Orígenes: Sedução e irrisão

Orígenes, mestre cristão da interpretação espiritual da Escritura, nasceu em Alexandria por volta do ano 185. Sua preferência pela interpretação alegórica e a influência da filosofia platônica levaram-no a certas polêmicas doutrinais que não diminuem, contudo, o edifício monumental de sua exegese e teologia. Preso e torturado durante a perseguição de Décio, morreu por volta de 253, deixando uma obra de extraordinária fecundidade e profunda influência sobre a tradição cristã.

Na homilia XX das homilias sobre Jeremias, Orígenes comenta esta passagem do livro do profeta: “Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir; foste mais forte, tiveste mais poder. Tornei-me alvo de irrisão o dia inteiro, todos zombam de mim. Todas as vezes que falo, levanto a voz, clamando contra a maldade e invocando calamidades; a palavra do Senhor tornou-se para mim fonte de vergonha e de chacota o dia inteiro. Disse comigo: ‘Não quero mais lembrar-me disso nem falar mais em nome dele’. Senti, então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo: desfaleci, sem forças para suportar” (Jr 20,7-9) (Orígenes. Homilies on Jeremia; Homily on 1 Kings 28. Translated by John Clark Smith. The Father of the Church. Washington: The Catholic University of America Press, 1998, p. 221, tradução do autor).

É este o itinerário espiritual que Orígenes descobre no texto: sedução, irrisão, fogo e glória. Aquele que se deixa seduzir por Deus torna-se motivo de escárnio para os homens; contudo, a irrisão não consegue extinguir a Palavra, que se transforma em fogo no coração do profeta. Finalmente, aquilo que diante dos homens parece vergonha torna-se glória diante de Deus. A exegese de Jeremias transforma-se, assim, numa reflexão sobre a própria condição daquele que recebe, sofre e anuncia a Palavra.

Ainda que perseguidos, somos bem-aventurados: “‘Pois a palavra do Senhor tornou-se para mim fonte de vergonha e de chacota’ (Jr 20,8). Bem-aventurado Jeremias, aquele que não tem outra censura senão a palavra do Senhor. Mas nós, os miseráveis, recebemos injúrias, não por causa da palavra do Senhor, mas por causa dos nossos pecados. Nós somos repreendidos pelo que falhamos, somos insultados por nossos males. Mas o Salvador não quer nos censurar com esse tipo de censura quando diz: ‘Bem-aventurados sois vós quando vos insultarem, perseguirem e falarem toda palavra maligna contra vós por minha causa’ (Mt 5,11). ‘Alegrai-vos nesse dia e saltai de alegria’ (Lc 6,23)” (p. 237).

O sofrimento do profeta diante da Palavra é aterrador: “Deve-se então considerar que os profetas eram homens de bom senso e não como aqueles que escondem seus pecados pessoais como nós o fazemos, e que eles não falam apenas sobre aqueles homens de sua época, mas para os homens de todas as gerações, se pecaram. E também hesito em admitir meus pecados ante os poucos aqui presentes, pois aqueles que os ouvirem me condenarão. Porém, Jeremias, depois de sofrer algo pecaminoso, não teve medo, mas registrou seu pecado. Pois foi um pecado pronunciado no texto: ‘Então eu disse – Jamais citarei o nome do Senhor, e nunca mais falarei o nome dele’. Fostes ensinados a fazer todas as coisas em nome do Senhor (Col 3,17), a agir em nome do Senhor. Mas dissestes que nunca citaríeis o nome do Senhor? Mas que tipo de nome pretendeis nomear? Não mencionareis em vossos corações os nomes de outros deuses (Ex 23,13), e dizeis: nunca nomearei o nome do Senhor e nunca mais falarei em Seu nome. Ele fala como alguém que sofreu algo inevitável para o homem, o que também corremos o risco de sofrer muitas vezes. E especialmente quando alguém percebe que, por causa do ensinamento e da palavra, sofreu, que sofreu e odiou, muitas vezes diz: ‘Vou-me retirar, por que permanecer nestas circunstâncias? Se eu também estiver nessa circunstância de ensinar, de pronunciar a Palavra, por que não deveria eu me retirar para o deserto e para a paz?’ O Profeta também sofreu algo assim quando disse: ‘Não quero mais lembrar-me disso nem falar mais em nome dele’ (Jr 20,9)” (p. 238).

A metáfora do ‘fogo no coração’ passa a exprimir tanto o reconhecimento da origem divina da Palavra como o próprio sofrimento e o amor dos que a ouvem e pregam: “Mas é bom o Senhor que, depois disso, poupa de tais pecados pessoas tão grandes. Ele não permitiu que o Profeta falasse com exatidão quando falou o que precede, mas fez Jeremias invocar a infidelidade e ser infiel no que foi dito, pois este disse: ‘Não quero mais lembrar-me disso nem falar mais em nome dele’ (Jr 20,9). Porém, o profeta continuou: ‘Senti, então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo: desfaleci, sem forças para suportar’ (Jr 20,9). A palavra do Senhor surgiu queimando seu coração: ‘Senti, então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo’. Ele rejeitou o pecado que cometera quando disse: ‘nunca nomearei o nome do Senhor, e nunca mais falarei do seu nome’. E Jeremias rejeitou o pecado naquele momento, no ato de falar. Quisera que eu também, ao mesmo tempo, pecasse e falasse uma palavra pecaminosa, pois sentiria um fogo surgir em meu coração, a queimar e a arder tanto que não aguentaria” (p. 238-239).

