Introdução
Depois das três parábolas (dos dois filhos, dos vinhateiros homicidas e da festa de núpcias), pelas quais Jesus procurou alertar e, ao mesmo tempo, quis confrontar os chefes dos sacerdotes e dos fariseus, a respeito de suas más intenções e ações, segue uma ardilosa reação dos fariseus. Mais uma vez, essa reação não foi de conversão, mas de rejeição e de indignação no confronto com Jesus. Exatamente como haviam feito com João, o batista, fechando-se à voz profética, demonstram-se avessos em relação a Jesus, a fim de condená-lo à morte.
- Texto bíblico
15Então os fariseus formaram um conselho sobre como o apanhariam em [alguma] palavra. 16Enviaram-lhe os seus discípulos com os herodianos, dizendo: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus em verdade, e não te importas com ninguém, pois não olhas para a face dos homens. 17Dize-nos, pois, o teu parecer: É lícito, ou não, dar tributo a César?” 18Jesus, porém, tendo percebido a malícia deles, retrucou: “Por que me tentais, hipócritas? 19Mostrai-me a moeda do tributo.” Eles, então, apresentaram-lhe um denário. 20E disse-lhes: “De quem [é] esta imagem e a inscrição?” 21Responderam-lhe: “De César!” Então lhes disse: “Devolvei, pois, a César o que é de César; e a Deus o que é de Deus.”
- Que diz o texto?
Os fariseus não desistiram de suas intenções malvadas, a fim de prender Jesus; por isso, arquitetaram, com astúcia, um novo plano que envolveu religião e política partidária. Deve-se notar que os fariseus não se apresentaram pessoalmente diante de Jesus, mas confiaram o seu plano aos seus discípulos e aos herodianos. A malícia é tremenda, pois foi delegada a quem se prestava para isso, com um plano envolvente e ludibriante. Acreditaram que Jesus não conseguiria escapar dessa armadilha. Quanta maldade havia neles! E, por que não dizer, também em nós, pois essa continua existindo em nós quando fechamo-nos em nossas falsas intenções!
Comecemos percebendo a estrutura do texto: Quem elabora o plano? Os fariseus. Qual foi o objetivo? Apanhar Jesus em alguma palavra. Que metodologia empregaram no plano? Mandaram os seus discípulos junto com alguns do partido de Herodes. Como o plano foi articulado: Desdobrou-se em dois momentos.
No primeiro momento, está um falso elogio pautado sobre uma verdade a respeito de Jesus: “Mestre, sabemos que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus em verdade, e não te importas com ninguém, pois não olhas para a face dos homens.” No segundo momento, está a apresentação da questão sobre a qual Jesus deveria emitir o seu parecer: “Dize-nos, pois, o teu parecer: É lícito, ou não, dar tributo a César?”.
O ditado popular, “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, ajuda a perceber o nível de malícia que se encontra no plano dos fariseus. Estes, porém, não contavam com a grande habilidade de Jesus que logo se deu conta da armadilha. A essa habilidade, não deveríamos chamar apenas de onisciência, mas de real atenção, pois percebeu que a malícia deles estava baseada na falsidade e os deflagrou: “Por que me tentais, hipócritas?”.
É curioso, Jesus não recuou e não se negou em dar a resposta. Ele é fiel à verdade que foi dita com tanta falsidade pelos enviados dos fariseus. Ele é o Mestre porque não repete ensinamentos já sabidos, mas porque sabe dar respostas novas e adequadas para questões velhas e caducas: “Mostrai-me a moeda do tributo”.
