126ª Romaria da Arquidiocese do Rio ao Santuário da Mãe Aparecida

A Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro realiza, no último sábado de agosto de cada ano, a Romaria ao Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida. Neste ano de 2026, a Romaria tem como tema: “Com Maria, missionários da paz e da unidade”. São 126 anos de um caminho que começou pequeno, quase discreto, e que hoje reúne multidões. É bom parar um instante e olhar para trás, não por nostalgia, mas para reconhecer a mão de Deus conduzindo o seu povo através do tempo.

Uma viagem de trem que mudou a história da nossa Igreja

Voltemos a 16 de dezembro de 1900. O Brasil vivia a virada de um século, e a Igreja celebrava o Ano Jubilar da Redenção. Foi então que o então arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Joaquim Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, teve a bela iniciativa de organizar a primeira grande romaria carioca até a Casa da Mãe Aparecida. Quatrocentos fiéis embarcaram em um trem, enfrentando horas de viagem por estradas de ferro que hoje nem existem mais, movidos por uma fé que não conhecia pressa nem comodidade. Não tinham certeza do que encontrariam, mas sabiam exatamente o que buscavam: a bênção de uma Mãe.

Naquela ocasião, Dom Joaquim Arcoverde presenteou o Santuário com um cálice, gesto de gratidão e de aliança entre a nossa Igreja carioca e a Casa da Mãe, que guarda a pequena imagem encontrada nas águas do Rio Paraíba. Esse cálice ficou guardado por décadas no Museu Nossa Senhora Aparecida, quase esquecido pelos olhos, mas nunca pelo coração de quem conhece a nossa história. Há pouco tempo, ele voltou a ser usado no altar, unindo simbolicamente os romeiros de hoje aos peregrinos de outrora. Não é curioso como um simples objeto pode carregar tanta memória de fé?

Daquele primeiro grupo de 400 pessoas aos milhares que hoje enchem ônibus e vans e até caminham a pé rumo ao Vale do Paraíba, o que não mudou foi o motivo da viagem. Vamos até Aparecida pela mesma razão de sempre: agradecer as graças recebidas e implorar aquelas de que ainda precisamos.

Uma ligação que vem de antes mesmo da primeira romaria

É importante lembrar que a relação entre o Rio de Janeiro e Nossa Senhora Aparecida não nasceu apenas com a romaria de 1900. Ela é ainda mais antiga. Foi um bispo carioca que autorizou, na época do encontro da imagem, a construção da primeira capela em honra à Mãe Aparecida, depois que a notícia do encontro da imagem nas águas do Rio Paraíba já havia se espalhado entre os fiéis. Essa é uma tradição que a Arquidiocese carrega quase no sangue, uma ligação que chamo de umbilical entre o nosso povo e essa devoção genuinamente brasileira.

E há um detalhe que enche de honra a nossa Igreja: foi justamente aqui, no Rio de Janeiro, então capital federal do país, que aconteceu a coroação de Nossa Senhora como Rainha do Brasil. Nossa cidade, com todas as suas belezas e também com todos os seus desafios, foi palco de um dos gestos mais significativos da devoção mariana brasileira.

95 anos de uma proclamação que uniu o Brasil aos pés de Maria

Neste ano, celebramos também esta data que se entrelaça com essa história. Em 31 de maio de 1931, Nossa Senhora Aparecida foi solenemente proclamada Padroeira do Brasil, cumprindo o decreto que o Papa Pio XI havia assinado no ano anterior, em 16 de julho de 1930. A cerimônia de proclamação aconteceu no Rio de Janeiro, capital do país naquele momento, reunindo cerca de um milhão de pessoas em torno da imagem da Padroeira. Imaginemos a força de um povo que se une, sem distinção de origem ou condição, diante de uma Mãe que a todos acolhe igualmente. Nossa Senhora Aparecida tornou-se também um sinal nacional de unidade para o nosso país, que caminhava diante de novas realidades.

