Introdução
A partir de Mt 16,21, nota-se uma importante mudança de direcionamento no Evangelho segundo Mateus. O caminho já percorrido, que alcançou um clímax na confissão de Pedro e no dom do primado, tornou-se um novo ponto de partida da revelação e da formação dos discípulos, que culminará no mistério pascal em Jerusalém. Nesse sentido, o primeiro anúncio da Paixão, seguido de mais dois (Mt 17,22-23; 20,17-19), funciona como um marco redimensionador da concepção messiânica: a glória do Messias advirá pela concretização das passagens proféticas e sálmicas sobre o Servo Sofredor (Is 42,1-4; 49,1-6; 50,4-9; 52,13–53,12; Sl 16; 22; 69).
- Texto
21A partir de então, Jesus começou a mostrar aos seus discípulos que era necessário que ele fosse para Jerusalém; ia sofrer muito da parte dos anciãos, chefes dos sacerdotes e escribas; ser morto e, no terceiro dia, ser ressuscitado. 22Então, Pedro, tomando-o à parte, começou a repreendê-lo, dizendo: “Que Deus te poupe, Senhor! De modo algum isto será para ti.” 23Ele, porém, voltando-se, disse a Pedro: “Vai para trás de mim, Satanás! Escândalo és para mim, porque não pensas as coisas de Deus, mas as dos homens.” 24Então, Jesus disse aos seus discípulos: “Se alguém quer vir atrás de mim, negue a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me; 25pois quem quiser salvar a sua vida, a perderá; mas quem perder a sua vida por causa de mim, a encontrará. 26Pois que benefício terá um homem se ganhar o mundo inteiro, mas perder a sua vida? Ou o que dará um homem em troca da sua vida? 27Pois o Filho do Homem virá na glória do seu Pai, com os seus anjos, e então retribuirá a cada um segundo a sua conduta.”
- Que diz o texto?
A locução “a partir de então” tem a ver com a confissão de Pedro, o dom do primado concedido devido à revelação vinda do Pai e a ordem de Jesus, dada aos discípulos, para que a ninguém revelassem que ele era o Messias (Mt 16,20). Esta proibição pode ser entendida em mais de uma vertente; cito duas em particular:
Na primeira, Jesus não quis que essa revelação saísse do âmbito apostólico, pois a concepção messiânica na época estava profundamente vinculada às dimensões bélica e política. Assim era pensado e esperado o descendente de Davi que traria, novamente, a glória de Israel sobre os outros povos pelo domínio. Na segunda, Jesus, por causa disso, tinha que, em primeiro lugar, redimensionar essa concepção messiânica na mente e no coração dos seus discípulos para que fosse devidamente compreendida segundo os desígnios de Deus Pai.
Esta segunda condiz com o conteúdo presente no v. 21. Nota-se que a fala pertence ao narrador e tudo se desdobra a partir da notícia: “Jesus começou a mostrar a seus discípulos”. Existem certas realidades que podem ser percebidas sem a mediação; outras, ao invés, dependem dela. Pela índole da frase, Jesus respeitou os limites de compreensão dos discípulos e procurou ajudá-los a ver a realidade da Sagrada Escritura ainda não percebida e que tinha de ser resgatada e, principalmente, redimensionada: a aceitação do Messias como Servo Sofredor.
Há uma meta clara para Jesus: ir a Jerusalém, onde não só sofrerá a paixão, mas também ressuscitará. Com isso, Mateus acentua, para a sua comunidade de fé, o sentido da Páscoa, pois foi o próprio Jesus quem assumiu a firme decisão de ir ao encontro do seu destino; isto é, aceitou livremente assumir a vontade de Deus Pai em favor da redenção da humanidade. Em Jerusalém, as ações advêm em sequência: sofrer muito, ser morto e ser ressuscitado. Essas ações aparecem como algo inevitável, pois está dito que “era necessário”.
