Ao celebrarmos, em 5 de junho, o Dia Mundial do Meio Ambiente, queremos trazer à memória algumas considerações socioambientais presentes na recente Encíclica Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV. Embora o enfoque seja predominantemente antropológico, teológico e pastoral, voltado para a Doutrina Social da Igreja e os desafios da inteligência artificial, ao longo do texto podemos perceber que as questões sociais estão relacionadas também com a problemática ambiental, sobretudo no que se refere à Casa Comum, mostrando, assim, a inseparabilidade entre o teológico, o antropológico e o cosmológico.
Na introdução (n. 14), ao falar sobre os critérios para o discernimento, o Pontífice nos recorda que a dignidade da pessoa, a destinação universal dos bens, a opção pelos pobres, o cuidado da Casa Comum e a paz são valores fundamentais que devem ser transformados em ações.
No capítulo I, encontramos três referências ao meio ambiente: uma (n. 20) que nos lembra que a Criação traz impressa uma bondade originária que o olhar humano deve guardar, cultivar e fazer amadurecer; outra (n. 43) se refere à Laudato Si’, afirmando que o Papa Francisco propôs uma primeira grande elaboração sistemática da crise ambiental, destacando os aspectos ecológicos da crise socioambiental, a ecologia integral e o cuidado da Casa Comum; uma terceira (n. 45), quando fala que as mudanças históricas, a partir do Evangelho, fizeram emergir diferentes aspectos de um único patrimônio, que inclui a dignidade da pessoa, o valor do trabalho, a destinação universal dos bens, a solidariedade e a subsidiariedade, o cuidado da Casa Comum etc.
No capítulo II, que trata dos fundamentos e princípios da Doutrina Social da Igreja, vamos encontrar cinco referências às questões socioambientais. A primeira (n. 65), quando fala do princípio da destinação universal dos bens, apresenta os bens da terra: solo, água, ar, recursos naturais, bens dados por Deus à família humana para sustentar a vida de todos, nos dias de hoje e nas gerações futuras. A segunda (n. 76), no que se refere ao princípio da solidariedade, o Papa afirma que hoje a responsabilidade se estende tanto às infraestruturas digitais e informáticas quanto ao ambiente natural. A terceira (n. 81), ao se referir ao princípio da justiça social, o Pontífice nos lembra das causas profundas que forçam a migração, incluindo as relacionadas com as injustiças econômicas e a crise climática. A quarta (n. 83), ao tratar do desenvolvimento humano integral, o Papa nos lembra que este não se reduz ao âmbito econômico, mas promove a qualidade de vida, a diversidade dos povos, o respeito pela Casa Comum etc. A quinta (n. 84), também dentro do desenvolvimento humano integral, o Pontífice nos lembra que hoje há critérios decisivos de avaliação na ecologia integral, pois esta passou a ser uma dimensão imprescindível na Doutrina Social da Igreja. A qualidade do desenvolvimento mede-se pela capacidade de manter juntas, sem separar, a justiça para com as pessoas, a salvaguarda da Casa Comum e o cuidado da Criação. Não é um verdadeiro progresso aquele que aumenta o bem-estar de alguns, degradando os ecossistemas e descarregando os custos nas comunidades mais vulneráveis.
No capítulo III, que fala sobre a grandeza da pessoa humana perante a promessa da inteligência artificial, encontramos seis referências à temática socioambiental. Quando fala que as inovações tecnológicas podem se tornar uma grande ajuda para o desenvolvimento humano integral e para o cuidado da nossa Casa Comum (n. 93). Ao se referir aos impactos da inteligência artificial no meio ambiente, alguns aspectos são enfatizados, como o grande consumo de energia e água, as emissões de dióxido de carbono e o consumo intensivo de recursos. O Papa recorda que o essencial seria desenvolver soluções tecnológicas mais sustentáveis para reduzir o impacto ambiental e cuidar da Casa Comum (n. 101). Hoje, a tarefa não é apenas ética ou técnica, mas também ecológica, pois envolve uma dimensão da nossa Casa Comum (n. 110). O Papa usa, no número 113, uma metáfora do desequilíbrio ambiental quando afirma: “A harmonia rompe-se quando uma única espécie se prolifera em detrimento de outras”. Assim, a inteligência artificial, quando absolutizada, acaba obscurecendo outras dimensões essenciais da vida. Ao falar das conquistas e retrocessos (n. 123), ele nos lembra os processos de paz interrompidos e os compromissos ambientais aplicados com lentidão. Finalmente, afirma que a inteligência criativa do ser humano é um dom e que deve estar orientada para o bem comum, a justiça, o cuidado dos mais frágeis e a Criação (n. 129).