Nota-se que o início da resposta envolveu os enviados dos fariseus que, provavelmente, tinham consigo a moeda do tributo. Apresentaram-lhe, então, um denário: moeda que equivalia à paga de uma diária de trabalho. Se Jesus tivesse dito, “não é lícito”, os herodianos poderiam acusá-lo de insubordinação a César, pois estavam sempre prontos para denunciar a Herodes quem agisse assim. Se Jesus, porém, tivesse dito, “é lícito”, os fariseus, zelosos pelas tradições dos antigos e da lei de Moisés, poderiam acusá-lo de não observar o que essa proibia: o uso de imagens, pois o denário continha a imagem de César, que era cultuado como um ser divino. Não obstante isso, eles tinham com eles a moeda do tributo, provavelmente estaria com um dos herodianos. Assim, realmente mereceram ser chamados de hipócritas.
Jesus não só percebeu a malícia nas palavras dos enviados dos fariseus (capitatio benevolentiae), como respondeu com inteligência à pergunta que lhe foi feita. Não disse “sim” ou “não”, mas respondeu colocando diante deles uma pergunta óbvia: “De quem [é] esta imagem e a inscrição?”; a resposta, indiscutivelmente, era mais óbvia ainda: “De César.” Por detrás da pergunta dos enviados, estavam interesses religiosos, políticos e econômicos, tanto para os judeus como para o império romano.
É preciso lembrar que César era o sobrenome do ditador Gaius Julius Caesar, que foi assassinado em 15 de março de 44 a.C. Este sobrenome foi assumido por Gaius Octavius Thurinus, mais conhecido como Otaviano, denominado de Augusto quando se tornou imperador e reinou de 27 a.C. a 14 d.C., sob o qual nasceu Jesus. Contudo, na época da pergunta feita a Jesus, o império já tinha passado para Tibério César, que reinou de 14 a 37 d.C. e sucedeu a Otaviano. Então, a imagem do denário provavelmente era do Imperador Tibério.
Além disso, é preciso considerar o fato de que a sociedade judaica estava estratificada: saduceus, fariseus, zelotas, sicários, herodianos e essênios. Os fariseus eram contrários às taxas impostas nos tributos, mas as pagavam para não terem problemas com o império romano. Já os herodianos, cortesãos do tetrarca Herodes Antipas, dominador da Galileia e Pereia, eram simpatizantes do sistema dominante, do qual tiravam vantagem.
A partir da resposta que deram: “De César”, Jesus deu a sua sentença em forma sapiencial de alto nível: “Devolvei, pois, a César o que é de César”; isto é, o denário que continha a imagem e a inscrição de Tibério. Mas, ao acrescentar “e a Deus o que é de Deus”, Jesus indicava que havia um imposto devido somente a Deus. É impressionante, mas Jesus, que é a imagem perfeita do Deus invisível (Cl 1,15), antecipou, nessa ordem, o que seria feito dele em seu Mistério Pascal. Em outras palavras, Jesus estava dizendo: “Devolvei-me a Deus como imposto pela redenção da humanidade, pois somente eu posso pagar o preço do seu resgate.” No contraste entre César e Deus subjaz e transparece o futuro contraste entre Pilatos e Jesus como ocorreu no seu julgamento.
Diante da última fala de Jesus, os enviados ficaram surpresos e o deixaram; não tiveram uma matéria para acusá-lo e, assim, prendê-lo, mas tiveram que ir embora (v. 22). Tudo, porém, já estava determinado não pelas intenções dos líderes do povo, mas pelo próprio Jesus, que, tendo domínio da situação, manifestava, em suas palavras e ações, que veio para fazer a vontade do Pai e dar a sua vida em resgate da humanidade (Mt 20,28).
- Que propostas o texto faz?
Um dos maiores problemas hodiernos, debatidos por muitos em nossas sociedades, diz respeito à relação entre fé e política. O episódio do evangelho, somado às demais leituras, sublinha que não existe apenas uma leitura laica da realidade e da história; também a fé tem o direito e critérios válidos para as iluminar e interpretar.
