Agostinho: a destra do Senhor

Santo Agostinho, em seu sermão sobre o Salmo 117, dedica especial atenção ao tema da destra do Senhor como chave cristológica e eclesiológica do mistério pascal. Longe de se tratar de mera metáfora antropomórfica, a “destra” é interpretada por Agostinho como o próprio Cristo, mediador da ação salvífica divina na história. Tal identificação permite compreender a unidade entre o evento pascal, a exaltação do humilde e a constituição do povo de Deus como corpo de Cristo, no interior de uma economia marcada simultaneamente pela humilhação e pela glória.

A estrutura retórica do comentário agostiniano, caracterizada pela repetição enfática, pela negação do protagonismo humano e pela atribuição integral da obra salvífica à ação divina, é uma estratégia não apenas estilística, mas doutrinal. Ela visa afirmar a primazia da graça, ao mesmo tempo em que reconstrói o sentido da história da Igreja como participação na Páscoa de Cristo. O simbolismo das “portas da justiça” e da “pedra angular” são elementos que permitem ao bispo de Hipona integrar a tradição salmódica com a leitura cristológica do Novo Testamento. Assim, o percurso do texto acompanha um movimento que vai da tribulação à exaltação, da peregrinação à entrada na casa de Deus, da palavra à caridade silenciosa que louva.

Este primeiro movimento do comentário estabelece o princípio fundamental da ação salvífica como obra exclusiva da destra do Senhor, excluindo toda pretensão de autossuficiência humana: “‘A destra do Senhor realizou prodígios’. Quais? ‘A destra do Senhor me exaltou’. É grande prodígio exaltar o humilde, deificar o mortal, tirar perfeição da fraqueza, da sujeição glória, da paixão vitória, dar auxílio na tribulação de tal modo que se revela aos aflitos a verdadeira salvação de Deus, enquanto continua a ser vã a salvação que o homem proporciona para os que o afligem. Grandes prodígios! Mas, que há de espantoso nisso? Escuta o que repete o salmo. Não foi o homem que se exaltou, nem o homem que se aperfeiçoou, nem o homem que obteve glória para si mesmo, nem o homem que venceu, nem o homem que foi sua própria salvação: ‘A destra do Senhor realizou prodígios’” (Agostinho. ‘Comentário aos Salmos’: Salmos 101-150. São Paulo: Paulus, 1998).

A partir dessa primazia divina, o texto mostra como a vitória de Cristo se manifesta paradoxalmente na vida da Igreja perseguida e no testemunho dos mártires: “‘Não morrerei; hei de viver e narrar as obras do Senhor’. Ora, os perseguidores, espalhando por toda parte a morte devastadora, julgavam que morria a Igreja de Cristo. Eis que agora narra as obras do Senhor. Por toda parte, Cristo é a glória dos bem-aventurados mártires. Ele venceu açoitando os que feriam, suportando os impacientes, amando os cruéis”.

Segue-se a explicitação do sentido providencial do sofrimento e da correção, interpretados como pedagogia divina ordenada à herança dos filhos: “Entretanto, por que o corpo de Cristo, a santa Igreja, o povo da adoção suportou tantos tratamentos indignos? Indica-nos o motivo. ‘O Senhor me castigou duramente, mas não me entregou à morte’. Os ímpios encolerizados não pensem que tudo foi permitido à sua força; eles não teriam este poder se não lhes tivesse sido dado do alto. Muitas vezes, o pai de família manda que escravos muito maus castiguem seus filhos, embora prepare a estes a herança e a eles os grilhões. Que herança é esta? De ouro, prata, pedras preciosas, terras, amenas propriedades? Considera por onde se entra e conhecerás qual é”.

O comentário introduz então o tema das portas da justiça como figura da entrada na vida de louvor e comunhão com Deus: “‘Abri-me as portas da justiça’. Ouvimos falar em portas. Que existe lá dentro? ‘Entrarei por elas para confessar ao Senhor’. Trata-se da confissão de louvor, ‘admirável, até a casa de Deus, entre gritos de alegria e de louvor, e sons festivos’ (Sl 41,5). Tal é a eterna felicidade dos justos, que faz felizes os que habitam na casa de Deus, os que o louvam pelos séculos dos séculos (Sl 83,5)”.

Essa imagem é aprofundada mediante a distinção entre justos e injustos, sublinhando a condição moral e espiritual requerida para o acesso à Jerusalém celeste: “Mas vê como se entra pelas portas da justiça. ‘Estas são as portas do Senhor, os justos por elas entrarão’. Ao menos por estas nenhum injusto penetra naquela Jerusalém que não encerra incircuncisos. Lá se diz: ‘Fora os cães’ (Ap 22,15). Baste que, em minha peregrinação que muito se prolongou, ‘habitei nas tendas de Cedar, e com os que odeiam a paz fui pacífico’ (Sl 119,5.6). Suportei até o fim a mistura com os maus, mas ‘estas são as portas do Senhor, os justos por elas entrarão’”.

