Quando a Igreja chama Jesus pelo nome…

Hoje cedo ao rezar as Laudes observei uma delicadeza na Liturgia das Horas que, muitas vezes, passa despercebida aos nossos olhos apressados.

A Igreja sabe que um único nome não basta para acolher Aquele que é o Mistério infinito. Não porque Cristo seja muitos, mas porque a nossa humanidade é pequena demais para contemplar, de uma só vez, a plenitude do Verbo feito carne.

Por isso, ao longo das horas do dia, ela não apenas reza. Ela contempla. Não apenas contempla. Ela recorda. Não apenas recorda. Ela entra, pouco a pouco, no mistério daquele que permanece eternamente inexaurível.

Quando a aurora rompe o silêncio da criação, ela O chama de Sol Nascente. Não é apenas uma imagem poética. É a proclamação de que nenhuma noite possui autoridade definitiva sobre a história. Toda escuridão é provisória quando a Luz verdadeira começa a nascer no horizonte da alma.

Quando o peso do caminho denuncia o cansaço do discípulo, ela O proclama Bom Pastor. Não porque conduza um rebanho numeroso, mas porque conhece cada ovelha pelo nome, percorre os vales mais escuros e jamais se resigna diante de uma única perda. O Pastor não administra pessoas; entrega-Se por elas.

Quando o coração experimenta o exílio de si mesmo, ela O aclama como Caminho, Verdade e Vida. Caminho para quem se perdeu. Verdade para quem foi seduzido pelas inúmeras versões da realidade. Vida para quem continua respirando, mas já não consegue viver por dentro.

Quando a consciência se curva sob o peso do pecado, ela contempla o Cordeiro de Deus. O Cordeiro não elimina apenas a culpa. Ele restaura a comunhão. Não apaga somente a dívida. Reabre o acesso ao Pai. O sangue derramado não fala de derrota; fala da vitória do Amor que preferiu ser ferido a deixar a humanidade definitivamente perdida.

Quando tudo parece fragmentado, a Igreja ergue os olhos e proclama Cristo como Alfa e Ômega. Aquele que precede todas as coisas e para quem todas as coisas convergem. Nele, o princípio encontra o seu sentido. Nele, o fim deixa de ser ameaça para tornar-se plenitude. Nele, até as interrupções da nossa história podem ser transformadas em lugar de graça.

Quando a esperança parece vacilar, ela O canta como Estrela da Manhã. A estrela não é o sol. Ela apenas anuncia que o sol já está chegando. Assim também Cristo faz com a nossa esperança: antes mesmo de remover todas as sombras, faz nascer em nós a certeza de que a luz já venceu.

É por isso que a Liturgia das Horas não acumula títulos como quem coleciona belas expressões. Ela abre janelas para o mesmo Mistério.

Cada nome revela, ilumina,  consola, corrige, converte…

Cada nome nos introduz um pouco mais na insondável riqueza daquele que jamais poderá ser reduzido a um conceito, uma definição ou uma fórmula teológica.

Ele é o Verbo de Deus, porque tudo o que o Pai deseja comunicar encontra n’Ele a sua Palavra definitiva.

Ele é a Luz do Mundo, porque não apenas dissipa as trevas: revela quem realmente somos diante de Deus.

Ele é o Esposo da Igreja, porque a salvação nunca foi um contrato; sempre foi uma história de amor, uma aliança selada por um Coração trespassado.

Ele é o Rei da Glória, porque o seu trono não foi construído pela força, mas elevado sobre o lenho da cruz. A sua realeza não domina. Serve. Não oprime. Lava os pés. Não conquista pela violência. Atrai pela misericórdia.

Quanto mais a Igreja pronuncia os nomes de Jesus, menos ela pretende defini-Lo. Porque quem ama não reduz o Amado a uma explicação; aproxima-se dele por infinitas formas de contemplação.

E, certamente,  esse é um dos grandes segredos da Liturgia das Horas: enquanto o mundo nos acostuma a nomear tudo para dominar, a Igreja nomeia Cristo para adorá-LO.

Enquanto o mundo procura respostas rápidas, a Liturgia ensina a permanecer diante do Mistério.

Enquanto o mundo transforma Deus em conceito, a oração devolve Deus ao lugar que Lhe pertence: o centro da existência, o horizonte da esperança, o repouso da alma.

Compreendemos, assim, que esses nomes não existem para aumentar o nosso vocabulário religioso, mas para transfigurar o nosso coração.

Até que o Bom Pastor nos ensine a cuidar, que o Cordeiro nos ensine a oferecer, que a Luz nos ensine a iluminar, que o Esposo nos ensine a amar, que o Verbo nos ensine a escutar, que o Alfa e Ômega nos ensine a confiar…

E, quando cada um desses nomes tiver encontrado morada em nossa vida, descobriremos que a santidade consiste precisamente nisso: permitir que Cristo, lentamente, dê um novo nome ao nosso coração, para que toda a nossa existência se torne uma liturgia viva, um salmo encarnado e uma oração que nunca termina.

 

Marleno Souza

Discente de Pneumatologia, pesquisador da Teologia do Corpo e fundador do Apostolado Caminho Humano Coração

Diocese de Nova Friburgo-RJ

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