, também nós estamos unidos a Jesus no amor e na obediência ao seu novo mandamento: “Como eu vos amei, amai-vos também uns aos outros” (Jo 13,35). Só fazendo a verdade e praticando o amor, pela caridade fraterna, é que poderemos ser vistos e reconhecidos como discípulos autênticos de Jesus.
Em tempos difíceis como os nossos, precisamos não apenas da justiça humana que busca capturar e punir os culpados, mas da justiça de Deus que recria, renova, restaura, refaz e, acima de tudo, nos reconcilia com Ele e entre nós. Esta justiça é o amor que levanta os caídos e devolve, para a sociedade e para a Igreja, a verdade que liberta. Assim é que poderemos dar razão da nossa fé e esperança no mundo. Que nossa fé seja professada não só com a boca e por palavras, mas principalmente pela caridade fraterna que nos assemelha a Jesus Cristo por amor a Deus Pai na unção do Espírito Santo.
- Relações entre Jo 14,15-21 com At 8,5-8.14-17; Sl 65(66); 1Pd 3,15-18.
O resultado do amor a Jesus Cristo e aos seus mandamentos é saber-se amado pelo Pai no dom do Espírito Santo que, em At 8,5-8.14-17, aparece pela missão impulsionada, após a perseguição desencadeada contra os cristãos de origem gentílica com a morte de Estevão. Assim, a evangelização dos samaritanos é protagonismo do Espírito Santo, agindo em Felipe, da mesma forma que agiu em Jesus: expulsando demônios, curando paralíticos e aleijados, mas, principalmente, sendo comunicado pelas mãos dos apóstolos.
Nas palavras do orante no Sl 65(66), são cantadas as maravilhas de outrora, em particular as que se referem às tradições sobre o êxodo de libertação da opressão do Egito e que se multiplicaram em tantas outras formas no decorrer da história de Israel. Estas passaram a ter não apenas um novo sentido a partir de Jesus Cristo, mas alcançaram o seu ápice em seu mistério pascal. Assim, o “êxodo” cantado no Salmo deixa de ser apenas memória nacional e passa a ser também memória sacramental da salvação em Jesus Cristo.
De igual modo, na 1Pd 3,15-18, é o Espírito Santo quem prepara e capacita os discípulos a dar razão da esperança a todo aquele que a pede. É o testemunho, cada vez mais urgente em nossos dias! O testemunho digno de crédito se faz com mansidão e respeito, principalmente pelo modo de falar e de agir; pelo bom procedimento em Jesus Cristo, e seguindo o seu exemplo missionário, culminado na sua total doação até a morte por amor a Deus e ao ser humano. Como Jesus Cristo encontrou a morte na sua luta contra o pecado e a injustiça, assim também a sua mensagem encontra contínua hostilidade, razão pela qual as perseguições ainda existem e, ao que parece, estão cada vez mais intensas no mundo.
Considerações finais
Jesus apresenta o amor como condição essencial para a permanência na comunhão com ele e com Deus Pai. Esse amor não é um sentimento, mas é o Espírito da Verdade que, presente e atuante no fiel, neste se manifesta pela obediência aos mandamentos, que são expressão concreta da vontade de Deus plenamente realizada em Jesus Cristo.
A promessa do Paráclētos e a sua realização são as garantias de que essa comunhão nunca será interrompida pela ausência física de Jesus, pois o Espírito da Verdade é presença permanente, defensor e consolador dos discípulos em todas as situações, em particular nas mais adversas. Assim, o texto revela que a vida cristã é marcada por uma relação dinâmica: o amor conduz à fidelidade, a fidelidade abre espaço para a ação do Espírito, e o Espírito assegura a presença viva de Jesus Cristo e do Pai na comunidade.
A afirmação “não vos deixarei órfãos” sintetiza a esperança e a experiência pascal que nos sustenta como filhos e filhas amados por Deus, participantes da sua vida divina por Jesus Cristo na unção do Espírito Santo.
Padre Leonardo Agostini Fernandes
Capelão da Igreja do Divino Espírito Santo do Estácio de Sá-RJ
Docente de Sagrada Escritura do Departamento de Teologia da PUC-Rio