Médicos, estudantes de Medicina e profissionais da área da saúde de diferentes partes do mundo estiveram reunidos em Brasília (DF), entre os dias 30 de julho e 1º de agosto, para o XXVII Congresso Mundial de Médicos Católicos (FIAMC World Congress) e o VI Congresso Brasileiro de Médicos Católicos. Realizado na Casa de Encontros Dom Luciano Mendes de Almeida, o encontro constituiu um marco para a medicina católica, ao promover o diálogo entre ciência, fé, ética e os desafios impostos pelas transformações tecnológicas à prática médica contemporânea.
Promovido pela Associação Brasileira de Médicos Católicos (ABMC), em conjunto com a Federação Internacional das Associações Médicas Católicas (FIAMC) e outras entidades, o congresso teve como tema “Médicos Católicos entre as revoluções industrial e digital” e como lema “Médicos com alma e ciência com consciência”. A edição teve significado especial por marcar a realização do Congresso Mundial da FIAMC no Brasil.
Ao todo, 336 participantes dos cinco continentes e de todas as regiões brasileiras estiveram presentes, segundo o médico cardiologista e professor Pedro Pimenta de Mello Spineti, integrante e coordenador da comissão organizadora. A diversidade de origens permitiu o intercâmbio de experiências sobre a realidade da medicina e das associações de médicos católicos em diferentes contextos sociais e culturais.
Representantes dos Estados Unidos, Chile, Paraguai, Itália, Portugal, Eslovênia, Eslováquia, Croácia, Coreia, Hong Kong, Austrália, Suíça e Tanzânia estiveram entre os participantes estrangeiros. Para Pedro Spineti, a avaliação do encontro foi especialmente positiva tanto pela organização quanto pela programação científica e formativa.
“O evento foi muito proveitoso. Recebemos muitos elogios, não só em relação à organização, mas também à programação. A oportunidade de intercâmbio com colegas do mundo inteiro e de troca de experiências com colegas de outros estados foi bastante rica”, afirmou.
Um dos aspectos que mais chamaram a atenção foi a expressiva participação de jovens médicos e estudantes de Medicina. De acordo com Pedro Spineti, essa presença demonstrou a vitalidade das associações e despertou a atenção dos participantes de outros países, especialmente dos europeus.
“Um grande destaque foi a presença de jovens médicos e estudantes de Medicina. É um alento, porque mostra o interesse desses colegas e a vivacidade das associações médicas católicas. Isso foi muito marcante, inclusive para os colegas europeus, que têm uma experiência diferente, com associações cuja média de idade já é mais alta”, explicou.
Presença da Arquidiocese do Rio de Janeiro
A Arquidiocese do Rio de Janeiro esteve representada por uma delegação de 12 participantes. Quatro deles integraram a programação como palestrantes: os médicos Pedro Pimenta de Mello Spineti e Henrique Cal, o bispo auxiliar emérito Dom Antônio Augusto Dias Duarte e o padre Aníbal Gil Lopes.
Cardiologista, professor e presidente da Sociedade de Cardiologia do Estado do Rio de Janeiro (Socerj) para a gestão 2026-2027, Pedro Spineti possui mestrado e doutorado em Cardiologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e atua como docente na Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).
Em sua participação no congresso, Pedro Spineti abordou o tema “Saúde e espiritualidade”, apresentando um panorama histórico da relação entre religião e ciências da saúde. Segundo ele, após um período de maior distanciamento durante a modernidade, especialmente com o Iluminismo e a Revolução Industrial, a partir da década de 1980, o meio acadêmico passou a demonstrar crescente interesse pelo estudo das relações entre espiritualidade e saúde.
“Hoje, a gente começa a observar uma reaproximação e um interesse da academia em estudar as relações entre saúde e espiritualidade, mostrando o papel importante da espiritualidade na saúde e no fortalecimento dos pacientes”, destacou.
O médico ressaltou que a espiritualidade constitui uma dimensão da vida humana e, por isso, deve ser considerada pelos profissionais de saúde, sempre respeitando as necessidades e convicções de cada paciente. Essa atenção pode envolver, por exemplo, o acesso a capelães, ministros religiosos ou aos sacramentos durante períodos de internação.
“Se o paciente indica alguma necessidade de ter um suporte espiritual, de receber a visita de um capelão, os sacramentos durante a internação ou a visita de um ministro religioso, a equipe de saúde pode ajudar nesse sentido”, explicou.
