Uma leitura de Mt 16,13-20: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!”

Introdução

Jesus caminhou, evangelizando, por quase toda a Palestina, em particular pela Galileia, palco das suas ações messiânicas. O seu ministério público foi desenvolvido de forma peripatética: pelo caminho, ensinava e realizava os sinais que certificavam a veracidade das suas palavras. E assim, pelo seu agir, sua missão revelava a sua identidade (agere sequitur esse). O episódio da revelação messiânica de Jesus, pelos lábios de Simão Pedro, que lhe rendeu o primado, não foge a essa regra, pois foi uma manifestação da vontade de Deus Pai.

 

Texto

13 Tendo vindo, pois, Jesus às regiões de Cesaria de Filipe, perguntava aos seus discípulos, dizendo: “Quem dizem os homens ser o Filho do Homem?”. 14 Eles, pois, responderam: “Uns, João, o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias ou um dos profetas.” 15 Ele diz a eles: “E vós, quem dizeis que eu sou?” 16 Respondendo, pois, Simão Pedro disse: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!” 17 Jesus, respondendo, disse-lhe: “Bem-aventurado és, Simão, filho de Jonas, porque carne ou sangue não te revelou [isso], mas o meu Pai que [está] nos céus. 18 E eu também te digo que tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do Hades não prevalecerão contra ela. 19 Dar-te-ei as chaves do Reino dos Céus; e o que ligares sobre a terra terá sido ligado nos céus, e o que desligares sobre a terra terá sido desligado nos céus.” 20 Então, ordenou aos discípulos que a ninguém dissessem que ele é o Cristo.

 

Que diz o texto?

De acordo com o evangelista, Jesus tomou a direção de Cesareia de Filipe. Este foi um dos filhos de Herodes Magno que, após a sua morte, ficou com a parte setentrional da Palestina e dedicou a sua tetrarquia ao imperador Otaviano, aclamado pelo Senado romano, no ano 27 a.C., como César Augusto. Nesta localidade, nas proximidades de uma das nascentes do rio Jordão, denominada Pânias, existiam vários santuários, e um deles era dedicado ao deus Pan (metade humano e metade bode), conhecido como Sátiro, na mitologia grega, e Fausto, na mitologia romana: uma divindade protetora dos pastores, dos rebanhos e dos bosques.

Pelo texto, não é possível dizer se a pergunta feita por Jesus aos discípulos aconteceu ao longo do caminho ou quando já estavam em Cesareia. A escolha dessa localidade parece ter sido estratégica: Jesus optou por um território neutro, mas que, ao mesmo tempo, se ligava à memória de João Batista, executado por ordem de Herodes Antipas, devido ao seu adultério com Herodíades, mulher legítima de seu irmão Filipe.

Só pela descrição da localidade e do envolvimento entre os personagens, já somos capazes de perceber que o episódio mateano busca refutar essa prática idolátrica, ambientada na cultura pastoril, bem como as atitudes déspotas dos que estavam no poder civil. Além disso, ajuda a lançar um olhar atento para os dois momentos precedentes: um conflito dos fariseus e saduceus com Jesus (Mt 16,1-4) e uma repreensão de Jesus aos discípulos, para que não seguissem o comportamento dos fariseus e saduceus que, para acreditar em Jesus, queriam ver os sinais. A esses líderes do povo, Jesus declarou que o único sinal seria o do profeta Jonas que, segundo Jn 2, foi poupado da morte. Jesus, assim, aludia à sua ressurreição, que será apresentada dentro do primeiro anúncio da sua paixão (Mt 16,21) e que ocasionará uma reação de Pedro, duramente criticada por Jesus: “Para trás de mim, Satanás. És para mim uma pedra de tropeço, pois não pensas as coisas de Deus, mas dos homens” (Mt 16,22-23). Eis os contextos anterior e posterior próximos de Mt 16,13-20.

Como a pergunta foi dirigida aos seus discípulos, a resposta veio no plural e foi dada a partir de três referenciais nominais e um amplo: “Uns, João, o Batista; outros, Elias; e outros, Jeremias ou um dos profetas”. Pela convivência com Jesus, os discípulos já tinham presenciado milagres e constatado a sua autoridade sobre realidades visíveis e invisíveis. Em particular, deram-se conta de como Jesus se posicionava diante das disputas com os fariseus, escribas, saduceus e herodianos. É possível dizer que a pergunta sobre a sua identidade visava tirar os discípulos da condição de meros espectadores da opinião pública, a fim de colocá-los na posição de autênticas testemunhas, conscientes dos reais motivos pelos quais se dispuseram a seguir Jesus.

