Cem anos de bondade: a vida de Dom Heitor de Araújo Sales

Uma reflexão sobre o centenário do pastor que ajudou a nascer a Campanha da Fraternidade

 

Uma alegria imensa toma conta do meu coração ao celebrar, com toda a Igreja no Brasil, particularmente com a Diocese de Caicó e a Arquidiocese de Natal (RN), os cem anos de vida de S. E. R. Dom Heitor de Araújo Sales, Arcebispo Emérito de Natal. Nascido em São José de Mipibu, no Rio Grande do Norte, em 29 de julho de 1926, Dom Heitor completa um século de existência dedicada inteiramente a Deus e ao seu povo. Como bem disse o atual Arcebispo de Natal, Dom João Santos Cardoso, celebramos hoje “a grandeza da bondade”.

Um pastor formado na simplicidade do Nordeste

Dom Heitor pertence a uma geração de bispos brasileiros que souberam unir profundidade espiritual e ação concreta em favor dos mais pobres. Foi bispo da Diocese de Caicó entre 1978 e 1993 e, depois, arcebispo de Natal, de 1993 a 2003, governando com a serenidade e a delicadeza que sempre marcaram sua presença. Quem conviveu com ele destaca sua capacidade de acolher, sua discrição e a leveza de uma liderança que uniu, aproximou e construiu comunhão, virtude tão preciosa em tempos de divisões e de pressa como os nossos.

O irmão que semeou a Campanha da Fraternidade

Há, na trajetória de Dom Heitor, um episódio que merece destaque especial e que ilustra bem como Deus se serve dos gestos mais simples para gerar frutos duradouros. Ainda como padre, ele teve a oportunidade de viajar à Alemanha durante o tempo da Quaresma e conheceu de perto as campanhas solidárias promovidas pela instituição católica alemã Misereor. Voltando ao Brasil, no início da década de 1960, apresentou ao seu irmão, Dom Eugenio de Araújo Sales, então Administrador Apostólico de Natal, uma proposta simples: que os sacrifícios quaresmais dos fiéis fossem transformados em ajuda concreta para as famílias que sofriam com a fome na região de Nísia Floresta.

Dom Eugenio acolheu a ideia e promoveu a primeira coleta no Domingo de Ramos de 1962. No ano seguinte, dezenove dioceses do Regional Nordeste 2 assumiram a experiência e, em 1964, todo o episcopado brasileiro a adotou nacionalmente. Nascia, assim, a Campanha da Fraternidade, hoje um dos maiores instrumentos de evangelização e solidariedade da Igreja no Brasil, responsável por alcançar milhões de vidas e transformar realidades ao longo de mais de sessenta anos.

Vejam, queridos irmãos, como Deus trabalha. Uma viagem, uma observação atenta, um diálogo fraterno entre dois irmãos, e dali nasceu algo que continua vivo até hoje, em cada paróquia do Brasil, todos os anos, no tempo da Quaresma. É a Providência Divina que se serve da disponibilidade dos seus servos, como lemos em Rm 1,5-6, onde São Paulo nos recorda que fomos chamados para o apostolado, cada um à sua maneira, no lugar e no tempo que Deus determina.

Uma vida que ensina no dia a dia do Brasil

O centenário de Dom Heitor não é apenas uma data para arquivos eclesiásticos. É um convite prático para todos nós, gestores, pais de família, trabalhadores e líderes de equipe, que vivemos a correria das grandes cidades brasileiras. Ele nos ensina que a santidade se manifesta na delicadeza, na escuta paciente, na palavra prudente, na alegria compartilhada e na caridade vivida no cotidiano, como escreveu, com propriedade, Dom João Santos Cardoso.

Quantas vezes, em nossas rotinas de trabalho, somos tentados pela pressa, pela dureza no trato com colegas e subordinados, pela polarização de opiniões que fragmenta equipes e famílias. Dom Heitor nos mostra outro caminho: o de uma liderança que constrói comunhão em vez de dividir, que observa a realidade com atenção, como fez na Alemanha, e que age com criatividade e fraternidade diante das necessidades concretas das pessoas.

Uma bondade que se faz caridade organizada

A história da Campanha da Fraternidade, que Dom Heitor ajudou a plantar, nos ensina, ainda, que a caridade cristã precisa se organizar para ser eficaz. Não basta a boa intenção isolada. É preciso estrutura, continuidade, parceria entre dioceses, entre irmãos na fé e entre instituições. Isso vale também para nossas instituições filantrópicas de saúde, para nossos setores de comunicação, que buscam anunciar o bem, e para cada equipe que deseja transformar boas intenções em resultados concretos que cheguem aos mais necessitados.

Gratidão e bênção

Particularmente, estive presente na Missa em ação de graças pelo centenário do ilustre prelado, porque sou sucessor de seu irmão, o amado e sempre lembrado Cardeal Dom Eugenio de Araújo Sales. A Igreja do Rio de Janeiro, que por mais de trinta anos teve a segura liderança do Cardeal Sales, manifesta publicamente sua gratidão pelo testemunho cristão e solidário da família Araújo Sales.

Ao celebrarmos os cem anos de Dom Heitor de Araújo Sales, elevamos ao Senhor um cântico de gratidão pela vida deste pastor zeloso, administrador competente e intelectual brilhante, que fez da bondade seu verdadeiro estilo de vida. Peço a intercessão de Nossa Senhora, que ele sempre honrou em seu ministério, para que continue a proteger sua saúde nesta idade avançada e para que sua vida continue sendo, para todos nós, um testemunho vivo de que perseverança, unidade e caridade simples são capazes de gerar frutos que atravessam gerações.

Que o exemplo de Dom Heitor nos inspire a sermos, cada um em seu lugar de trabalho e de convivência, sementes de bondade que geram frutos duradouros para o Brasil.

 

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

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