Uma leitura de Mt 5,1-12a: “Jesus começou a ensiná-los”

Introdução

Jesus Cristo é o novo Adão e o novo Moisés para uma nova humanidade chamada a caminhar à luz de uma nova legislação ou, na verdade, à luz da compreensão de toda a Torá, que orienta a vida de comunhão com Deus e com o próximo: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo. Com atenção, verifica-se que são nove bem-aventuranças mais uma, o que perfaz dez no total, colocando-as como o Decálogo da Nova Aliança estabelecida em Jesus Cristo. A comparação pode prosseguir sob vários aspectos. Dentre esses, destaca-se o monte ao qual Jesus sobe, onde se senta e começa a ensinar os seus discípulos. Para Mateus, essa ação de Jesus faz lembrar o monte Sinai, ao qual Moisés subiu por ordem de Deus e onde recebeu as duas placas de pedra contendo as Dez Palavras, comumente chamadas de Dez Mandamentos (Ex 24,12; 31,18).

  1. Texto bíblico

1 Naquele tempo, vendo as multidões, Jesus subiu a um monte e pôs-se sentado; os discípulos se aproximaram, 2 e, tomando então a palavra, ensinava-os, dizendo: 3 “Felizes os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus. 4 Felizes os aflitos, porque serão consolados. 5 Felizes os mansos, porque herdarão a terra. 6 Felizes os que têm fome e sede de justiça, porque serão saciados. 7 Felizes os misericordiosos, porque encontrarão misericórdia. 8 Felizes os puros de coração, porque verão a Deus. 9 Felizes os operadores de paz, porque serão chamados filhos de Deus. 10 Felizes os perseguidos por causa da justiça, porque deles é o Reino dos Céus. 11 Felizes de vós quando vos insultarem, vos perseguirem e, mentindo, disserem todo tipo de mal contra vós por causa de mim. 12 Alegrai-vos e exultai, porque grande será a vossa recompensa nos céus”.

  1. O que diz o texto?

Em um primeiro momento, o conteúdo das bem-aventuranças poderia chocar quem as escuta, pois são situações pelas quais ninguém, humanamente falando, gostaria de passar ou nas quais gostaria de estar. Contudo, é o anúncio de salvação e de alegria para quem está vivendo à margem da sociedade. De igual modo, é preciso lembrar que Jesus nunca ensinou o que não viveu. Ele é o Bem-Aventurado por excelência, pois, nele, todas as bem-aventuranças se concretizam e devem ser vividas por causa dele. Passa-se do estupor ao seguimento.

Os vv. 1-2 trazem as ações de Jesus e nos oferecem dados sobre a sua percepção da realidade à sua volta: “vendo as multidões”; sobre o que fez quanto ao local: “subiu ao monte e sentou-se”; sobre as consequências: “os discípulos aproximaram-se”; e sobre a sua reação: “e Jesus começou a ensiná-los”.

A primeira ação de Jesus pode ser tomada como motivadora e reveladora de compaixão. Jesus viu a multidão com olhos de quem reconheceu a necessidade de instruí-la, a fim de retirá-la da ignorância. Esta abertura remete-nos diretamente à chegada do povo liberto, sob a condução de Moisés, ao monte Sinai, onde recebeu a Torá, isto é, a instrução capaz de mudar a mentalidade que, por sua vez, mudaria o comportamento do povo liberto do Egito. À diferença do episódio do Sinai, o povo não ficou à distância, mas próximo de Jesus.

É preciso acrescentar que o Sermão da Montanha parece resultar da notícia contida em Mt 4,25. Essa multidão pode evocar o povo numeroso que deixou o Egito sob a liderança de Moisés. Para Mateus, o ensinamento de Jesus sobre a montanha é uma nova Torá/instrução e difere do modo como fariseus e escribas ensinavam. Jesus, pelo seu sermão, deu início a um novo tempo, e o conteúdo desse sermão é o Reino dos Céus, não uma terra a ser conquistada, onde se instaura mais um reino humano.

A ação de subir, além de ser um movimento expressivo rumo a Deus, também indica um modo concreto de Jesus se posicionar. Ao se sentar, assume a posição de Mestre que vai ensinar. A aproximação dos discípulos pode evocar, por um lado, os que ouvem primeiro para, então, irem repassando o ensinamento; por outro lado, os discípulos são como o conselho dos anciãos que, juntos, testificam a validade dos ensinamentos de Jesus em suas vidas e que devem assimilar as bem-aventuranças como caminho de configuração a Jesus, o Bem-Aventurado por excelência. Assim, os primeiros destinatários se tornam os primeiros arautos deste ensinamento (Mt 28,16-20).