A resposta dada à primeira pergunta revela que o povo apenas conseguiu identificar em Jesus a sua dimensão profética. Como João Batista, Jesus fala destemidamente e não se deixa intimidar pelos opositores. Além disso, pode-se pensar na prática de batizar, como dito em Jo 3,22-26. Em relação a Elias, estão os feitos taumatúrgicos. Elias tinha ressuscitado o filho da viúva de Sarepta (1Rs 17,17-24); Jesus ressuscitou a filha de Jairo (Mt 9,18-26); Elias fez com que a farinha e o azeite, elementos com os quais se faz o pão, não se esgotassem na vasilha durante o tempo da seca (1Rs 19,4-8); Jesus, com poucos pães e peixes, saciou multidões (Mt 14,13-21); Elias, por duas vezes, fez o fogo descer do céu (1Rs 18,36-39; 2Rs 1,10-12); Jesus subjugou as forças da natureza (Mt 8,23-27; 14,22-33). Já com Jeremias, existe uma relação quanto ao prenúncio da sua paixão, pois esse profeta muito sofreu por sua fidelidade a Deus e à sua vontade. Enfim, a comparação com “um dos profetas” aponta para a concretização de Dt 18,18, sobre o profeta autêntico, e prepara a exigência presente na voz do Pai vinda do céu: “Este é meu Filho, o amado, em quem me comprazo. Escutai-o!” (Mt 17,5).

Na época, ninguém pensaria que Jesus fosse um desses profetas redivivo, embora Herodes Antipas o tenha pensado (Mt 14,1-2); o povo só poderia afirmar algo a partir das ações realizadas por Jesus e que, por certo, evocavam as atitudes destes três profetas em particular. Além do acima dito, enquanto João Batista e Jeremias, pelo sofrimento, apontam para o martírio de Jesus na cruz, Elias, por ter sido arrebatado aos céus, aponta para a Ascensão de Jesus. O arrebatamento de Elias seria um modo de dizer que o dom da profecia sempre poderia voltar. Esses profetas, juntos, podem ser considerados os defensores da pureza e da verdade da fé. Então, para o povo, Jesus continua a lógica desses profetas, comprometidos com a causa da justiça. Fica claro que Jesus teria o destino dos profetas que não se ligaram à corte, mas foram alvo dela pelo martírio.

O fato, porém, de continuar indagando com uma segunda pergunta, dirigida de forma direta aos discípulos, permite-nos dizer que Jesus queria saber o quanto eles tinham alcançado, pela intimidade da convivência, sobre a sua identidade; razão pela qual a pergunta é inequívoca: “E vós, quem dizeis que eu sou?”.

Nos sinóticos, a resposta sempre tem o mesmo ponto de partida: Pedro. Cada um, porém, com o seu particular teológico em função do seu destinatário. Em Mateus: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Em Marcos: “Tu és o Cristo”. Em Lucas: “O Cristo de Deus”. Em Mateus, a resposta segue um caminho ascendente: “O Filho do Homem” (que corresponde ao “Tu”) “é o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Assim, a humanidade e a divindade de Jesus estão devidamente evidenciadas. Contudo, dizer que Jesus “é o Cristo” não corresponde à identidade, mas à eleição em função da missão messiânica. Já “o Filho do Deus vivo” corresponde à índole da pergunta. Nota-se que a missão foi colocada antes da identidade e funciona porque o agir segue o ser: é como o próprio Jesus ensinou: “Pelos frutos se conhece a árvore” (Mt 7,16).

A partir da resposta de Pedro, Jesus retoma a palavra e inverte a ordem: começa com a identidade de Pedro (“Feliz és tu, Simão, filho de Jonas”) e reconhece que a revelação não provém da humanidade de Pedro ou da sua filiação humana, mas foi uma manifestação da vontade de Deus: “Mas o meu Pai que está nos céus”. A resposta de Pedro revela o núcleo da verdade central da fé em Jesus de Nazaré, acreditada pelos Apóstolos e disseminada pela missão evangelizadora até os confins da terra. Graças a essa revelação do Pai, Jesus manifesta a sua vontade: “Por isso eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta Pedra edificarei minha Igreja”.