Que fogo é esse? Esta é a pergunta do profeta. Para Orígenes, em sua interpretação tipológica, Jesus, o Ressuscitado, oferece o verdadeiro sentido desse fogo: “A Palavra quer ser ousada aqui, mas eu não sei para que tipo de público é adequada. Ele disse que existe certa forma de fogo, um fogo imperceptível, que pune o pecador com uma dor que ele não pode suportar, porque disse: ‘Senti, então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo: desfaleci, sem forças para suportar’. Temo que tal é o que nos espera, um fogo que surge como surgiu no coração de Jeremias, porém não o sofremos. Se o tivéssemos sofrido – e dois fogos foram acesos, este fogo e o fogo externo, que vemos naqueles que são queimados pelos governadores das nações – preferiríamos aquele fogo a este. Pois o primeiro queima a superfície, contudo o último queima o coração, e o que começa no coração chega a todos os ossos, e o que chega aos ossos chega onde o homem inteiro está queimado, e isso acontece de tal maneira que ele não consegue suportar a queimadura. Quem pode dizer, em relação a este incêndio, que não posso suportá-lo? Conheço ladrões que conseguem suportar este fogo, a dor que vem deste fogo. A dor do fogo descrita por Jeremias é de um tipo diferente, pois ele diz: ‘Senti, então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo: desfaleci, sem forças para suportar’. Esse é o fogo que o Salvador acende quando diz: ‘Eu vim lançar fogo sobre a terra’ (Lc 12,49); e o Salvador acende esse fogo, ele começa com fogo naqueles que começam a ouvi-Lo e lança primeiramente o fogo sobre seus corações. Isso é o que Simão e Cleofas confessam quando falam sobre suas palavras: ‘Não estavam nossos corações ardendo no caminho enquanto ele abria as Escrituras para nós?’ (Lc 24,32). Portanto, os corações de Simão e Cleofas queimaram como fogo. Ouvi seu testemunho: ‘Não ardiam nossos corações?’” (p. 239).

Se seguirmos a leitura do profeta até o versículo 10, entenderemos a opção de Orígenes a respeito da tradução do verbo hebraico do versículo 7, citada no início destas reflexões: “‘Senti, então, dentro de mim um fogo ardente a penetrar-me o corpo todo: desfaleci, sem forças para suportar, pois ouvi a reprovação de muitos que se reuniram ao meu redor’ (Jr 20,9-10). Ó irrepreensível, ó abençoado Jeremias – exceto, eu diria, este pequeno pecado e se ele cometeu algum outro pequeno pecado – repreendido por muitos, mas a reprovação de muitos foi para ele um hino diante de Deus. Pois aqueles que o repreendiam diziam: ‘Tu conspiraste e nós, todos os teus amigos, conspiramos. Observa sua intenção e ele será enganado’ (Jr 20,10). Eles planejaram outro engano para enganá-lo mortalmente, um engano oposto ao engano sobre o qual ele disse: ‘Tu me enganaste, Senhor, e me deixei enganar’ (Jr 20,7). Mas aqueles que conspiram contra ele dizem: ‘E nós o dominaremos e nós nos vingaremos dele’ (Jr 20,10)” (p. 240).

Orígenes revela-nos, pois, a unidade espiritual da experiência de Jeremias. Seduzido por Deus, o profeta é ridicularizado pelos homens; ridicularizado, deseja calar-se; ao tentar fazê-lo, descobre que a Palavra se tornou fogo dentro dele. O sofrimento não destrói sua vocação, mas manifesta a força da Palavra que o possui. Esse fogo encontra, para Orígenes, sua plena significação em Cristo: “Eu vim lançar fogo sobre a terra” (Lc 12,49). É também o fogo que arde no coração dos discípulos de Emaús quando o Ressuscitado lhes abre as Escrituras (Lc 24,32). Jeremias torna-se, desse modo, figura daquele que não apenas escuta a Palavra, mas se deixa interiormente consumir por ela.

Completa-se, então, o itinerário: da sedução divina à irrisão humana, da irrisão ao fogo e do fogo à glória. A censura dos homens converte-se paradoxalmente em prêmio diante de Deus, pois, como afirma Orígenes, “a reprovação de muitos foi para ele um hino diante de Deus” (p. 240). A glória do profeta não consiste em evitar o sofrimento, mas em permanecer fiel à Palavra que o seduziu. O que para os homens é motivo de chacota torna-se, diante de Deus, testemunho de fidelidade.

Carlos Frederico Calvet da Silveira Professor da Universidade Católica de Petrópolis e da PUC-Rio.

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