Reentronização da imagem restaurada de São Francisco de Paula é celebrada com concerto de Missa do padroeiro do século XIX

Um encontro singular entre fé, história, arte e preservação do patrimônio integrou, no dia 18 de agosto de 2026, as comemorações pelos 275 anos de fundação da Venerável Ordem Terceira dos Mínimos de São Francisco de Paula, instituição responsável pela histórica Igreja de São Francisco de Paula, situada no Centro do Rio de Janeiro.

Fiéis, religiosos, seminaristas, músicos e pesquisadores tiveram a oportunidade de presenciar a reentronização da imagem restaurada de São Francisco de Paula no altar-mor, em cerimônia presidida pelo arcebispo metropolitano, Cardeal Orani João Tempesta. Em seguida, foi realizado o concerto da Missa de São Francisco de Paula, composta em 1867 por Henrique Alves de Mesquita e cuja partitura permaneceu durante décadas guardada nos arquivos da instituição.

Entre os presentes estavam Dom Hiansen Franco, bispo auxiliar do Rio de Janeiro; Cláudio André Castro, patrocinador; professor Almir Paredes, restaurador; Claudia Nunes, conservadora-restauradora e fiscal do Iphan; professora Márcia Valéria Teixeira Rosa, da Unirio; Renata Pereira Braga, engenheira do BNDES; Deivisson Branco, coordenador de Música Clássica da Funarte; e David Cranmer, pesquisador da Universidade Nova de Lisboa.

A imagem retorna ao altar-mor

A imagem de São Francisco de Paula retornou ao altar principal depois de passar por seis meses de um cuidadoso processo de restauração. Antes da reentronização, a peça permaneceu exposta durante aproximadamente um mês, permitindo que o público pudesse contemplar de perto o resultado do trabalho realizado.

Segundo o padre Álvaro José Assunção Inácio da Silva, comissário administrativo da Venerável Ordem Terceira dos Mínimos de São Francisco de Paula, a restauração possibilitou recuperar características históricas da imagem, incluindo seu aspecto original, o resplendor e o báculo.

“Há um mês, apresentamos aos fiéis a imagem restaurada de São Francisco de Paula, o padroeiro da igreja. Ela demorou seis meses para ser restaurada, retornando ao aspecto original que tinha, também com o resplendor e o báculo originais. Agora, a imagem volta para o lugar dela no altar principal da igreja”, explicou.

Para o sacerdote, o retorno da imagem ao altar está diretamente relacionado à missão de preservar uma história construída ao longo de quase três séculos. A igreja, além de espaço de oração e devoção, constitui um dos importantes patrimônios religiosos, arquitetônicos e culturais do Centro do Rio de Janeiro.

“É uma grande alegria comemorar essa história toda que nos fez chegar até aqui e agradecer às pessoas que ajudam a cuidar desse patrimônio tão bonito, de devoção a São Francisco de Paula e de amor à nossa terra”, afirmou padre Álvaro.

Responsabilidade com o patrimônio

Na cerimônia de reentronização, Dom Orani ressaltou que o momento ultrapassava o simples retorno de uma imagem restaurada ao altar. Para o arcebispo, a celebração recordava a contribuição da igreja e da Venerável Ordem para a história religiosa e cultural do Rio de Janeiro e do Brasil.

“É um momento histórico. Agradecemos muito essa oportunidade e comemoramos o aniversário dos Venerável Ordem Terceira dos Mínimos de São Francisco de Paula com a imagem de São Francisco de Paula restaurada. Agradecemos ao Senhor por aquilo que esse lugar representa para a história do Brasil e também da Igreja, além do exemplo de São Francisco de Paula”, destacou.

O arcebispo relacionou a restauração da imagem à recuperação da Missa de São Francisco de Paula, composta no século XIX pelo carioca Henrique Alves de Mesquita. As duas iniciativas, segundo ele, mostram a importância de conservar o patrimônio recebido das gerações anteriores e transmiti-lo às próximas gerações.

“Os que nos antecederam fundaram a irmandade, a igreja e tantas coisas no passado. Agora compete a nós fazer a nossa parte neste nosso tempo”, afirmou o arcebispo.

Ao destacar a imagem histórica novamente instalada no altar e a composição musical recuperada, o arcebispo chamou a atenção para duas expressões diferentes de um mesmo patrimônio. De um lado, a arte sacra representada pela imagem do santo; de outro, a música criada para a liturgia e preservada em partituras durante mais de um século.