Sigo aqui a explicação de Santo Agostinho, lida no Ofício das Leituras da Solenidade de São Pedro e São Paulo: “Sobre esta pedra construirei a fé que haverá de proclamar; sobre a afirmação que fizeste (‘Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo’), construirei a minha Igreja. Porque és Pedro, que vem de pedra, e não é a pedra que vem de Pedro. Pedro vem de pedra, como cristão vem de Cristo.”

A fonte do primado de Pedro é a humildade humana configurada à kénosis no Verbo Divino feito carne. Por causa da revelação do Pai, Jesus concede a Pedro a função de primeiro-ministro do Reino dos Céus, representada no dom das chaves: “Eu te darei as chaves do Reino dos Céus”. Jesus fez de “Simão, filho de Jonas” o administrador da sua Igreja. É importante atestar que o Filho nada faz sem o consentimento do Pai, na unção do Espírito Santo. Deve-se dizer ainda que as chaves representam a própria autoridade de Jesus, pois Ele é a “chave da casa de Davi” (Is 22,22). O que Jesus diz na terra vale na terra, nos céus e no Hades (Ap 1,18).

A linguagem usada por Jesus para atestar a autoridade confiada a Pedro exige uma compreensão do sentido de “ligar” e “desligar”, respectivamente, “não absolver” e “absolver”; “não deixar livre” e “deixar livre”. São muitas as implicações para essas ações na Igreja, razão pela qual também foram estendidas aos demais discípulos no contexto da correção fraterna (Mt 18,18). Mas o dom das chaves só foi concedido a Pedro.

No final do episódio, Jesus deu uma ordem e proibiu aos discípulos a revelação messiânica, que parece não se aplicar à filiação divina. Tal proibição tem a ver com a conotação politizada que ela representava e que podia comprometer a concretização da missão. Por isso, para compreender essa proibição, é preciso esperar o tríplice anúncio da paixão que se seguirá à revelação messiânica (Mt 16,21-23; 17,22-23; 20,17-19)

 

Que propostas o texto faz?

O interesse de Jesus é mais que justificado, pois, ao longo do seu ministério público, por palavras e ações, manifestou o Reino dos Céus, isto é, a nova orientação de vida pautada na obediência a Deus e à sua vontade. Então, por que Jesus dirigiu uma pergunta aos discípulos sobre a sua identidade no dizer das pessoas? Acaso Jesus não tinha condições de saber, por si mesmo, o que elas pensavam a seu respeito? De igual modo, devemos nos sentir interpelados por Jesus e verificar o quanto o nosso comportamento cristão está pautado no conhecimento que julgamos ter de Jesus e da sua proposta de transformação pela prática do amor fraterno.

Apesar disso, a pergunta de Jesus soa como um particular interesse, não por querer saber a sua taxa de aprovação ou de popularidade, mas por, mediante nossa resposta, verificar em que nível compreendemos a sua identidade e missão, de modo a perceber como as temos vivido pelo testemunho. Nota-se que, na pergunta, já existe um título assumido por Jesus: “Filho do Homem”. Pode parecer sem importância, mas o uso desse título, que significa simplesmente “ser humano”, é fundamental, pois tem a ver com a natureza humana que foi assumida pelo Verbo Divino e é o ponto de partida para a resposta de Pedro e, também, para a nossa.

 

Que o texto faz dizer a Deus em oração?

Senhor Jesus, ao escutarmos e meditarmos a vossa Palavra, concedei-nos, pela ação do Espírito Santo, conhecer-vos cada vez mais profundamente e professar, com Pedro, que sois o Cristo, o Filho do Deus vivo. Fazei que perseveremos diariamente na leitura orante da Sagrada Escritura e permaneçamos fiéis ao Evangelho, para que não nos deixemos conduzir por opiniões, erros e doutrinas que obscurecem a verdade e nos afastam de vós. Concedei-nos acolher com fé o ensinamento da Igreja e permanecer unidos ao ministério petrino, ao qual confiastes as chaves do Reino dos Céus. Que, guiados por esse ministério e fortalecidos pela vossa graça, rejeitemos o pecado, pratiquemos o bem e caminhemos na justiça e na verdade, até alcançarmos o vosso Reino. Vós que sois Deus, viveis e reinais com o Pai, na unidade do Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém.

 

Que decisões o texto leva a tomar?