Os agentes causadores enunciados são lideranças em Jerusalém; são membros do Sinédrio; logo, com poder de decisão sobre o que concerne à religião judaica. Não há dificuldades para se aceitar que anciãos, chefes dos sacerdotes e escribas estejam no plural, pois o Sinédrio era formado por 72 membros, mas era presidido pelo Sumo Sacerdote em exercício. A tradução geralmente usada, “sumos sacerdotes”, não ajuda muito. No lugar, seria melhor traduzir archiereis por “chefes dos sacerdotes”, o que faria mais sentido, pois, em Jerusalém, existiam 24 classes sacerdotais (Lc 1,8 conforme 1Cr 24,19; 2Cr 23,8) e cada uma delas possuía um chefe. De fato, no processo de Jesus segundo Mateus, só atuou um sumo sacerdote: Caifás (Mt 26,57). Lucas e João são os que falam de um protagonismo também atribuído a Anás, sogro de Caifás (Lc 3,2; Jo 18,13.24).
Pedro reagiu e, ao contrário da revelação anterior, demonstrou que não estava aberto para se deixar penetrar e transformar pelo mistério de Deus em Jesus. Por isso, demonstrou a sua incapacidade para aceitar o que Jesus revelou, porque contrariava a sua concepção de Messias como rei e líder glorioso a exemplo de Davi. A ação de Pedro, que precede a sua fala, não deveria ser comparada a um gesto de deferência em relação a Jesus, mas a um sinal de que aquilo que não vem de Deus é uma ação tenebrosa feita às escondidas.
Nota-se que, enquanto Jesus apontou a vontade de Deus sobre Ele, Pedro interveio apelando para que Deus não permitisse que tal coisa acontecesse. Pedro parece que quis exercer o primado e o poder das chaves sobre Jesus e o fez em nome de Deus, pondo-se como opositor ao que Jesus havia revelado. Jesus, porém, e sem meios-termos, primeiramente se voltou para Pedro, isto é, colocou-se face a face, pois a verdade deve ser dita de frente, e depois realizou uma espécie de exorcismo sobre Pedro: “Vai para trás de mim, Satanás!”.
É possível que Jesus não estivesse falando “diretamente” com Pedro, mas com quem nele se revelou pelo errado modo de pensar. Estaria, então, diante do contrário da revelação de Deus. Essa ordem é muito próxima da ação de Jesus que repeliu Satanás no relato das tentações (Mt 4,10), bem como da revelação de que Jesus atua em virtude do Espírito de Deus, que faz chegar o Reino de Deus. Nota-se que aqui foi a primeira vez que o evangelista fugiu da forma que estava citando, “Reino dos Céus”, e usou “Reino de Deus” (Mt 12,28).
Fica claro que Pedro, porque não pensou as coisas de Deus, mas sim as coisas dos homens, agindo como um adversário, afastou-se da confissão de fé fundada na revelação do Pai. E aquele que foi chamado de Pedro, por Jesus, pela verdade que brotou de seus lábios (a Pedra), foi declarado, de forma inequívoca, pela contraposição ao que havia dito no primado: “Escândalo és para mim”. Pedro é um escândalo, isto é, uma “pedra de tropeço” no caminho que Jesus aceitou e decidiu fazer, pois é condizente com a vontade salvífica do Pai. Essa foi a primeira prova dada por Jesus de que as portas do Hades não prevaleceriam sobre a Igreja.
O que Jesus colocou como exigência para o discipulado aconteceu com ele a partir do momento em que se deixou prender e interrogar pelo sumo sacerdote: renunciou a agir como Deus Todo-Poderoso para agir como Filho do Homem obediente até a morte, e morte de cruz (Fl 2,5-11; Hb 5,8). Assim, o Mestre exige o que Ele, em primeiro lugar, cumpre. Desse modo, a lição, antes de ser proposta, é vivida como decisão na mente e no coração de Jesus. Este ensinamento já havia sido feito no discurso apostólico em Mt 10,37-39.
De certa forma, os versículos 25 e 26 preparam a compreensão sobre o tema do escândalo, que virá logo a seguir em Mt 18,5-11. Aceitar perder a vida, isto é, a sua psiquê, enquanto princípio vital, é muito mais do que perder uma mão, um pé ou um olho. Aceitar Jesus e a sua Boa Nova é encontrar a própria psiquê, aceitando ser para si mesmo e para o mundo uma “pedra de tropeço” no sentido positivo: ser uma chance de conversão diante do perigo e da sedução do sucesso, poder e vida fácil, que se concretizam nas injustiças, corrupção, fraudes, roubos e na ganância que fere a consciência, o coração e a fé dos mais fracos e simples.