São, portanto, 95 anos desde que o Brasil inteiro reconheceu oficialmente aquilo que o coração simples do povo já sabia desde 1717, quando a pequena imagem foi encontrada nas águas: que ali estava uma Mãe enviada para cuidar desta nação. E foi em nossa Arquidiocese que esse reconhecimento se tornou público e solene diante de todo o país.

A Palavra de Deus ilumina esse caminho

Quando penso nesses romeiros de 1900 subindo em um trem sem saber exatamente o que encontrariam, recordo as palavras do profeta Samuel, quando disse ao Senhor: “Fala, Senhor, que teu servo escuta” (1Sm 3,10). É essa disponibilidade simples, sem grandes certezas, mas com o coração aberto, que move todo verdadeiro peregrino.

E não posso deixar de lembrar também da própria Maria, que, em sua visita à prima Isabel, proclamou aquele canto que atravessa os séculos: “O Senhor fez em mim maravilhas, porque é grande e poderoso” (Lc 1,46-49). É esse mesmo Deus que fez maravilhas em Aparecida, na simplicidade de uma imagem pequena encontrada por pescadores pobres, e que continua fazendo maravilhas em cada romaria, em cada trem, ônibus ou automóvel que segue até o Vale do Paraíba.

Uma tradição que se renova a cada ano

Ao longo do século XX, a nossa romaria foi crescendo e se transformando. Depois da conclusão da grande Basílica de Aparecida, em 1959, as peregrinações se intensificaram. Já na década de 1970, sob o governo de nosso venerável predecessor, Cardeal Eugenio de Araujo Sales, as romarias oficiais da Arquidiocese passaram a acontecer em data fixa: todos os anos, sempre no último sábado de agosto, com a Oração do Terço, a Santa Missa solene, a Via-Sacra e a procissão pelas ruas da cidade, que muitos de nós já conhecemos e amamos.

Hoje, quase cem mil peregrinos seguem os mesmos passos daqueles primeiros 400 fiéis de 1900. E cada um deles, ao chegar diante da Mãe Aparecida, carrega consigo as mesmas intenções simples de sempre: uma cura desejada, um emprego que falta, um filho que se distanciou da fé, uma gratidão que precisa ser expressa. Não é sobre números, embora eles nos alegrem. É sobre corações que continuam encontrando na Casa da Mãe um lugar de descanso e de força para seguir.

Tempo especial

A 126ª Romaria acontece em um tempo especial, marcado pelo Jubileu dos 450 anos da Prelazia e dos 350 anos da Diocese do Rio de Janeiro. E carrega ainda a memória viva dos 95 anos daquela proclamação que fez de Nossa Senhora Aparecida a Padroeira de todo o Brasil, exatamente aqui, em nossa cidade.

Nossa romaria à Casa da Mãe não é apenas para visitar um santuário ou cumprir uma tradição. Vamos, como Igreja de São Sebastião do Rio de Janeiro, renovar a nossa vocação missionária. Estamos comprometidos com a missão permanente, que recebemos desde os primeiros tempos da evangelização destas terras cariocas e que nos foi confiada como responsabilidade e, também, renovada com alegria como conclusão do II Sínodo Arquidiocesano.

Que cada romeiro, ao voltar para casa após a romaria, retorne fortalecido na esperança e disposto a partilhar aquilo que recebeu. Que a Casa da Mãe continue sendo, para nós, cariocas, um lugar de encontro com o próprio Jesus, seguindo o exemplo de Maria, que, em toda a sua vida, buscou fazer a vontade do Senhor.

Que Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do nosso Brasil, continue abençoando esta tradição mais que centenária e conduzindo o nosso povo, sempre, ao encontro de seu Filho. Que ela nos ajude a viver aquilo que rezo desde o início do meu ministério episcopal: que todos sejamos um, como Ele e o Pai são um (Jo 17,21).

Orani João, Cardeal Tempesta, O. Cist.

Arcebispo Metropolitano de São Sebastião do Rio de Janeiro, RJ

 

 

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