Cardeal Tempesta cria pastoral pioneira para missionários digitais na Arquidiocese do Rio

A Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro deu um novo passo em sua presença evangelizadora no ambiente digital com a criação canônica da Pastoral dos Missionários Digitais (Pamidi). Instituída por decreto do arcebispo metropolitano, Cardeal Orani João Tempesta, no dia 14 de agosto de 2026, a nova pastoral nasce com a missão de acolher, acompanhar, formar e integrar à vida da Igreja aqueles que anunciam a fé e testemunham sua identidade católica nas redes sociais e em outras plataformas digitais.

A iniciativa consolida um caminho iniciado na Arquidiocese do Rio em 2024 e coloca a Igreja do Rio de Janeiro entre as pioneiras no mundo na busca por uma estrutura pastoral especificamente dedicada aos missionários digitais e influenciadores católicos.

O decreto assinado por Dom Orani insere a nova pastoral na estrutura arquidiocesana e estabelece sua vinculação ao Vicariato Episcopal para a Comunicação Social, determinando que a Pamidi atue em comunhão com o Vicariato Episcopal de Pastoral, a Pastoral da Comunicação (Pascom), o Conselho Missionário Diocesano (Comidi) e os demais organismos e pastorais arquidiocesanas.

A criação da pastoral responde a uma realidade que vem recebendo atenção crescente da Igreja: o ambiente digital não apenas como instrumento de comunicação, mas como espaço onde as pessoas se encontram, estabelecem relações, expressam suas convicções e também vivem e compartilham a fé. O Documento Final da XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos pede que aqueles que atuam como missionários digitais recebam reconhecimento, formação e acompanhamento por parte das Igrejas locais.

Uma trajetória pioneira na evangelização digital

O diácono Alexandre Varela, que iniciou e acompanha o processo de implantação da Pamidi, explica que essa compreensão é fundamental para entender a proposta. Missionário digital há 15 anos, ele desenvolve, ao lado da esposa, Viviane Varela, o projeto “O Catequista”, uma das iniciativas pioneiras de evangelização católica nas redes sociais no Brasil.

“Eu sou missionário digital há 15 anos. Eu fui o primeiro do Brasil. Quando começamos, junto com a minha esposa Viviane, ninguém fazia isso. O máximo que você tinha eram sites com conteúdo católico”, recorda Alexandre.

Ao longo desse período, o trabalho desenvolvido pelo casal acompanhou as profundas transformações na comunicação digital e nas próprias formas de presença da Igreja nesse ambiente. O projeto “O Catequista” nasceu com a proposta de oferecer formação católica e utilizar uma linguagem adequada às novas plataformas, sem substituir a experiência comunitária e sacramental.

A experiência do diácono também passou a integrar um movimento mais amplo de aproximação da Santa Sé com os evangelizadores presentes na internet. Segundo o diácono Varela, há cerca de três anos ele recebeu um pedido para colaborar na identificação e aproximação de outros missionários digitais, em uma iniciativa que teve, inicialmente, entre suas finalidades promover a escuta das pessoas presentes no ambiente digital durante o processo sinodal.

Essa experiência contribuiu para que a missão digital fosse progressivamente incorporada às reflexões da Igreja. Para o diácono Varela, uma das grandes mudanças está justamente no reconhecimento de que a internet não deve ser compreendida apenas como ferramenta para transmitir mensagens religiosas.

“Nós estamos entendendo, ajudando a Igreja a entender como lidar com o mundo digital. Veja, não é lidar com a internet, porque a internet é um meio de comunicação. Mas é entender como lidar com o mundo digital. Esse mundo que foi criado dentro da internet, que existe, onde as pessoas têm presença, onde as pessoas se expressam”, afirma.

Encontros e aproximação com a Santa Sé

Esse caminho teve momentos importantes de encontro e articulação. Em 2024, o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida recebeu missionários digitais e influenciadores católicos, com a participação de monsenhor Lucio Ruiz, então secretário do Dicastério para a Comunicação da Santa Sé.

No ano seguinte, o diácono Varela participou, em Roma, do Jubileu dos Missionários Digitais e Influenciadores Católicos, realizado nos dias 28 e 29 de julho de 2025. O encontro, organizado pelo Dicastério para a Comunicação, reuniu evangelizadores que atuam no ambiente digital e reforçou o reconhecimento eclesial dessa missão.