Não é difícil perceber em Mt 16,26 um eco escatológico de Sf 1,18: “Nem sua prata nem seu ouro poderão salvá-los no dia da cólera do Senhor”. Nesse dia, quando o Filho do Homem vier em sua glória com seus anjos para retribuir a cada um de acordo com a sua conduta, somente a renúncia de si mesmo, tomando a cruz de cada dia, isto é, a vivência da Boa Nova de Jesus, em função da caridade pelo próximo, vivendo-os pelo Reino de Deus, poderá servir de password e de login para se acessar e entrar na vida eterna.
- Que propostas o texto faz?
A lógica de Deus é completamente diferente da que estamos acostumados a seguir na vida. Na negação do próprio modo de ver as coisas e das próprias vontades, é possível negar a lógica do mundo. É o caminho para nos adequarmos, em tudo, ao plano salvífico de Deus, que também comporta riscos e até sacrifícios.
A identidade e a missão de Jesus são o fundamento da nossa vocação e missão na Igreja e no mundo. Quando nos dispomos a agir como servos e não como senhores, a lógica do mundo é invertida em nós pela lógica do autêntico discipulado de Jesus Cristo, relativizando a busca do sucesso humano como necessária.
Como Pedro, muitos de nós, cristãos, não aceitamos seguir um Deus que se entrega e que morre por nós na cruz. Continuamos querendo acreditar em um Deus Todo-Poderoso e pronto a castigar os malvados e infiéis, alimentando uma fé triunfalista e que busca resultados imediatos. Nem sempre lembramos que o politicamente vencedor está moralmente adequado a Deus e à sua vontade. No Reino de Deus não contam o sucesso e o prestígio, mas a vivência das virtudes e dos valores evangélicos. Este é o sentido de aceitar perder a própria vida por causa de Jesus Cristo e da sua Boa Nova. Não existe conversão e redenção a baixo preço, pois a felicidade passa através do empenho e da dedicação ao bem comum por uma vida doada e generosa.
- Que o texto faz dizer a Deus em oração?
Senhor Jesus, a nossa tendência humana, pela preservação dos próprios interesses, nos assemelha a Pedro e à sua reação. Em geral, em vez de conhecermos e acolhermos a vontade de Deus em nossas vidas, manifestamos, em nossas orações, o contrário: queremos que Deus realize as nossas vontades. Que, iluminados pela vossa Boa Nova, na unção do Espírito Santo, deixemos de lado a lógica meramente humana e egoísta para abraçar a lógica salvífica do Reino de Deus, seguindo o vosso exemplo de amor e serviço, a fim de que não saiamos da nossa condição de discípulos, querendo assumir a do Mestre, que só a vós compete. Que não sejamos adversários do Reino, mas promotores da sua presença e ação no mundo, pelas quais se estabelecem a justiça e a paz em favor do bem comum e da humanidade renovada na vossa graça. Que, unidos de tantas formas à vossa paixão e morte de cruz, participemos também da vida nova em vossa ressurreição. Vós que sois Deus, viveis e reinais com o Pai, na unidade do Espírito Santo, pelos séculos dos séculos. Amém.
5 – Que decisões o texto leva a tomar?
Somos interpelados a refletir sobre a existência de duas fortes mentalidades, geralmente em oposição entre si: a lógica humana e a lógica de Deus. A primeira aparece descrita nas figuras de Jeremias, que se lamenta por não ver resultados na missão, e de Pedro, que rejeita aceitar que seu Mestre sofra e seja vencido. A segunda, pelo comportamento de Deus assumido por Jesus Cristo. Em qual das duas nos encontramos?
Com base nisso, é preciso analisar profundamente essas duas mentalidades e suas características, a fim de compreender o caminho de conversão que devemos fazer diariamente no confronto com Deus e sua vontade.