No capítulo IV, ao tratar de salvaguardar o humano na transformação, verdade, trabalho e liberdade, o Papa reforça algo que está acontecendo, ou seja, multiplicam-se os conhecimentos fragmentados, mas torna-se difícil captar a realidade no seu todo, reconhecendo, assim, a importância de uma visão mais integradora das coisas (n. 146). No capítulo V, ao abordar a cultura do poder e a civilização do amor, o Pontífice nos recorda o papel fundamental das organizações internacionais, a exemplo da ONU, como instrumentos essenciais no diálogo entre as nações, na promoção da paz e no cuidado da Criação etc. (n. 226).
Na conclusão, aparece tanto o princípio de que, em Cristo, o homem é chamado a ser colaborador na obra da Criação (n. 233), como também uma afirmação do Papa Francisco na Laudato Si’: “O ser humano como criatura inserida numa teia de relação com os outros seres vivos e com toda a Criação” (n. 237).
Ao ler a Encíclica Magnifica Humanitas dentro de uma visão sistêmica, onde o ser humano só se compreende na sua relação com Deus, com os outros e com a natureza, cremos que, além da importância atual das questões relacionadas com a inteligência artificial, algumas temáticas socioambientais não devem ser esquecidas, segundo nos exortam as últimas encíclicas e exortações apostólicas da Igreja.
Se, na educação e na escola, preocupa-nos o fascínio exagerado pela racionalidade tecnológica e os valores negativos da inteligência artificial, tão bem explicitados pelo Papa, também não devemos esquecer que as mudanças de hábitos e a sustentabilidade, nas quais as escolas têm um papel importante, estão relacionadas ao cuidado com a Casa Comum e toda a Criação. Como nos recorda a Laudato Si’ (n. 215): “A educação será ineficaz e seus esforços estéreis, se não se preocupar também em difundir um novo modelo relativo ao ser humano, à vida, à sociedade e à relação com a natureza”.
Se as guerras hoje utilizam novas e sofisticadas tecnologias, que podem provocar perdas e estragos na vida das pessoas e nas sociedades, também não podemos ignorar que elas são responsáveis pela destruição dos biomas e ecossistemas, trazendo consequências negativas para todos, alterando o clima e outras dinâmicas naturais da Casa Comum. Recordemos a mensagem que recentemente o Papa Leão XIV divulgou em 02/06/2026 para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação: “Num mundo onde os mais frágeis são os primeiros a sofrer os efeitos devastadores das mudanças climáticas, do desmatamento e da poluição, cuidar da criação torna-se uma questão de fé e de humanidade”.
Se hoje corremos o risco de uma nova forma de escravatura digital, o mesmo ocorre com a Criação, que continua a gemer pelas perdas, rupturas e escravidão, esperando a libertação tão sonhada (Romanos 8,22-24). Se, dentro de uma nova cultura do amor, capaz de superar os ódios e as violências, os valores humanos fundamentais devem estar associados a um novo reencantamento com a Criação, pois este deve fazer parte de uma cultura amorosa que permite ver a presença de Deus em todas as coisas criadas. Finalmente, os critérios precisos para o discernimento, apoiados nos valores da Doutrina Social da Igreja, devem incluir também hoje todas as formas de direitos, tanto os direitos humanos como os demais direitos relacionados às demais criaturas.
Que esta nova Encíclica, Magnifica Humanitas, possa nos ajudar a valorizar o que temos de grandeza, superando as nossas fragilidades e colaborando para que tenhamos um mundo socialmente mais justo e solidário, e uma Casa Comum ambientalmente mais sustentável.
Padre Josafá Carlos de Siqueira, SJ
Vigário Episcopal para o Meio Ambiente e Sustentabilidade da Arquidiocese do Rio de Janeiro.