A profissão de fé, porém, não pode desconhecer, ao lado do divino, o poder concedido ao ser humano que deve ser exercido devidamente em todos os níveis da sociedade com competência a favor do bem comum. Desse modo, a comunidade de fé conhece também diferentes relações para além dos afazeres sociopolíticos: a fé, a esperança e a caridade são valores essenciais que, se vividos autenticamente, podem, desde já, se tornarem um caminho alternativo de solução para a desumanização frente aos sistemas de governo vigentes no mundo.
Se fé e política ainda são um binômio pouco claro, não obstante a multiplicação de partidos e de igrejas que se autorreferenciam, é doveroso ao fiel cristão ser capaz de perceber que tipo de relação está ocorrendo entre essas esferas. Muitos cristãos, hoje, estão convencidos de que a profissão de fé que não se torna também política, não serve como testemunho. Há certa razão nisso. Contudo, é preciso lembrar que a fé não é um ato político, é uma escolha concreta por Deus a exemplo de Jesus Cristo que não veio para ser servido, mas para servir. Nesse sentido, fé e política se encontram eficazes quando estão a serviço do ser humano em nível pessoal e socioeclesial.
Assim, cabe aqui uma real questão: As escolhas dos nossos políticos, o sistema de governo sob o qual estamos inseridos, as instituições humanas que criamos e a forma como os fiéis tem se posicionado na igreja e no mundo, estão verdadeiramente em função da salvação do ser humano e do bem comum de toda a humanidade, ou se demonstram voltadas para interesses privados de determinadas classes que apenas querem tirar proveito da realidade vigente e, em particular, dos mais vulneráveis em nossa realidade socioeclesial?
- Que o texto faz dizer a Deus em oração?
Senhor Jesus Cristo, sois o caminho, a verdade e a vida. Em vossas palavras e ações encontramos a luz necessária para não nos envolvermos em questões opressoras e que nos afastam dos desígnios salvíficos de Deus Pai. Concedei-nos, na unção do Espírito Santo, a graça de sermos capazes de perceber a malícia das falsas ideologias e dos que se deixam levar por essas; mas, acima de tudo, de sermos vossas testemunhas no mundo, promovendo a fé, incutindo esperança e vivendo a caridade fraterna. Que não nos desviemos do caminho do bem e da justiça que concretiza o bem comum e a paz entre os seres humanos. Que o nosso sim, seja sim, e o nosso não, seja não, a fim de que a fidelidade e a verdade que libertam sempre nos sustentem diante das ciladas maliciosas. Que a nossa vida de fé seja coerente, de modo que não haja separação entre o que professamos por palavras e o que agimos. Que o verdadeiro tributo a ser pago seja o reconhecimento de que a dignidade do ser humano deve ser salvaguardada e sua vida valorizada do início ao fim, seguindo o vosso exemplo de amor e serviço a favor de nossos irmãos e irmãs, em particular dos mais sofridos e marginalizados em nossas sociedades e, infelizmente, em muitas de nossas comunidades de fé. Vós que sois Deus, viveis e reinais, com o Pai, na unidade do Espírito Santo, por todos os séculos dos séculos. Amém.
- Que decisões o texto leva a tomar?
A resposta de Jesus aos enviados dos fariseus, ao longo da história do cristianismo, tem formado uma mentalidade sobre o comportamento dos cristãos perante o Estado. Contudo, existe uma forte tensão que se baseia no fato de que, no confronto entre o que é devido a César e o que é devido a Deus, estão em evidência duas prospectivas que dificilmente são conciliáveis: 1ª) O desejo humano de dominação e a real potestade que cabe somente a Deus sobre a inteira humanidade; 2ª) A política do ser humano, com suas estratégias temporais, e o kairós da salvação que se verifica no mistério pascal de Jesus Cristo e sua consumação plena no fim dos tempos.