A medicina como vocação
A reflexão sobre a identidade e a missão dos médicos católicos ocupou espaço central na programação. Embora as associações existentes em diferentes países tenham estatutos próprios, Pedro Spineti destacou que elas compartilham princípios comuns, sobretudo a formação da consciência do médico de acordo com valores éticos orientados pelo Magistério da Igreja.
“Um dos principais objetivos é a formação da consciência do médico dentro dos valores éticos, conforme ensinado pelo Magistério da Igreja. Sobretudo, a dignidade da pessoa humana e a necessidade da proteção da vida humana, desde o seu início até o seu final natural”, afirmou.
Outro aspecto é o desenvolvimento da espiritualidade dos profissionais e a compreensão da medicina como vocação. Nessa perspectiva, o exercício profissional ultrapassa a dimensão estritamente técnica e passa a incorporar uma atitude de serviço e cuidado integral com a pessoa enferma.
“É entender a profissão como vocação, como a oportunidade de ver no paciente a própria pessoa de Jesus Cristo, de servir a Deus no enfermo”, acrescentou Pedro Spineti.
Experiências concretas desse serviço foram compartilhadas durante o congresso. Médicos de diferentes países apresentaram iniciativas missionárias e trabalhos realizados junto a populações vulneráveis. Entre as experiências brasileiras, foi apresentado o trabalho do Barco Papa Francisco. Representantes da Mission Doctors Association (MDA), dos Estados Unidos, também relataram experiências de missões médicas realizadas em diferentes regiões do mundo.
A realidade enfrentada pelos profissionais em países onde avançam legislações sobre a eutanásia também esteve entre os assuntos abordados. Os testemunhos evidenciaram desafios éticos e de consciência vivenciados por médicos católicos no exercício da profissão.
Outro momento de destaque contou com a participação do médico Joseph Meaney, formado pela Universidade Católica do Sagrado Coração, em Roma, e ligado à área de Bioética na Conferência Episcopal dos Estados Unidos, que apresentou diretrizes éticas voltadas às instituições católicas de saúde.
Instituições católicas e formação profissional
O papel das instituições católicas de saúde e de ensino também recebeu atenção especial, com duas sessões dedicadas ao tema. As discussões abordaram a contribuição dessas instituições para uma formação que articule excelência científica, princípios éticos e dimensão espiritual.
Entre as experiências compartilhadas esteve a de um cardiologista e ex-presidente da Sociedade Portuguesa de Cardiologia, que apresentou sua vivência como docente na Universidade Católica Portuguesa e na Universidade Nova de Lisboa. A comparação permitiu refletir sobre a contribuição específica das instituições católicas para a formação ética e humana dos futuros profissionais.
Além das conferências e mesas de debate, o congresso contou com uma sessão destinada à apresentação de trabalhos científicos. Foram submetidos 72 estudos nas áreas de bioética, saúde e espiritualidade e papel social do médico católico. Desse total, 62 foram aprovados e apresentados durante o encontro.
Os melhores trabalhos receberam premiações. O principal reconhecimento internacional foi o Prêmio João XXI, concedido pela Associação dos Médicos Católicos Portugueses em homenagem ao Papa João XXI, único pontífice português e que também era médico. A premiação foi entregue à médica Bruna, autora do trabalho vencedor.
Inteligência artificial e os desafios da medicina
Em sintonia com o tema do congresso, a inteligência artificial (IA) esteve presente de forma transversal nas discussões. A reflexão ganhou relevância diante da publicação, em maio deste ano, da Encíclica Magnifica Humanitas, do Papa Leão XIV, dedicada à salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial. O documento pontifício propõe que o desenvolvimento tecnológico esteja a serviço da dignidade humana, da justiça, da solidariedade e do bem comum.
O próprio tema do congresso estabeleceu uma relação entre dois períodos de profundas transformações: a Revolução Industrial e a atual Revolução Digital. A proposta recordou também o contexto histórico do surgimento das associações médicas católicas, cuja primeira experiência remonta à França, em 1884, durante o pontificado de Leão XIII.
Para Pedro Spineti, a discussão sobre inteligência artificial não se limitou às possibilidades de utilização da tecnologia para a descoberta de tratamentos ou de novas formas de diagnóstico, mas procurou aprofundar as consequências de sua crescente presença na prática médica.
