A Santa Missa pelo Dies Natalis do Beato Donizetti Tavares de Lima marcou o ápice do Ano Jubilar em Tambaú e convoca a Igreja a renovar a esperança pela canonização de um pastor que nunca abandonou seu povo.
No dia 16 de junho de 2026, o Santuário Nossa Senhora Aparecida do Beato Donizetti, na Praça Padre Donizetti, no coração do bairro Patrimônio, em Tambaú (SP), recebeu uma celebração que vai muito além da memória anual de um falecimento. A Santa Missa organizada pela Diocese de São João da Boa Vista (SP) marca o ápice de um Ano Jubilar extraordinário, e quem lá esteve presente esteve diante de um daqueles momentos em que a história, a fé e a graça se encontram num mesmo ponto. Neste ano completaram-se 100 anos da chegada do padre a Tambaú e 50 da Marcha da Fé, além dos 65 anos de sua partida para a eternidade. Para mim, como filho da Diocese de São João da Boa Vista, que cresci ouvindo falar do Padre Donizetti, foi uma alegria presidir esta Santa Missa jubilar, a convite do venerável irmão no episcopado, Sua Excelência Reverendíssima Dom Eugênio Barbosa Martins, SSS, Bispo Diocesano de São João da Boa Vista, por meio do pároco da Paróquia e reitor do Santuário, padre Reginaldo.
Esta Santa Missa que presidi, com clareza, foi um marco religioso que merece a atenção e a participação de todos os que amam a Igreja no Brasil. Estamos dentro da Semana do Padre Donizetti e a caminho do dia da “Marcha da Fé”.
Na tradição da Igreja, o dia da morte de um santo não é chamado de aniversário de morte. É chamado de Dies Natalis, o dia do nascimento para a vida eterna. O dia 16 de junho de 1961 foi, para o Padre Donizetti Tavares de Lima, o dia em que ele deixou de caminhar conosco para começar a interceder por nós. Sessenta e cinco anos se passaram desde aquela tarde. E o povo de Tambaú ainda vem. Ainda reza. Ainda pede. Ainda agradece.
Isso não é saudosismo. É fé. A fé de um povo que aprendeu com Padre Donizetti que Deus é real, que a oração chega, que o amor não tem prazo de validade. Um padre que chegou a esta cidade em 12 de junho de 1926, há exatamente cem anos, e que, em três décadas de ministério, construiu algo que nenhuma obra física consegue construir: um vínculo entre o povo e Deus que o tempo não desfaz.
O Ano Jubilar do Beato Donizetti, instituído pela Diocese de São João da Boa Vista, não nasceu de uma conveniência de calendário. Nasceu da convergência de três realidades que, juntas, revelam a profundidade do que Padre Donizetti representa para esta região e para toda a Igreja no Brasil.
O primeiro marco é o centenário da chegada a Tambaú. Em 12 de junho de 1926, um padre mineiro, que estava no interior paulista, assumia a paróquia de Tambaú sem imaginar o que aquela decisão significaria para a história da cidade. Cem anos depois, aquele gesto de obediência e disponibilidade é celebrado como o início de uma história de santidade.
O segundo marco é o Dies Natalis de 65 anos, celebrado precisamente neste 16 de junho. Não é um número redondo, mas tem seu próprio peso. Sessenta e cinco anos de intercessão. Sessenta e cinco anos de graças relatadas, de curas, de conversões, de famílias recompostas, de corações que encontraram paz. A beatificação, da qual estive presente, em 5 de outubro de 2019, na abençoada cidade de Tambaú, foi o reconhecimento oficial da Igreja daquilo que o povo já vivia há décadas.
O terceiro marco é o cinquentenário da Marcha da Fé, que, em 21 de junho, celebra seus cinquenta anos. Meio século de romaria. Meio século de pés que caminham em direção a Tambaú carregando pedidos, promessas e gratidão. Essa marcha é um dos sinais mais eloquentes de que a devoção ao Beato Donizetti não é um fenômeno passageiro. É uma corrente espiritual viva, que cresce a cada geração.
A Santa Missa desta noite utilizou a Liturgia Própria do Beato, com leituras aprovadas pelo Vaticano especificamente para refletir a vida e a missão de Padre Donizetti. E as leituras escolhidas formam um conjunto de rara beleza teológica.
O profeta Ezequiel (Ez 34,11-16) apresenta Deus como aquele que vai pessoalmente buscar suas ovelhas, resgatar as perdidas, curar as feridas, fortalecer as fracas. É o retrato do pastor que não espera ser procurado, que sai ao encontro. Padre Donizetti viveu esse texto. Visitava os leprosos quando ninguém os visitava. Abria a porta da casa paroquial a qualquer hora. Não distinguia entre o devoto fiel e o que aparecia pela primeira vez. Para ele, toda pessoa era uma ovelha que merecia cuidado.
O Salmo 22, “O Senhor é o meu pastor, nada me faltará”, é a oração de quem aprendeu, pela experiência, que a providência de Deus é real. Padre Donizetti não pregava essa confiança apenas com palavras. Pregava com a vida. E o povo que o viu de perto aprendeu, ao observá-lo, que era possível confiar.
O Evangelho de João (Jo 10,11-16) traz a voz do próprio Jesus: “Eu sou o Bom Pastor. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas.” A diferença entre o bom pastor e o mercenário não está na competência. Está no amor. Está no grau de envolvimento. Está em quanto a vida do outro importa para você. Padre Donizetti importou-se. E essa importância se provou não em discursos, mas em escolhas concretas, dia após dia, por trinta e cinco anos de ministério em Tambaú.
O momento mais aguardado da celebração desta noite foi a entrada solene da imagem do Beato Donizetti, seguida da oração pela sua canonização. Esse gesto tem um significado que vai além do protocolo litúrgico. É o povo de Deus dizendo, em voz alta e unida, que acredita na santidade deste homem e que pede à Igreja o reconhecimento definitivo.
A canonização é o passo que vem após a beatificação. Requer, em geral, o reconhecimento de um novo milagre atribuído à intercessão do beato após a sua beatificação. A oração do povo fiel não é um procedimento burocrático. É parte do processo. É a Igreja orante dizendo ao Espírito Santo: “Estamos atentos. Estamos pedindo. Estamos prontos para receber.”
Que essa oração suba desta noite de Tambaú para o céu com toda a força de um povo que conhece, pela experiência vivida, o que significa ter um intercessor dessa qualidade. Somos devotos do Beato Padre Donizetti e confiamos na sua poderosa intercessão junto de Deus!
Mesmo os que não puderem estar em Tambaú na noite do dia 16 de junho podem unir-se espiritualmente a esta celebração. A memória do Beato Donizetti não pertence apenas à Diocese de São João da Boa Vista. Pertence à Igreja no Brasil. Pertence a todos os que acreditam que a santidade é possível no cotidiano, que o amor concreto ao próximo é o caminho mais direto para Deus e que a intercessão dos santos é uma realidade que a fé cristã sempre reconheceu e celebrou.
Que o Beato Donizetti interceda por todos nós. Que sua vida continue sendo um espelho no qual a Igreja se olha e se pergunta: estamos amando assim? Estamos servindo assim? Estamos confiando assim?
E que Nossa Senhora Aparecida, padroeira do belo Santuário de Tambaú e do Brasil inteiro, cubra com seu manto esta celebração, a Diocese de São João da Boa Vista e todos os peregrinos que nesta noite se unem em oração.
Que, do céu, o Beato Padre Donizetti abençoe a todos os que a ele recorrem.
Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.
Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