A palavra “makarioi” pode ser traduzida também por “beatos” ou “felizes”, opção de tradução assumida acima. Não indica um sentimento, mas uma condição de vida que resulta do discipulado, isto é, de quem está ao lado de Jesus e com Ele, o Beato que a todos realiza porque ensina como fazer a vontade de Deus na própria vida.

A multidão que busca Jesus e se aglomera em torno dele é como um rebanho sem pastor, exposta a todo tipo de situação: pobreza, fome, sede, enfermidades, injustiças, perseguições etc. Nesse sentido, a aproximação dos discípulos é indicadora da ação necessária para se aprender com o Mestre Jesus não apenas o conteúdo, mas a sua sensibilidade, necessária para que saibam igualmente ser compassivos com o povo sofrido.

A primeira bem-aventurança fala de “pobres em espírito”. No Antigo Testamento, o pobre é a pessoa dependente de Deus, independentemente da sua situação econômica (Zaqueu, por exemplo: Lc 19,1-10). Os pobres são os que colocam em Deus a sua esperança, que não decepciona (Rm 5,5), e que esperam a manifestação de Deus (Is 57,15). Dentro da Igreja nascente, e também para o judaísmo, ser pobre diante de Deus é não se apegar a nada nem a ninguém na busca de libertação ou salvação. É ter confiança em Deus, a exemplo de Jesus, que, embora fosse rico, se fez pobre ao assumir a nossa condição humana para nos enriquecer (2Cor 8,9). O Reino dos Céus pertence aos pobres porque nestes existe a obediência da fé, pela qual Deus reina em suas vidas.

A segunda bem-aventurança se dirige aos aflitos, isto é, aos oprimidos, que vivem debaixo de provações e são desprezados pelos soberbos gananciosos. A consolação que esperam não vem do ser humano, mas de Deus, que não apenas liberta das potências malvadas que oprimem, mas principalmente livra da opressão do pecado e da morte, pelos quais o Maligno subjugava e mantinha a humanidade sob seu domínio.

 

A terceira bem-aventurança, sobre os mansos, evoca uma parte de Is 60,21: os justos que “possuirão a terra”. A mansidão é uma atitude ativa, e não passiva, contra todas as formas de violência; em particular, contra aquelas praticadas, na época, pelas sinagogas que excluíam os pecadores e os cristãos. Com isso, Jesus exortava a sua comunidade de discípulos a imitá-lo, evitando o uso da violência no trato com os pecadores e marginalizados.

A quarta bem-aventurança realiza um deslocamento da fome de alimento e da sede de bebida para a justiça. É a proclamação da libertação de todas as formas de injustiça, que advém da justiça de Deus. Esta não é punitiva, mas recriadora, renovadora, restauradora e reconciliadora. São ações presentes em Jesus, que é o Messias que realiza e ensina a fazer a vontade de Deus, pela qual se cumpre toda a justiça (Mt 3,15).

A quinta bem-aventurança aproxima o ser humano de Deus pela prática da misericórdia, pois esta é a sua obra em relação ao ser humano: “misericórdia quero” (Os 6,6). Essa obra é assumida por Jesus Cristo, que não veio para chamar justos, mas pecadores (Mt 9,13). Assim, alcança misericórdia quem tem e pratica a misericórdia em relação ao seu próximo, exatamente como Deus faz em relação ao ser humano pelas palavras e ações de Jesus.

A sexta bem-aventurança evoca o Sl 24,4. Pode subir ao monte do Senhor, que é Sião, onde estava o templo de Jerusalém, quem tem mãos puras, não pronuncia mentiras e não jura em prejuízo do seu próximo. Ainda no Sl 51,12, o orante pede a Deus que lhe conceda um coração puro e renove em seu peito um espírito firme. Não são expressões de um mero sentimento espiritual, mas de atitudes assumidas em relação a si mesmo e ao próximo. É assim que se vê e se encontra Deus no semelhante.

A sétima bem-aventurança recai sobre o campo da ação, no qual a expressão “operadores de paz” aparece como um programa de vida pessoal e comunitário, a fim de evitar todo e qualquer tipo de conflito. É um testemunho vivo do que o Senhor Jesus realizou com a sua paixão. Quem opera e concede paz, como o servo sofredor em Is 52,13–53,12, espera que os seus discípulos sigam seus passos e exemplos. Não à toa, a paz foi a saudação que Jesus ressuscitado dirigiu aos seus discípulos (Jo 20,19.26), pois Ele é o príncipe/princípio da paz (Is 9,5).

A oitava e a nona bem-aventuranças estão conjugadas. Como o Senhor e Messias foi perseguido, de igual modo os discípulos não podem ignorar que o seguimento ocasionará as mesmas consequências “por causa dele”. A fé em Jesus Cristo não isenta de dificuldades; ao contrário, as atrai, pois a novidade de vida se choca com as convicções religiosas pautadas na mera retribuição e nos méritos pela observância da Lei.