“A IA teve presença de forma transversal. Falamos da onipresença hoje da inteligência artificial, de como incorporá-la à prática médica e dos cuidados que devem ser tomados nesse sentido”, explicou.
Segundo o cardiologista, o desafio está em assegurar que a tecnologia permaneça subordinada ao cuidado com a pessoa.
“É preciso entender que a inteligência artificial é uma tecnologia e, como toda tecnologia, o que vai determinar se ela é boa ou má é o uso que nós vamos dar a ela”, ressaltou.
A reflexão está em consonância com a Magnifica Humanitas, na qual Leão XIV aborda os impactos da inteligência artificial e insiste na necessidade de preservar a centralidade da pessoa humana diante das transformações tecnológicas.
Ciência, fé e espiritualidade
Além da programação científica, a dimensão espiritual acompanhou os três dias do congresso. O encontro começou, na quinta-feira, 30 de julho, com a celebração eucarística presidida pelo arcebispo de Brasília, Cardeal Paulo Cezar Costa. No dia seguinte, os trabalhos também começaram com a Santa Missa, presidida pelo bispo auxiliar de Curitiba (PR), Dom Reginei José Modolo (Dom Zico), bispo referencial para a Associação Brasileira de Médicos Católicos, e concelebrada por Dom Antonio Augusto e por Dom Renzo Pegoraro, presidente da Pontifícia Academia para a Vida, que viajou do Vaticano para participar do congresso.
A missa de encerramento foi presidida por Dom Ricardo Hoepers, secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB).
Os participantes também receberam uma mensagem do Papa Leão XIV, transmitida por meio da Secretaria de Estado do Vaticano, com a bênção apostólica. Segundo Pedro Spineti, a manifestação do Pontífice foi recebida com entusiasmo e reforçou a dimensão eclesial do encontro.
“Recebemos com grande alegria. Saber que estávamos em comunhão com o Sumo Pontífice mostrou que não era um evento isolado da Igreja no Brasil, mas um congresso em conexão com a Federação Internacional de Médicos Católicos e em comunhão com o Santo Padre. Isso nos trouxe uma grande alegria”, afirmou.
Intercâmbio mundial e novos caminhos
O congresso também foi espaço para decisões institucionais da Federação Internacional das Associações Médicas Católicas. Durante o encontro, Jozef Glasa, da Eslováquia, foi eleito novo presidente da FIAMC. Antes da realização do congresso, ele já integrava a estrutura internacional da entidade e fazia parte da Comissão Científica Internacional da edição realizada em Brasília.
Mais do que reunir profissionais em torno de questões científicas, o encontro buscou fortalecer uma visão da medicina na qual conhecimento técnico, responsabilidade ética e atenção integral à pessoa caminhem juntos. As discussões sobre bioética, espiritualidade, inteligência artificial, formação médica, instituições católicas de saúde e experiências missionárias evidenciaram os diferentes campos nos quais os profissionais são chamados a responder aos desafios contemporâneos.
O caráter internacional permitiu ainda confrontar realidades distintas. Enquanto algumas associações enfrentam o envelhecimento de seus membros, outras encontram renovação na participação crescente de estudantes e jovens médicos. Da mesma forma, desafios relacionados à bioética, às legislações nacionais e às transformações tecnológicas assumem características diferentes de acordo com cada país.
A continuidade desse intercâmbio já está prevista. Os congressos mundiais da FIAMC são realizados a cada quatro anos, e a próxima edição deverá acontecer em 2030, em local ainda a ser definido pela Federação Internacional. Já o VII Congresso Brasileiro de Médicos Católicos está previsto para 2028, também com sede a ser escolhida.
“Os congressos mundiais acontecem a cada quatro anos. Então, o próximo será em 2030, em local ainda a ser definido pela Federação Internacional de Médicos Católicos. Já o próximo Congresso Brasileiro será em 2028, e o local deve ser definido em breve”, explicou Pedro Spineti.
Ao reunir diferentes gerações, especialidades e culturas, o XXVII Congresso Mundial e o VI Congresso Brasileiro de Médicos Católicos deixaram como uma de suas principais marcas a busca por uma medicina capaz de acompanhar o avanço científico sem perder de vista a dignidade da pessoa humana. Entre as revoluções industrial e digital, o encontro realizado em Brasília procurou reafirmar justamente o sentido expresso em seu lema: formar e fortalecer “médicos com alma e ciência com consciência”.
Carlos Moioli