Se o verbo “negue-se”, expressão da mudança de mentalidade, pode nos causar certo constrangimento, devemos pensar nele como “escolha” livre e consciente, pois fazer a vontade de Deus é o que, de fato, nos importa. Somos felizes na obediência a Deus e à sua vontade, seguindo o exemplo de Jesus. A grande lição a ser percebida, refletida, assimilada e colocada em prática é a obediência da fé, pela qual se experimenta, no nosso modo de sentir, pensar e agir, a força da presença viva e operante do Novo Adão sobre o nosso velho Adão.
- Relações entre Mt 16,21-27 e Jr 20,7-9; Sl 62(63); Rm 12,1-2.
Jeremias está “cansado de Deus”, porque está cansado de sofrer. O exercício da sua missão profética lhe ocasionou adversidades e sofrimentos, condenando-o ao isolamento social. Diante disso, parece não acreditar que haja eficácia na Palavra de Deus. É desconcertante, para ele, pensar que os planos de Deus possam falir. Mas Deus lhe falou de forma ardente ao seu coração, ensinando que também no “falimento” há libertação.
O Salmo, expressando a sede e a confiança em Deus, revela que, mesmo no sofrimento e na perseguição, a Palavra de Deus permanece como um fogo interior que não pode ser silenciado; por isso, o orante continua a buscar e louvar o Senhor. Essa busca transforma a vida em oblação e conduz à renovação da mente, para discernir e cumprir a vontade divina. Assim, desejar Deus, acima de tudo e de todos, significa aceitar a lógica da cruz, renunciar a si mesmo e seguir Jesus, confiando que nele se encontra a verdadeira vida e felicidade.
Se o chamado de Deus nos faz viver em meio a dores e sofrimentos, como aconteceu com Jeremias e prefigurou a concretização do Servo Sofredor em Jesus Messias, a exortação do apóstolo Paulo é essencial para cada um de nós. Serve amar o mundo se for para nele ser e agir como um instrumento de salvação, e não para se deixar subverter por ele e se afastar de Deus. Ao dizer “mas transformai-vos”, Paulo deixou claro que a transformação do mundo depende da transformação de cada um de nós dentro de outro mundo: o da comunidade de fé, muitas das vezes perseguida e em conflito interno e externo, como Pedro expressou. Cabe-nos ser elemento de fé no confronto com os de dentro da comunidade e com os de fora da comunidade.
Que saibamos ouvir Jesus também nos dizer o mesmo que disse a Pedro: “Vai para trás de mim, Satanás!”, toda vez que preferirmos a mentalidade do mundo e não formos dóceis ao Espírito Santo que gera em nós Jesus Cristo e o seu amor incondicional por Deus e por sua vontade: verdadeiro caminho de felicidade.
Considerações finais
Não raro, se traz para dentro da comunidade de fé a mentalidade que circula fora dela. É mais fácil deixar-se influenciar pelo que o mundo oferece do que procurar influenciar o mundo com a fé, a esperança e a caridade. É mais fácil dizer que o mundo não presta do que reconhecer que o mundo é fruto do que são e nele fazem os seres humanos. Então, qual tem sido a nossa parcela de culpa, como discípulos, para que o mundo ainda não seja o ambiente favorável, desejado e redimido por Deus a favor da humanidade?
Que o exorcismo feito sobre Pedro continue sendo feito sobre cada um de nós, pelo qual Jesus expulsa da nossa mente e do nosso coração tudo aquilo que não é condizente com a vontade de Deus e que, portanto, oferece riscos para a vivência concreta do Reino de Deus. Essa intenção condiz com a condição do discipulado apresentada por Jesus, pondo em xeque as nossas motivações. Se o ponto de partida é uma condicional, “Se alguém quer vir atrás de mim”, pois o discipulado tem que ser uma resposta livre ao chamado, a decisão por Jesus e pelo seu Reino exige três ações totalmente pessoais: negar a si mesmo, tomar a sua cruz e seguir Jesus.
Padre Leonardo Agostini Fernandes
Capelão da Igreja do Divino Espírito Santo do Estácio de Sá-RJ
Docente de Sagrada Escritura do Departamento de Teologia da PUC-Rio