Por certo, a intenção das perguntas não tem a ver com uma limitação da onisciência de Jesus, tampouco vem da necessidade de obter informações a seu respeito a partir daquilo que os discípulos poderiam estar ouvindo sobre Ele. A pergunta feita aos discípulos, e hoje a cada um de nós, não serviu para que Jesus aprendesse algo sobre si mesmo, mas foi feita em função deles, para que eles próprios articulassem a resposta e tomassem consciência da fé que estavam depositando em Jesus, bem como de até que ponto seriam capazes de chegar por meio dela.

O quanto temos nos decidido pela fé em Jesus Cristo, o Filho de Deus, e por suas implicações em nossas vidas? Temos reconhecido Jesus, o Cristo e Filho de Deus, submetendo toda a nossa vida (pensamentos, escolhas, valores e projetos) à sua autoridade e permanecendo fiéis à Igreja edificada sobre a verdade professada por Pedro?

 

Relações entre Mt 16,13-20 e Is 22,19-23; Sl 137(138); Rm 11,33-36

O contexto histórico por detrás do oráculo de Isaías contra Sobna, um alto dignitário da corte de Ezequias, foi a ação de Senaquerib, quando sitiou Jerusalém no ano 701 a.C. Sobna é citado ao lado do “prefeito” Eliacim, filho de Helcias, em vários textos (2Rs 18,18.26.37; 19,2; Is 36,3.11.22; 37,2) e figura como escriba, um alto cargo na corte. Nesse sentido, o oráculo de Is 22,19-23 parece confuso pela função de primeiro-ministro atribuída a Sobna, que será destituído e, no seu lugar, ficará Eliacim, que será elevado a uma grande posição na corte, pois terá nas mãos a “chave de Davi”, isto é, uma suprema autoridade, ficando abaixo apenas do rei Ezequias.

Este é o fundo veterotestamentário para o episódio narrado em Mt 16,13-20, no qual Jesus conferiu a Simão Pedro uma grande autoridade, tornando-o o primeiro-ministro do Reino dos Céus, inaugurado por Jesus e que se faria visível em sua Igreja, edificada sobre a verdade que Deus Pai revelou a Pedro e que é a Pedra à qual Jesus se referiu: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo!”

Quantas lutas e guerras, dentro e fora da Igreja, pela posse das chaves! Fica aqui o lamento pela índole humana inclinada ao afã pelo poder, pelo sucesso e pela vida cômoda, mas fica igualmente a certeza de que as chaves não representam o poder, e sim a autoridade de Jesus, que é confiada apenas a quem Ele quiser e segundo os seus arcanos desígnios de amor, como atestado em Rm 11,33-36, que explica bem essa certeza.

Com gratidão pelo que o Senhor Deus fez em Pedro e, por ele, para cada um de nós, digamos com o salmista: “Ó Senhor, a vossa bondade é para sempre; completai em mim a obra começada”. Como discípulos, estejamos atentos ao dom do serviço e da caridade fraterna, sem os quais não se testemunha a verdade que fundamenta a resposta: o amor de Deus feito carne, por nós e por nossa salvação.

 

Considerações finais

A verdade proferida por Pedro corresponde à Pedra sobre a qual Jesus edifica a sua Igreja. Pedro não é a pedra, pois Jesus é a Pedra Angular (Mt 21,42; cf. Sl 117,22-23). A Pedra está contida na confissão de Pedro (por isso está em maiúscula), revelação do Pai que uniu a missão de Jesus à sua identidade, base sobre a qual a Igreja é edificada. Em razão disso, o poder do Hades, a morte, nunca poderá vencê-la, pois a verdade, revelada por Deus, não perece, ainda que sofra fortes ataques; já o poder do erro é edificado no orgulho e na mentira que provêm de Satanás. A autoridade da Igreja é edificada na humildade da kénosis do Verbo Divino encarnado e na verdade da sua identidade e missão, reveladas em sua fragilidade assumida. Antecipa-se o ensinamento: “Antes, o maior dentre vós será aquele que vos serve. Aquele que se exaltar será humilhado, e aquele que se humilhar será exaltado” (Mt 23,11).

 

Padre Leonardo Agostini Fernandes

Capelão da Igreja do Divino Espírito Santo do Estácio de Sá-RJ

Docente de Sagrada Escritura do Departamento de Teologia da PUC-Rio

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