Introdução
Pedro e Paulo são apóstolos que representam um grande mistério de conversão e amor a Jesus Cristo e à sua Igreja. Como reza o prefácio da solenidade: “Pedro, o primeiro a confessar a fé em Cristo, fundou a Igreja primitiva sobre a herança de Israel. Paulo, mestre e doutor da fé, iluminou as profundezas do mistério e anunciou o Evangelho a todas as nações.” É por isso que os dois são chamados de colunas da Igreja.
Além dessa solenidade, também são celebrados em outras duas ocasiões. No dia 25 de janeiro: Festa da conversão de São Paulo; e no dia 22 de fevereiro: Festa da Cátedra de São Pedro. Já a hodierna solenidade celebra o martírio desses apóstolos que deram a Roma a primazia entre as Igrejas.
Não me parece certo dizer que Pedro e Paulo representam, respectivamente, as duas faces da Igreja: a instituição em Pedro e a carismática em Paulo. Prefiro pensar que eles refletem a beleza e a grandeza da Igreja que, continuamente, aprende a ser sinal vivo de Jesus Cristo no mundo. Em Pedro e Paulo se descobre o amor a Jesus Cristo no serviço à Igreja que existe para ser “luz do mundo” e “sal da terra” em meio às mais diferentes situações de dores e perseguição. Nestas, se tem a ocasião para se testemunhar a vocação e a missão recebidas de Jesus Cristo. Assim, se percebe que a fé nasce e se difunde pelo testemunho eloquente que esses dois apóstolos possuem e nos ensinam a imitar.
1) Texto [evangelista]; [Jesus]; [discípulos]; [Pedro]
13Indo, pois, Jesus para as partes de Cesareia de Filipe, perguntou aos discípulos dele, dizendo: “Quem os homens dizem ser o Filho do Homem?” 14Eles disseram: “Alguns [dizem] João, o Batista, outros porém Elias, e outros Jeremias ou um dos profetas”. 15Disse-lhes: “Vós, porém, quem dizeis que eu sou?” 16Simão Pedro, respondendo, disse-lhe: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo!”. 17Jesus, respondendo, disse-lhe: “Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas, porque carne e sangue isso não te revelou, mas meu Pai, o [que está] nos céus. 18E eu também te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do hades não prevalecerão contra ela.”
2) O que diz o texto?
Se o texto for comparado a Mc 8,27-30 e Lc 9,18-21 notam-se dissemelhanças significativas nas falas de Jesus, dos discípulos e de Pedro. A referência ao lugar, “Cesareia de Filipe”, indica que Jesus e seus discípulos se encontravam na região setentrional da Galileia. Era uma localidade dominada pelo Tetrarca Filipe e estava próxima do monte Hermon, onde brota uma das três nascentes que originam o rio Jordão (Hasbani, Banias e Dã). Nesse local, existiam vários santuários dedicados a deuses pagãos, como “Pan” (divindade grega); Baal (divindade cananeia), bem como, mais tarde, um imponente santuário foi edificado para o culto ao imperador Augusto e à deusa Roma.
A pergunta que Jesus dirigiu aos discípulos não tinha fins especulativos, mas dependendo da resposta, podia verificar se pelo exercício do seu ministério, por palavras e ações, as pessoas teriam conseguido perceber e intuir a sua identidade. Pelo comportamento de Jesus (agir) se podia chegar ao conhecimento da sua divina Pessoa (ser), pois o agir segue o ser (agere sequitur esse).
A resposta obtida, em forma coletiva, mostrou que as pessoas só conseguiam ver em Jesus as características proféticas. Os três citados por nome, João, o Batista, Elias e Jeremias, possuíam traços comuns: atuaram como defensores da verdade sobre Deus e sobre o seu projeto salvífico para o povo. Foram homens que não temeram enfrentar as lideranças corruptas em favor da fé em Deus.
Contudo, tal resposta revelou para Jesus a limitação no alcance da percepção e compreensão das pessoas em relação à sua identidade e missão. A citação de Elias, ao centro, poderia ser uma alusão antecipada ao mistério da ascensão de Jesus, mas, de igual modo, podia ser um modo de evocar a esperança do povo pautada no final da profecia de Malaquias 3,23-24.
Diante disso, Jesus redirecionou a pergunta para os seus discípulos porque, à diferença das pessoas, eram os mais próximos, conviviam mais tempo com ele e foram testemunhas diretas de suas palavras e ações. A resposta não veio de forma coletiva, mas Simão Pedro, em nome de todos, disse que Jesus era o Messias (“Cristo”), indicando a qualidade da missão, e “Filho do Deus vivo”, indicando o que diferenciava Jesus das divindades que eram cultuadas nos arredores daquele local.
