A recente aprovação das novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil, durante a 62ª Assembleia dos Bispos, em Aparecida, marca um novo horizonte pastoral para o país. Entre os colaboradores desse processo está o padre Abimar Oliveira de Moraes, presbítero da Arquidiocese do Rio de Janeiro, teólogo e professor do Departamento de Teologia da PUC-Rio, que integrou a Comissão de redação do documento.
Em entrevista ao jornal Testemunho de Fé, padre Abimar reflete sobre a experiência, os desafios enfrentados e os caminhos apontados para a Igreja no Brasil.
Segundo ele, um dos aspectos centrais do processo foi a vivência concreta da sinodalidade, não apenas como tema, mas como método e conteúdo. “A sinodalidade foi o espírito que guiou todos os trabalhos da Comissão. Isso exigiu um amplo processo de escuta, diálogo e discernimento”, afirma. Para o padre Abimar, o grande desafio foi elaborar um texto capaz de contemplar a diversidade das realidades eclesiais do Brasil.
As novas Diretrizes se apresentam como uma recepção criativa do Sínodo sobre a Sinodalidade no contexto brasileiro. Entre seus principais eixos, está o reconhecimento de todo o Povo de Deus como sujeito da missão evangelizadora, sustentado pelos pilares da comunhão, participação e missão.
O documento também propõe três atitudes de conversão — das relações, dos processos e dos vínculos — e indica cinco caminhos prioritários para a ação pastoral: a animação bíblica da pastoral, a iniciação à vida cristã, as pequenas comunidades de discípulos missionários, a liturgia e a piedade popular e o serviço à vida plena para todos.
Padre Abimar foi o único presbítero na Comissão representando uma universidade, o que, segundo ele, trouxe uma responsabilidade específica: “Entendi que, em muitos momentos, esperava-se de mim uma reflexão mais atualizada e a apresentação do debate teológico vigente”.
Ao final da entrevista, o sacerdote dirige uma mensagem aos fiéis e agentes de pastoral, convidando à acolhida das novas Diretrizes como caminho de crescimento e renovação da fé: “Assumir o que as Diretrizes indicam tem grande potencial de consolidar um caminho de crescimento, sustentado pela esperança e por uma renovada profissão de fé em Jesus Cristo”.
Confira a íntegra da entrevista:
Testemunho de Fé (TF) – Para o senhor, como foi a experiência de participar da Comissão de redação das Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil? Como o senhor recebeu o convite para integrar essa Comissão e representar a PUC-Rio e o Departamento de Teologia nesse processo?
Padre Abimar – Tenho profunda gratidão pela confiança depositada em mim pela CNBB. Entendo que esse convívio com o episcopado nacional me engrandece muito. Revivi algo que havia experimentado já na elaboração do Documento 107, sobre a Iniciação à Vida Cristã, em 2017. Contudo, ajudar na elaboração das Diretrizes, por óbvio, é algo ainda maior e exigente. Busquei oferecer em todo o processo o meu melhor humano e eclesial. Ao final, além do sentimento de dever cumprido, sei que ganhei mais do que ofereci. Em 2022, a Comissão iniciou os seus trabalhos. Recebi o convite pela Presidência da CNBB. Como mencionei, eu já havia cooperado na Comissão de composição de outro documento; além disso, faço parte de dois outros organismos técnicos de assessoria teológico-pastoral à CNBB: o Instituto Nacional de Pastoral e o Grupo de Reflexão Bíblico-Catequético.
TF – Durante esses anos de trabalho, quais foram os maiores desafios enfrentados neste trabalho?
Padre Abimar – A sinodalidade não só é o tema norteador das Diretrizes, mas foi também o espírito que guiou todos os trabalhos da Comissão. Isso exigiu, portanto, um amplo processo de escuta, diálogo e discernimento. O texto precisa dar conta das múltiplas realidades que a Igreja Católica encontra no Brasil. Além disso, dois outros fatores impactaram os trabalhos: o primeiro foi o prolongamento do Sínodo sobre a Sinodalidade, querido pelo Papa Francisco. O segundo foi o falecimento do próprio Papa Francisco, que acarretou o cancelamento da Assembleia dos Bispos de 2025.
TF – O fato de ser o único presbítero representante de uma universidade trouxe uma responsabilidade ainda maior?