É por isso que, no v. 12, Jesus proclama a alegria exultante, como se fosse uma décima bem-aventurança, como sinal distintivo da comunidade dos discípulos. A recompensa anunciada não deriva de méritos, mas da graça e da cooperação com ela. Desse modo, cada discípulo tem, diante de si, o mesmo destino dos profetas, que culmina no mistério da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Cabe ao discípulo ser igual ao Mestre.

  1. Que propostas o texto faz?

“Sede santos porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo” (Lv 19,2). Esta é a vontade do Senhor para o seu povo. Se, por um lado, a santidade é a realidade própria de Deus, porque pertence à sua natureza — por isso Isaías proclama “Santo, Santo, Santo” (Is 6,3) —, por outro lado, Deus tornou a sua santidade acessível ao ser humano e nada exige dele que não seja possível.

A santidade, deve-se dizer logo de início, não é um prêmio que o Senhor concede ao ser humano por algum mérito; ela é um dom, pura manifestação do seu amor e da sua graça, que opera a santificação do ser humano que a acolhe e busca se configurar a Deus. Esta obra de santificação, na vida do ser humano, é um caminho de correspondência à vontade de Deus pela obediência da fé (Rm 1,5). Feito à sua imagem e semelhança (Gn 1,26), o ser humano deveria reconhecer a santidade como sua inata e primeira vocação. Então, a santidade é a vida de íntima relação do ser humano com Deus, com o próximo, com a criação e consigo mesmo. Essa definição encontra forte fundamentação na resposta que Jesus deu ao fariseu em Mt 22,36-40.

Jesus não proclamou beatos os que morrem e deixam esta vida, mas sim os que, nesta vida, experimentam e vivem as bem-aventuranças como caminho de santificação pessoal e comunitária, razão pela qual nove bem-aventuranças são enunciadas no plural e, no final, o texto conta com dois imperativos no plural: “Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus”. Somente aqui se fala do futuro, que será para os que, no presente, se abrem e buscam viver as bem-aventuranças.

É oportuno lembrar e evocar, nesse momento, o que exortou o Papa Francisco na Gaudete et exsultate, números 65 a 94, sobre as bem-aventuranças, mostrando que a vivência delas é um caminho de configuração a Jesus Cristo, assumindo com decisão o discipulado na contramão do que a sociedade propõe como estilo de vida. Por isso, afirma: “As bem-aventuranças não são absolutamente um compromisso leve ou superficial; pelo contrário, só as podemos viver se o Espírito Santo nos permear com toda a sua força e nos libertar da fraqueza do egoísmo, da preguiça e do orgulho”.

  1. O que o texto faz dizer a Deus em oração?

Senhor Jesus Cristo, pelas bem-aventuranças nos ensinaste a nos desapegarmos das falsas promessas de felicidade e a reconhecer que, no teu Reino, as fragilidades humanas não são sinais de fracasso, mas de esperança e de renovação. Dá-nos um coração manso, misericordioso e humilde, capaz de estabelecer relações edificadas no silêncio e na fidelidade. Sustenta-nos na esperança diante das injustiças, das incompreensões e das perseguições por causa do teu nome, a exemplo de todos os santos e santas que já experimentam a glória celestial. Que nossa vida seja um reflexo do teu ser compassivo e totalmente voltado para a realização da vontade de Deus Pai, na unção do Espírito Santo. Tu que vives e reinas pelos séculos dos séculos. Amém.

  1. Que decisões o texto leva a tomar?

O ponto de partida de Jesus é a pobreza de espírito, contraposta à cobiça ilícita com a qual termina o Decálogo, no décimo mandamento: não cobiçar a mulher nem os bens do próximo (Ex 20,17; Dt 5,21). Enquanto o Decálogo era um dom para o povo eleito na aliança do Sinai, as bem-aventuranças, na dinâmica do Evangelho de Mateus, são um dom para toda a humanidade, destinada a ser evangelizada graças à missão universal que Jesus deu aos discípulos, após ressuscitar dentre os mortos, em um monte determinado, que, para o evangelista, é o mesmo das bem-aventuranças (Mt 28,16-20). Assim, o Sermão da Montanha é tomado como conteúdo próprio da missão. Lá onde Jesus amaestrou os discípulos, eles recebem a nova ordem de ir e amaestrar todas as gentes, ensinando-as a se tornarem discípulos. Essa missão continua em cada um de nós.