“A imagem histórica de São Francisco de Paula está restaurada. Parabéns aos que a conservaram até hoje e aos que também a restauraram. E, junto com a imagem restaurada, temos também uma obra de arte, uma composição dedicada à Missa de São Francisco de Paula”, ressaltou.

Restauração revela detalhes encobertos pelo tempo

O trabalho de restauração da imagem foi realizado por Elaine Guzmão e Fernando Gonçalves e contou com acompanhamento do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O processo exigiu uma análise detalhada das intervenções realizadas na peça ao longo dos anos.

Segundo Elaine, o levantamento inicial revelou a existência de várias camadas de repintura, tanto nas vestes quanto na base da imagem. A retirada gradual dessas intervenções possibilitou reencontrar elementos decorativos que haviam sido encobertos.

“Quando fizemos o primeiro levantamento, vimos que ela tinha muitas camadas de repintura, não só nas vestes, como também na base e na parte mais baixa. Então, quando fomos retirando todas as camadas, descobrimos o desenho que ela tinha, o douramento que vemos no escapulário, nas bordas e no capuz”, explicou a restauradora.

O trabalho foi acompanhado institucionalmente pelo Iphan, garantindo a salvaguarda da peça durante todas as etapas. A intervenção buscou não apenas melhorar seu estado de conservação, mas recuperar e preservar características históricas que ajudam a compreender a trajetória da imagem e a devoção construída em torno dela.

Uma partitura esquecida em uma gaveta

Se a restauração da imagem permitiu revelar detalhes escondidos por sucessivas camadas de pintura, a recuperação da Missa de São Francisco de Paula começou de maneira igualmente surpreendente: com a abertura de uma gaveta nos arquivos da Irmandade.

Daisy Gil Ketzer, assessora e membro da Comissão de Preservação do Patrimônio Histórico e Cultural da Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro e de seu Interesse, trabalhava na organização de documentos antigos quando encontrou peças de uma partitura datada de 1867. O material correspondia à Missa em honra a São Francisco de Paula, de Henrique Alves de Mesquita.

Diante da descoberta, Daisy procurou o maestro André Cardoso, que foi até a igreja para analisar o documento e reconheceu a relevância da composição.

“Foi um achado importante, porque ninguém da área de música conhecia. Ela era desconhecida. Eu fiquei impressionada. Amo o patrimônio histórico, a memória, e, para amar o patrimônio, você tem que buscar o passado da obra”, afirmou Daisy.

Na época, o então comissário administrativo, padre Silmar Fernandes, autorizou a higienização e a restauração das peças. Depois desse processo, o material seguiu para digitalização e, posteriormente, para edição, permitindo transformar novamente o manuscrito histórico em material que pudesse ser utilizado pelos músicos.

Segundo Daisy, o percurso entre a descoberta e a apresentação pública levou aproximadamente cinco anos. A partitura foi encontrada durante o período da pandemia e precisou passar por diferentes instituições e etapas de tratamento, pesquisa, digitalização, edição e preparação musical.

A descoberta da obra ocorreu em 2020. No ano seguinte, as partituras passaram pelo processo de higienização e restauração no ateliê da restauradora Cristiane Lee. Em 2022, o material foi digitalizado na Escola de Música da UFRJ e, em 2024, as partituras foram editoradas pelo Música Brasilis. Em 2025, a obra foi entregue ao maestro para o início dos ensaios, culminando, em 2026, com sua apresentação ao público.

“Como é uma peça inédita, nenhum músico conhecia. Então, foi preciso ensaiar as vozes, os violinos, tudo. Todo esse processo levou cinco anos”, contou. Para ela, a recuperação da composição e a restauração da imagem mostram a importância de pessoas e instituições comprometidas com a preservação. “Como é bom ter padres sensíveis que valorizam o patrimônio histórico e cultural da Igreja”, acrescentou.

A música do Rio do século XIX

A redescoberta da Missa de São Francisco de Paula também lança luz sobre a trajetória de Henrique Alves de Mesquita, nascido em 1830 e considerado um dos importantes compositores brasileiros do século XIX. Carioca e afrodescendente, o músico teve uma produção que transitou entre a música sacra, a música de salão e as operetas.

Segundo o maestro André Cardoso, violista e regente graduado pela Escola de Música da UFRJ, com mestrado e doutorado em Musicologia pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, o autor recebeu uma bolsa do governo imperial para estudar no Conservatório de Paris. Depois de retornar ao Brasil, tornou-se professor do Conservatório de Música, instituição que, posteriormente, passou a ser o Instituto Nacional de Música e hoje corresponde à Escola de Música da UFRJ.