Foi nesse contexto que ganhou força a proposta de desenvolver um acompanhamento em nível local. o diácono Varela relata que monsenhor Lucio Ruiz lhe apresentou, no final de 2024, a necessidade de uma iniciativa diocesana capaz de oferecer maior proximidade pastoral aos missionários digitais. A ideia foi então levada ao arcebispo do Rio.

“Marcamos uma reunião com Dom Orani, e ele topou na hora, imediatamente. E aí começamos as reuniões”, conta o diácono.

O apoio de Dom Orani não ficou restrito à aprovação da proposta. O arcebispo acompanhou pessoalmente etapas do processo de discernimento e participou de reuniões com os missionários digitais.

ArqRio Digital e o período de escuta

O primeiro movimento para reunir esses evangelizadores na Arquidiocese do Rio ocorreu no final de 2024, com o ArqRio Digital. A proposta era identificar e aproximar pessoas do Rio de Janeiro que já realizavam algum trabalho de evangelização ou testemunho católico nas redes sociais.

Cerca de 80 pessoas participaram do encontro inicial. Na ocasião, os participantes também estiveram com Dom Orani na Catedral Metropolitana, onde receberam sua bênção.

A partir daquele encontro, começou um período de aproximadamente um ano de convivência, reuniões, escuta e discernimento. Os encontros virtuais ocorreram, em média, a cada dois meses, alguns deles com a participação do próprio arcebispo. Antes de estabelecer regras ou formalizar uma estrutura, o grupo procurou compreender as necessidades concretas daqueles que já desenvolviam a missão no ambiente digital.

“Foi um ano de reuniões, escuta e convivência. Fazíamos as reuniões virtuais, mais ou menos de dois em dois meses, com a presença do próprio Dom Orani, que queria estar nas reuniões. Então, o nosso pastor estava ali também”, relata.

Segundo o diácono, a iniciativa da Arquidiocese do Rio foi a primeira experiência pastoral local voltada especificamente ao acompanhamento dos missionários digitais a iniciar seu processo de organização, embora a Arquidiocese de Monterrey, no México, tenha percorrido um caminho mais rápido até sua formalização.

“Nosso trabalho foi o primeiro que começou no mundo inteiro. Nós fomos a primeira iniciativa pastoral para missionários digitais no mundo. Só que o México teve um caminho mais curto e eles criaram a pastoral mais rapidamente. Nós, primeiro, tivemos um tempo de escuta para depois criar a pastoral”, explica.

Os três pilares da Pamidi

Da experiência vivida no Rio surgiram três pilares que passam a orientar a Pamidi: pastorear as pessoas, apoiar o trabalho dos evangelizadores digitais e promover sua inserção e reconhecimento dentro da própria estrutura eclesial.

O primeiro pilar parte de uma escolha fundamental: antes de considerar números de seguidores, alcance, engajamento ou desempenho de um perfil, a pastoral pretende olhar para a pessoa que está por trás dele.

“O primeiro pilar é o pastoreio. Então, o primeiro pilar não é olhar para o perfil da internet dessa pessoa. É olhar para a pessoa. Então, quem é que está por trás dos perfis?”, explica.

Esse acompanhamento deve envolver formação religiosa e técnica, direção espiritual, fraternidade e apoio diante das dificuldades próprias da exposição pública. A implantação da pastoral resume a concepção ao afirmar que “a lógica não é instrumentalizá-los, mas pastoreá-los” e que a Igreja local é chamada a “cuidar de quem cuida de tantos”.

O segundo pilar é o apoio institucional. A intenção é aproximar os missionários digitais das fontes oficiais da Igreja, criando canais que lhes permitam buscar informações seguras sobre questões doutrinais, pastorais e institucionais. A preocupação torna-se especialmente relevante diante da velocidade com que informações, interpretações e notícias circulam nas redes sociais.

Para o diácono Varela, a Arquidiocese do Rio pode oferecer aos missionários uma referência confiável para que os conteúdos compartilhados estejam fundamentados em informações corretas e, dessa forma, contribuam também para o enfrentamento da desinformação e das notícias falsas relacionadas à Igreja.