A santidade não é fruto de um conjunto de normas e leis que separam ou segregam uns dos outros, como era pensada, mas é um caminho de comunhão e de partilha da missão do próprio Jesus, que, sendo o Verbo Encarnado, não veio para viver sua santidade como separação dos seres humanos, como faziam os saduceus, os fariseus, os escribas, os mestres e os doutores da Lei, mas como separação de tudo o que desune e relega o ser humano ao isolamento. É lamentável quando se vê que muitos querem viver uma santidade separada e distante das pessoas, em particular daquelas que consideram pecadoras, repetindo o mesmo erro dos fariseus e saduceus.

A santidade proposta por Jesus não é uma ascese para Deus, mas é adesão pessoal a Ele, enquanto Deus que desce do mais alto dos céus para ser e viver no meio dos seres humanos. Nesse sentido, a kenosis do Verbo de Deus evoca a kenosis de Deus no final do Livro do Êxodo, quando faz sua glória habitar na tenda-santuário (Ex 40,34-35). É um prenúncio da Encarnação do Verbo no seio de Maria (Mt 1,20; Lc 1,26-38; Jo 1,14), bem como do dom de Pentecostes, pelo qual o Senhor Jesus vive e age em cada batizado, favorecendo a prática da caridade fraterna (At 2,42-47). Assim, vive-se a santidade própria de Jesus quando se assume a compaixão, a misericórdia e o perdão como testemunho fiel do compromisso com as bem-aventuranças. O caminho do discipulado é o da missão: aprende-se com Jesus e transmite-se o aprendizado pelo testemunho de vida.

  1. Relação entre Mt 5,1-12a; Ap 7,2-4.9-14; Sl 23; 1Jo 3,1-3

Os textos nos ajudam a compreender o chamado à santidade. As bem-aventuranças nos colocam diante da santidade favorecida pelas dificuldades da vida. Nesse sentido, a felicidade não é sinônimo de ausência de problemas; ao contrário, é um caminho a ser percorrido em meio às mais diversas situações de provação que nós, como discípulos, enfrentamos.

Ap 7,2-4.9-10 apresenta uma imagem do céu e dos eleitos, que são contados de todas as tribos do antigo e do novo Israel. Apresenta também alguns detalhes: os santos trazem a marca do Deus vivo, são servos vestidos de branco e vieram da grande tribulação, dado que evoca as bem-aventuranças; aprenderam o caminho da santidade como conformação e configuração a Jesus Cristo (Gl 2,20), que é o Cordeiro imolado que tira o pecado do mundo (Ap 2,8; 5,5; Jo 1,29.36). Essa configuração um dia se manifestará de forma plena, como dito em 1Jo 3,2: “Sabemos que, quando Jesus se manifestar, seremos semelhantes a Ele, porque o veremos tal como Ele é”.

No início, evocamos Lv 19,2: “Sede santos porque Eu, o Senhor vosso Deus, sou santo”. Agora evocamos Ef 1,4, lembrando que nossa vocação e missão constituem uma predestinação para sermos santos e irrepreensíveis no amor. Se, por um lado, o texto do Apocalipse nos colocou diante da glória celeste, também nos revelou que a eleição não nos isenta de fadigas e de sofrimentos por Jesus Cristo, por seu Evangelho e pela Igreja. Ao contrário, faz-nos contemplar o caminho para manifestar o triunfo da Cruz do Senhor em cada um de nós. Por outro lado, esse triunfo é fruto do amor de Deus revelado em Jesus Cristo, como afirma o texto de 1Jo 3,1-3: esse amor é o grande presente que o Pai nos concedeu. Por isso, viver as bem-aventuranças, como discípulos, é caminhar interpelados pela razão do nosso ser e do nosso existir: somos chamados filhos de Deus; seremos semelhantes a Jesus Cristo e o veremos tal como Ele é, porque no seu sangue fomos purificados.

Considerações finais

O louvor que damos a Deus pelos santos e santas nada acrescenta à santidade de Deus, tampouco à de cada um deles, porque já se encontram na sua glória, mas serve para nos provocar e para verificar se queremos experimentar a mesma fé que os levou a tudo renunciar por amor a Deus e pelo bem do próximo. Se venerar um santo é coisa boa, seguir seus exemplos é coisa melhor, pois é para isso que a Igreja os declara santos de forma pública e solene. Assim, mostra-nos que o caminho das bem-aventuranças não é uma utopia, mas é o meio eficaz de nossa vida expressar o firme desejo da felicidade sem fim, no encontro face a face com Deus. Que a docilidade ao Espírito Santo, a exemplo de Maria, se manifeste no nosso sim cotidiano a Deus como obediência da fé.

 

Padre Leonardo Agostini Fernandes

Capelão da Igreja do Divino Espírito Santo do Estácio de Sá-RJ

Docente de Sagrada Escritura do Departamento de Teologia da PUC-Rio

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