Padre Abimar – Para mim, sim. Pensar-me como representante de uma parcela tão importante da vida evangelizadora, como é o espaço acadêmico, me guiou o tempo todo. Pois entendi que, em muitos momentos, esperava-se de mim uma reflexão mais atualizada e/ou a apresentação do debate teológico vigente que qualificava, dentre outros, o processo de discernimento para a elaboração do texto.
TF – De que forma a contribuição acadêmica da PUC-Rio e do Departamento de Teologia ajudou na elaboração das novas Diretrizes?
Padre Abimar – A Teologia da PUC-Rio é pioneira em muitas coisas. Trata-se de um dos centros acadêmicos de reflexão teológica mais qualificados que temos no país, realidade que se expressa, por exemplo, nas inúmeras cooperações e assessorias que docentes, discentes e egressos da Teologia da PUC-Rio dão à Igreja no Brasil, em especial à CNBB. Temos, inclusive, muitos bispos que foram alunos e/ou professores em nosso Departamento. Nesse sentido, definiria que a contribuição que a Teologia da PUC-Rio deu às Diretrizes não se restringe à minha participação, mas se amplia e materializa nesse serviço que temos prestado ao episcopado católico no Brasil.
TF – Quais são os principais pontos ou novidades presentes nas novas Diretrizes aprovadas pela Assembleia dos Bispos em Aparecida?
Padre Abimar – As Diretrizes recém-aprovadas querem ser, no Brasil, a recepção criativa das indicações do Sínodo sobre a Sinodalidade, reconhecendo que todo o Povo de Deus é sujeito da missão evangelizadora, em espírito de comunhão, participação e missão. Para que a sinodalidade aconteça, é preciso que cada um e todos os batizados assumam o compromisso com três atitudes de conversão: das relações, dos processos e dos vínculos. As Diretrizes irão apontar também para cinco caminhos prioritários de missão: a animação bíblica da pastoral, a iniciação à vida cristã, as pequenas comunidades de discípulos missionários, a liturgia e a piedade popular e, por fim, o serviço à vida plena para todos.
TF – Que impacto esse documento pode gerar na vida pastoral das dioceses, paróquias e comunidades?
Padre Abimar – O principal impacto que se espera é a renovação do nosso evangelizar, anunciando Jesus Cristo, como Igreja sinodal, sustentada pela Palavra e pelos Sacramentos, em comunidades de discípulos missionários, fiel à evangélica opção preferencial pelos pobres, a caminho da plenitude do Reino de Deus.
TF – Na sua visão, qual deve ser o papel das universidades católicas no fortalecimento da ação evangelizadora da Igreja?
Padre Abimar – Grande é o desafio das universidades católicas. Sabemos que hoje predomina, em muitos espaços, um projeto educativo que não considera a relevância daquilo que denominamos humanismo cristão. Além disso, estamos aprendendo, ainda, a saber educar as gerações nascidas em meio ao contexto digital e tecnológico. Nesse contexto, as universidades católicas precisam propor e apoiar políticas educativas que, ao não dependerem de grupos, mercados ou projetos ideológicos, sejam mais inclusivas, empáticas e transformadoras, como propõe o Pacto Educativo Global querido pelo Papa Francisco.
TF – Que mensagem o senhor deixaria para os fiéis e agentes de pastoral sobre a importância dessas novas Diretrizes para a missão da Igreja no país?
Padre Abimar – Nesta semana, recebemos os primeiros dados presentes em dois instrumentos do Vaticano que apontam que a Igreja Católica cresce quantitativamente, mas, sobretudo, qualitativamente no mundo. Assumir o que as Diretrizes atuais nos indicam tem grande potencial de consolidação de um caminho de crescimento. Nesse sentido, gostaria de convidar todos os católicos leigos, consagrados e ordenados a lerem e acolherem as indicações presentes na busca por uma ação evangelizadora sustentada pela esperança e, antes de tudo, por uma renovada profissão de fé em Jesus Cristo. Neste Ano Jubilar Arquidiocesano, em que celebramos os 450 anos da criação da nossa Prelazia (1575) e os 350 anos da criação da nossa Diocese (1676), que as novas Diretrizes nos ajudem, ainda mais, a sermos um, no Cristo, para que todos sejam um no Reino de Deus.
Andréia Gripp – Jornalista