Sua importância não ficou restrita à música religiosa. Henrique Alves de Mesquita teve participação significativa na vida musical carioca e é apontado como um nome importante na gênese do choro. Também compôs música de salão e operetas que alcançaram grande popularidade no Rio de Janeiro entre o final do século XIX e o início do século XX.

O maestro André Cardoso explica que as transformações culturais ocorridas durante o século XX contribuíram para que parte dessa produção caísse no esquecimento. A música de salão, por exemplo, fazia parte da rotina doméstica de uma cidade na qual era comum encontrar pianos nas residências e familiares dedicados à prática musical.

“O Rio de Janeiro era conhecido como a ‘pianópolis’. Com o advento do rádio, depois da televisão e dos meios de comunicação de massa, as pessoas deixaram de fazer música em casa para ouvir música no rádio e na televisão, e esse repertório acabou ficando esquecido”, explicou.

Fenômeno semelhante ocorreu com as operetas. Segundo o maestro, o Rio possuía teatros dedicados especialmente ao gênero, que misturava partes cantadas e encenadas. Com as mudanças de gosto do público e o desaparecimento desses espaços, muitas obras deixaram de circular. A música sacra também sofreu os efeitos das transformações litúrgicas, culturais e musicais, fazendo com que partituras permanecessem durante décadas guardadas em arquivos.

A Missa retorna ao lugar de sua história

A Missa de São Francisco de Paula foi originalmente concebida para a liturgia e, segundo o maestro André Cardoso, sua primeira execução ocorreu no coro superior da própria igreja, onde está localizado o grande órgão de tubos. Na época, a composição integrava uma celebração litúrgica muito mais longa do que as celebrações atuais. O repertório permaneceu guardado até que o trabalho nos arquivos permitisse sua recuperação.

A Missa apresentada ao público é formada pelo Kyrie e pelo Glória. O maestro explicou que, na tradição musical portuguesa e brasileira, o ordinário da Missa era dividido musicalmente em duas grandes partes. A primeira reunia Kyrie e Glória, enquanto a segunda, denominada Credo, abrangia o próprio Credo e os demais movimentos.

No caso da composição de Henrique Alves de Mesquita, o Glória assume a forma de cantata. O texto é subdividido em diferentes movimentos e utiliza distintas formas musicais, alternando árias para solistas, conjuntos vocais e coro.

“O compositor estruturava a obra de acordo com a própria narrativa dramática do texto”, explicou André. Cerca de dez anos depois, Henrique Alves de Mesquita decidiu completar a composição e escreveu um Credo de São Francisco de Paula. A existência desse material abre a possibilidade de uma futura recuperação para que, eventualmente, a obra possa ser apresentada de maneira ainda mais ampla.

Música recuperada volta a ganhar vida

A recuperação da obra envolveu diferentes instituições e profissionais. O manuscrito localizado na Venerável Ordem passou por procedimentos de preservação, digitalização e edição até chegar às mãos dos intérpretes. Para André Cardoso, porém, o processo somente se completa quando aquilo que permaneceu registrado no papel volta a ser transformado em som.

“O manuscrito, o papel, é só o suporte físico. A música só acontece quando ela é tocada”, sintetizou o maestro.

Padre Álvaro também destacou a importância de a igreja acolher novamente a composição. Segundo ele, o templo tem recebido diferentes eventos musicais e oferece condições privilegiadas tanto pela acústica quanto pelo ambiente histórico e artístico.

“Há muito tempo essa obra, que é a Missa de São Francisco de Paula, não era ouvida. Foi recuperada por um trabalho que começou com o manuscrito, depois digitalizado e transcrito. É uma alegria grande ter a música na igreja. Esta igreja tem recebido muitos eventos musicais, a acústica é muito boa e a beleza também ajuda a inspirar os músicos”, afirmou padre Álvaro.

Fé, arte e memória preservadas para as próximas gerações

A noite de 18 de agosto tornou-se, assim, mais do que uma programação comemorativa. Em torno da figura de São Francisco de Paula, diferentes dimensões do patrimônio da Igreja voltaram a ocupar seus espaços de origem. A imagem restaurada retornou ao altar-mor, enquanto a música escrita em 1867 deixou os arquivos para novamente ecoar no interior da igreja.

O concerto da Missa de São Francisco de Paula teve regência do maestro Victor Cassemiro e reuniu Lígia Ishitani, soprano; Eduardo Barbosa e Rodrigo Barcelos, tenores; e Iago Cirino, barítono. Participaram ainda o Conjunto Sacra Vox, o Coro de Câmara Henrique Alves de Mesquita e o Coro Acadêmico da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

Carlos Moioli

 

 

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