Para atualizar a interpretação da resposta de Jesus é necessário refletir sobre um fato: tal resposta não pretende solucionar definitivamente um problema que continua premente nos nossos dias. Ao contrário, essa resposta é um estímulo que não pode ser transcurado e que nos convida a sempre nos interrogarmos diante das situações políticas e religiosas de uma forma sempre nova sobre a real vontade de Deus para a humanidade. Na verdade, a resposta dada por Jesus não retira de nós a nossa responsabilidade pública, mas a coloca diante de Deus, a quem devemos tributar de forma incondicional a obediência da fé, o nosso “sim”, em toda e qualquer circunstância de vida. Temos nos preocupado com isso e procurado cumprir nosso papel como cidadão de fé?
- Relação entre Mt 22,15-21 com Is 45,1.4-6; Sl 95; 1Ts 1,1-5b
Is 45,1.4-6 atesta que a história não transcorre ao léu de si mesma, mas é conduzida por Deus, que se vale até de líderes estrangeiros para recolocar o seu povo e a humanidade nos caminhos do seu plano salvífico. A base é a afirmação que se repete: “Eu sou o Senhor, não existe outro Deus fora de mim”. Os líderes da época, bem como os da nossa igualmente, sequer se dão conta de que estão todos nas mãos de Deus.
Sem dúvida, a idolatria, seja ela de natureza material ou espiritual, é a raiz dos grandes males: injustiças e corrupção; males estes que assolam e dividem a humanidade, pois a idolatria, que é uma injustiça na vertical, gera todas as formas de injustiça na horizontal, em particular nas ações que corrompem as pessoas e os seus ideais de transformação dos sistemas. Enquanto as famílias das nações não derem a Deus a glória devida (Sl 95), a exemplo do que Jesus disse: “Devolvei a Deus o que é de Deus”, a humanidade permanecerá presa nos seus ímpios propósitos e deixará de experimentar, como os chefes dos sacerdotes e os fariseus, a graça da conversão, que, sem dúvida, é o sacrifício que realmente agrada e que de fato honra a Deus sobre todas as coisas e pessoas.
Ao contrário, quando o ser humano se abre para o anúncio do Evangelho, tudo começa a se orientar de forma devida para Deus em Jesus Cristo na unção do Espírito Santo. É o que Paulo disse aos fiéis de Tessalônica na abertura da sua carta (primeiro escrito de todo o Novo Testamento e que inaugurou um modo novo e eficaz para se fazer presente e seguir as comunidades por ele fundadas): “graça e paz a vós”. Na linha de frente estão as virtudes teologais que orientam a vida do fiel e de toda a comunidade diante de Deus, nosso Pai: “recordando-vos continuamente nas nossas orações, fazendo memória de vós diante de Deus e nosso Pai; do empenho da vossa fé, da vossa operosidade na caridade e da vossa constante esperança no Senhor nosso Jesus Cristo”. É assim que a Igreja reconhece que a sua autoridade está fundada não no poder político, mas na adesão à Palavra de Deus.
Considerações finais
Um grande problema na vida política e religiosa acontece quando o ser humano, fiel ou partidário de um líder, torna absoluto o que, na verdade, é relativo. A história social, política e religiosa de Israel está marcada por muitos problemas dessa natureza. O pior é que esses mesmos erros continuam sendo repetidos nas sociedades hodiernas e atuais religiões, alimentando o problema e transformando-o em um dado cultural sem precedentes.
Pela fé, que é conhecimento de Deus, o comportamento se torna condizente com a sua vontade, em particular através da caridade fraterna, porque se apoia em quem deu a própria vida para nos salvar: Jesus Cristo, razão de nossa esperança e felicidade sem fim. Que cada um de nós se deixe conduzir por Jesus, nosso Mestre verdadeiro, aprendendo dele o caminho que conduz para Deus: “Amai-vos como eu vos amei”.
Pe. Leonardo Agostini Fernandes
Capelão da Igreja do Divino Espírito Santo do Estácio de Sá/RJ
Docente de Sagrada Escritura do Departamento de Teologia da PUC-Rio
Imagem: Philippe de Champaigne, c.1602–1674