A identidade e a missão, devidamente declaradas por Simão Pedro, deram a Jesus a ocasião de revelar que Deus, o Pai, falou por meio de Pedro. Este se torna profeta de um conhecimento que não é fruto da percepção e do saber meramente humanos. Fica clara a distinção entre a resposta que veio do povo, pelos lábios dos discípulos, e a resposta que veio pelos lábios de Simão Pedro.
Por isso, Jesus falou da origem da resposta e seu significado: A escolha da primazia dada a Pedro; a fundação da Igreja sobre a verdade que brotou nos lábios de seus lábios: “Tu és o Cristo, o Filho do Deus vivo”. Segundo Santo Agostinho, essa verdade, proferida por Pedro, é a Pedra. Por ser o Filho de Deus, as portas da mansão dos mortos, sheol para os judeus e hades para os gentios, não poderão reter Jesus e tampouco terão forças para derrotar a obra que inaugurou e que consolidará no mistério pascal, em Jerusalém: A Igreja passará a viver dos Sacramentos, sinais que tornam Jesus Cristo vivo ao longo dos séculos, até que retorne no fim dos tempos para julgar os vivos e os mortos como justo juiz.
3) Que propostas o texto faz ao leitor?
Por que afirmamos Jesus “o Cristo”? Essa palavra não é sobrenome de Jesus, mas é a tradução do hebraico “Messias” que significa “ungido”. No antigo Israel, eram ungidos os reis, os sacerdotes e alguns profetas. A unção era feita em função da missão que recebiam.
Os reis eram ungidos para governar o povo na justiça e, assim, promover a paz social, elemento fundamental para manter as condições necessárias da unidade do povo, segundo os desígnios de Deus. O rei, no antigo Israel, era um sinal da presença de Deus e da sua justiça em ação no mundo.
Os sacerdotes eram ungidos para marcar a sua entrada no exercício do ofício sagrado, pelo qual, por meio de sacrifícios cruentos e incruentos, apresentavam a Deus a vida do povo e suas necessidades, mas, acima disso, para mantê-lo na santidade do próprio Deus (Lv 19,2).
Os profetas também aparecem ungidos em função do serviço, dedicação e fidelidade à Palavra de Deus pela qual, continuamente, chamavam o povo à conversão e ao arrependimento, mas também procuravam ajudá-lo na busca e na prática da justiça familiar, social e religiosa.
Como temos vivido a nossa identidade e missão cristã pelo tríplice múnus recebido no Batismo?
Ao lado da centralidade de Jesus, notamos a pessoa de Simão Pedro, que fala em nome dos demais, movidos pela revelação vinda do próprio “Pai que está nos céus”. O que Jesus prometeu a Simão Pedro não vem de algum mérito humano, mas da resposta divina em seus lábios.
Então, que significa, para nós, confessar que Jesus é o Messias, isto é, o Cristo?
Ao dizer que Jesus é o Cristo, Simão Pedro manifesta uma esperança histórica que tem a sua origem em Deus e nas suas promessas. Na época, Pedro e os demais esperavam a realização dessa esperança e viram em Jesus os sinais claros de que o momento havia chegado. Contudo, embora Jesus tenha acolhido a confissão de Simão Pedro, mostra que é o Messias adequado não para realizar a vontade e as expectativas humanas, mas a vontade de Deus como Servo Sofredor. Aceitamos isto?
Jesus é “o Cristo, o Filho do Deus vivo” que possui e confere a verdadeira autoridade. Fez da resposta de Simão Pedro uma pedra sólida sobre a qual edifica não uma casa-dinastia – como a que fora prometida ao rei Davi (2Sm 7,1-17), e que foi submetida ao jugo de povos mais fortes, como os assírios, os babilônios, os persas, os gregos e, na época, os romanos –, mas a sua comunidade de fé inabalável em seus alicerces, pois afunda as suas bases na verdade proferida por Simão Pedro.
Como procuro viver a fé em Jesus, confessando que é “o Cristo” e o “Filho do Deus vivo”?
4) O que o texto nos faz dizer a Deus em oração?
Ó Deus e Pai de Nosso Senhor Jesus, o ungido pelo Espírito Santo, nos aproximamos de ti com o coração humilde e repleto de gratidão. Diante da pergunta feita por Jesus aos discípulos, nós também desejamos ser capazes de reconhecer e proclamar a sua verdadeira identidade: “o Cristo e Filho do Deus vivo”, assumindo a revelação que dignaste colocar nos lábios de Simão Pedro.