“A ideia é dar apoio institucional para que esses perfis possam beber de fontes seguras”, explica. “É importante que a Arquidiocese do Rio de Janeiro crie mecanismos, crie maneiras dessas pessoas poderem consultar uma base de informações seguras para elas entenderem o que de fato aconteceu, qual é a verdade, o que a Igreja fala sobre o tema.”

O terceiro pilar volta o olhar para dentro da própria Igreja. A proposta é ajudar o clero, os religiosos, as lideranças pastorais e os organismos eclesiais a compreender melhor quem são os missionários digitais e influenciadores católicos e de que forma podem colaborar com a missão evangelizadora.

“O terceiro pilar é conscientizar a Igreja, o clero e os fiéis de que os influenciadores católicos têm seu lugar, têm seu trabalho e são importantes”, afirma.

Nesse aspecto, a pastoral pretende também colaborar para superar uma visão que coloca o influenciador simplesmente como integrante do público comum ou como profissional de imprensa. Embora possa alcançar milhares ou milhões de pessoas e contribuir para ampliar a divulgação de eventos e iniciativas eclesiais, o missionário digital possui características próprias. Reconhecer essa especificidade permitirá criar formas mais adequadas de acolhimento e participação nas atividades da Igreja.

A proposta apresentada à Arquidiocese observa que grandes eventos da sociedade já criaram espaços e formas específicas de relacionamento com influenciadores, reconhecendo que eles não se enquadram inteiramente nem no público geral nem na imprensa tradicional. A Pamidi pretende ajudar a Igreja a realizar esse mesmo discernimento em seus eventos e estruturas.

Missionários digitais e influenciadores católicos

A pastoral não estabelece como ponto de partida critérios relacionados à popularidade. A proposta é acolher missionários digitais e influenciadores católicos independentemente do tamanho de seus perfis, do número de seguidores, do alcance ou do tipo de conteúdo. O discernimento posterior deverá acontecer em comunhão com a Igreja, levando em consideração a realidade e a vocação de cada pessoa.

O diácono Varela explica que a Igreja trabalha hoje com duas realidades próximas, mas distintas. O missionário digital é aquele que utiliza sua presença na internet para falar explicitamente da fé, da doutrina, da catequese e da vida da Igreja. Já o influenciador católico pode produzir conteúdo sobre medicina, direito, cultura, educação ou qualquer outro tema, mas assume publicamente sua identidade católica e permite que essa visão de mundo esteja presente em sua atuação.

“A Pastoral dos Missionários Digitais é uma iniciativa local para pastorear, literalmente, aquilo que a Igreja sempre faz: acompanhar aquelas pessoas que têm uma presença na internet se colocando, se posicionando como católicas”, resume.

Uma nova etapa

Ao lado de Viviane, o diácono Varela completou, no dia 5 de agosto de 2026, 15 anos de atuação como evangelizador no ambiente digital. Além da experiência nas redes, o diácono tem acompanhado iniciativas nacionais e internacionais relacionadas à missão digital e participou do Jubileu realizado em Roma em 2025, a convite do Dicastério para a Comunicação da Santa Sé.

Com a promulgação do decreto de 14 de agosto, o caminho de escuta e experimentação iniciado em 2024 passa a contar com reconhecimento canônico e inserção formal na estrutura pastoral da Arquidiocese. A expectativa agora é ampliar o grupo, criar mecanismos de cadastramento dos interessados e aprofundar os processos de formação, acompanhamento espiritual, convivência e integração institucional.

Mais do que organizar pessoas que produzem conteúdo religioso, a Pamidi nasce da compreensão de que a missão da Igreja precisa alcançar também um ambiente no qual milhões de pessoas passam parte significativa de suas vidas. Como recorda o Diretório para a Catequese, citado no subsídio de implantação, “a verdadeira questão não é como utilizar as novas tecnologias para evangelizar, mas sim como se tornar uma presença evangelizadora no continente digital”.

Para o diácono Varela, esse processo ainda está sendo construído e exige abertura para aprender com uma realidade nova. “A gente está literalmente escrevendo a história”, afirma.

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