Neste ponto, a noção de confissão é reinterpretada como louvor, centrando-se na identificação de Cristo como a pedra angular da reconciliação universal: “‘Eu te confessarei, Senhor, porque me ouviste e foste a minha salvação’. Com grande frequência demonstra-se que esta confissão é de louvor; não se mostram aí as feridas ao médico, mas dá-se graças pela saúde recuperada. Ora, o próprio médico é a salvação. Mas, quem é ele? ‘A pedra que os construtores rejeitaram, pois ela tornou-se a pedra angular’, de ambos os povos fazendo um só, ‘a fim de criar em si mesmo um só homem novo, estabelecendo a paz e de reconciliar a ambos com Deus em um só corpo, isto é, circuncisos e incircuncisos’ (Ef 2,15)”.

A reflexão prossegue esclarecendo o paradoxo da rejeição e da exaltação da pedra angular, obra escondida da ação divina: “‘Foi o Senhor quem assim o fez’, isto é, o Senhor o fez à pedra angular. Não teria sido feito se ele não tivesse sofrido, mas não foi realizado por aqueles que o fizeram sofrer. Pois, aqueles que edificavam a rejeitaram; mas, como o Senhor ocultamente construía, transformou em pedra angular aquele que eles rejeitaram. ‘E é maravilhoso aos nossos olhos’, aos olhos do homem interior, aos olhos dos que creem, esperam, amam; não aos olhos carnais dos que o rejeitaram, desprezando-o como se fosse apenas um homem.

O texto alcança então a dimensão temporal especial da salvação ao interpretar o “dia do Senhor” como o tempo favorável inaugurado pela mediação de Cristo: “‘Este é o dia que o Senhor fez’. Lembra-se este homem de ter dito num salmo anterior: ‘Porque inclinou para mim o seu ouvido, nos meus dias em que o invoquei’ (Sl 114,2); chama seus dias os dias de outrora. Por isso, diz agora: ‘Este é o dia que o Senhor fez’, isto é, em que me deu a salvação. Deste dia ele declarou: ‘No tempo favorável eu te ouvi, no dia da salvação te socorri’ (Is 49,8), isto é, no dia em que Cristo mediador se tornou a pedra angular. Por este motivo, ‘nele exultemos e nos alegremos’. ‘Ó Senhor, dá-me a salvação; ó Senhor, dá-nos um próspero caminho’”.

Em seguida, desenvolve-se o contraste entre aquele que vem em nome do Senhor e aquele que vem em seu próprio nome: “‘Bendito o que vem em nome do Senhor’. Maldito, portanto, o que vem em seu próprio nome, conforme a palavra do evangelho: ‘Vim em nome de meu Pai, mas não me acolheis; se alguém viesse em seu próprio nome, vós o receberíeis’ (Jo 5,43). ‘Nós vos bendizemos da casa do Senhor’. Creio que esta palavra é dirigida pelos grandes aos pequenos, aqueles grandes que espiritualmente atingem, quanto é possível nesta vida, o Verbo de Deus junto de Deus; contudo, moderam a palavra por causa dos pequenos, de sorte a poderem sinceramente falar como o Apóstolo: ‘Se nos deixamos arrebatar como para fora do bom senso, foi por causa de Deus; se somos sensatos, é por causa de vós. Pois a caridade de Cristo nos compele’ (2Cor 5,13-14). Eles bendizem os pequenos do interior da casa do Senhor, onde o seu louvor não se cala pelos séculos dos séculos; por isso, vede o que eles de lá anunciam”.

A exposição encerra-se retomando o louvor como princípio e termo da vida cristã: “E que cantaremos ali a não ser os seus louvores? Que diremos senão: ‘Tu és o meu Deus e eu te confessarei; és o meu Deus e eu te exaltarei. Eu te confessarei, Senhor, porque me ouviste e foste a minha salvação?’ Não o diremos com o ruído das palavras, mas a caridade que adere ao Senhor por si mesma assim clama; o próprio amor constitui esta voz. Por isso, como o salmista começou com o louvor, assim termina: ‘Confessai ao Senhor, porque ele é bom, porque sua misericórdia perdura pelos séculos’. Deste modo começou o salmo, e igualmente aqui termina. Como no início de onde partimos, assim no final aonde voltamos, nada há que nos deleite de maneira mais salutar do que o louvor de Deus, e sempre ‘Aleluia’”.

O sermão de Agostinho sobre o Salmo 117 permitiu evidenciar a densidade teológica e retórica de sua interpretação, centrada na identificação da destra do Senhor com Cristo enquanto princípio ativo da salvação. Contra toda forma de autossuficiência humana, o texto insiste na absoluta prioridade da ação divina: não é o homem que se exalta, que se salva ou que triunfa, mas é Deus quem opera tudo no homem. Esta inversão retórica constitui, ao mesmo tempo, uma afirmação dogmática da graça e uma pedagogia espiritual que reorienta o olhar do fiel. A perseguição, o sofrimento e a correção não são sinais de abandono, mas momentos de uma economia providencial que prepara a herança dos filhos. A imagem do pai que corrige por meio de servos maus, enquanto reserva a herança aos seus, sintetiza com precisão essa tensão entre disciplina e promessa. Assim, a Igreja, corpo de Cristo, participa da mesma dinâmica pascal: humilhação e exaltação, cruz e glória.

 

Carlos Frederico Calvet da Silveira – Professor da Universidade Católica de Petrópolis e da PUC-Rio

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