Senhor, ajuda-nos a compreender que esta verdade não é fruto da sabedoria humana, mas sim um dom para que toda a humanidade creia, espere e ame a tua proposta que salva e reconcilia. Abre os nossos corações e mentes para que possamos reconhecer Jesus como o Messias, o Salvador que enviaste para nos redimir e nos devolver a liberdade de filhos.
Assim como Jesus edificou a sua Igreja sobre a Pedra, que é a Verdade brotada nos lábios de Simão Pedro, pedimos que fortaleças a nossa fé e nos faças pedras vivas na construção do teu Reino visível, a Igreja que, no mundo, é chamada a ser um farol de esperança e verdade, armas que inibem as forças do mal dentro e fora dela.
Concede-nos a graça de vivermos em comunhão com nossos irmãos e irmãs na fé. Guiados pelo Espírito Santo, possamos testemunhar o teu amor e a tua misericórdia para todas as pessoas. Que a nossa vida seja um reflexo da fé que professamos, e que possamos sempre glorificar, por palavras e ações, o teu Santo Nome, sem nunca duvidar das palavras de Jesus. Tu que és Deus Uno e Trino, que vives e reinas pelos séculos dos séculos. Amém.
5) Que decisões o texto nos leva a tomar?
A confissão de Simão Pedro é modelar para todos os fiéis. Por meio dela se reconhece o que é fundamental na vida cristã: Jesus é o Messias e Filho de Deus. Isso implica em aceitar e aderir aos seus ensinamentos, seguir seu mandamento do amor e confiar em sua promessa de vida eterna.
Jesus, ao declarar que edificará a sua Igreja sobre a confissão de Pedro, nos leva a participar da vida da Igreja, contribuindo com nossos dons e talentos para a construção do Reino de Deus.
Ao afirmar que as portas do hades não prevalecerão contra a Igreja, Jesus nos encoraja a confiar sempre na proteção de Deus em meio às dificuldades e desafios da vida, sabendo que a solidez dela está na verdade professada e na presença real de Jesus Cristo até a consumação dos tempos.
Firmes nessa verdade, somos levados a tomar decisões fundamentadas na fé em Jesus Cristo e a participar da vida da Igreja, certos de poder contar com a sua presença e a ação constantes, unidos a Ele pela responsabilidade e pelo compromisso de viver como seus autênticos discípulos.
6) Relações de Mt 16,13-19 com At 12,1-11; Sl 33(34), 2Tm 4,6-8.17-18
O trecho de Atos e da 2Timóteo não apresentam glórias humanas de Pedro e Paulo, por serem seguidores de Jesus Cristo, mas falam das consequências da opção que fizeram por Ele e pelo seu Evangelho. A comparação entre os dois é clara, pois eles têm em comum a perseguição, a prisão e a morte por causa da fé que professaram. Nos dois casos fala-se da libertação do inimigo. Pedro e Paulo concretizam na própria vida o que significa confessar Jesus “o Cristo e Filho do Deus vivo”.
Por amor a Jesus Cristo e à sua Igreja, em Pedro e Paulo se encontram um claro exemplo que realiza as bem-aventuranças, mas também mostra porque as portas do hades não prevalecem contra ela. Ap 1,18 afirma que nas mãos de Jesus estão as chaves da morte e do hades. É Jesus quem possui as chaves de Davi que abre o que ninguém fecha, e que fecha o que ninguém pode abrir (Ap 3,7).
O refrão do Sl 33, “De todos os temores me livrou o Senhor Deus”, une as leituras e ecoa a oração confiante nos lábios de Pedro e Paulo que, pelo martírio, seguiram Jesus Cristo de forma incondicional.
Considerações Finais
A profissão de fé de Simão Pedro é o fundamento da comunidade de fé e da identidade de todo discípulo. Nesta declaração, descobre-se que a Igreja e sua hierarquia não nascem da vontade humana, mas da revelação do próprio Deus. No testemunho de Pedro e Paulo, vemos a fé encarnada em missão, serviço e martírio. Eles mostram que proclamar Jesus como Cristo e Filho de Deus é, antes de tudo, viver em comunhão, resistir ao mal com fidelidade e viver da esperança que não decepciona. A pergunta de Jesus permanece atual e provoca a Igreja e cada fiel, de todos os tempos e lugares, a uma resposta sincera, concreta e que se traduza em vida comprometida com os valores do Evangelho.
Pe. Leonardo Agostini
Capelão da Igreja do Divino Espírito Santo do Estácio de Sá/RJ
Docente de Sagrada Escritura do Departamento de Teologia da PUR-Rio