Introdução
A presente reflexão mergulha em um dos pilares da fé cristã: a descoberta do túmulo vazio por Maria de Magdala, evento que desencadeou a corrida de dois discípulos ao sepulcro: Simão Pedro e o discípulo amado. Este episódio, longe de ser um mero registro histórico de um fato, é um vibrante convite à busca pessoal e ao encontro transformador com Jesus Cristo Ressuscitado no âmago de nossas próprias existências. Ao contemplarmos a reação desses dois discípulos, diante da ausência do corpo de Jesus, somos impulsionados a questionar nossa própria fé e a intensidade do nosso desejo por um encontro vivo com o Ressuscitado.
Texto
1No primeiro dia da semana, Maria de Magdala foi ao sepulcro ao amanhecer, mas ainda estava escuro, e viu que a pedra fora removida do sepulcro. 2Correu então e foi a Simão Pedro e ao outro discípulo, aquele que Jesus amava, e disse-lhes: “Levaram o Senhor do sepulcro, e não sabemos onde o puseram”. 3Partiram, pois, Pedro e o outro discípulo, e foram para o sepulcro. 4Corriam os dois juntos, mas o outro discípulo correu mais depressa que Pedro e chegou primeiro ao sepulcro. 5Inclinando-se, viu os lençóis ali postos; todavia, não entrou. 6Chegou também Simão Pedro, que o seguia, e entrou no sepulcro; viu os lençóis ali postos 7e o sudário que estivera sobre a cabeça de Jesus, não posto com os lençóis, mas enrolado em um lugar à parte. 8Então entrou também o outro discípulo, que chegara primeiro ao sepulcro: viu e creu. 9Pois ainda não entendiam a Escritura, que era necessário que ele ressuscitasse dentre os mortos.
O que diz o texto?
Além do evangelista, apenas Maria de Magdala fala no texto em nome do seu grupo de mulheres: “não sabemos” (v. 2). Não impressiona que o evangelista não tenha cedido voz aos dois discípulos, pois, diante de tão grande mistério, o silêncio se torna voz eloquente. O evangelista narra um evento de grandes e impactantes proporções. É a manhã do primeiro dia da semana, isto é, o domingo da ressurreição.
É preciso notar que os verbos são atribuídos a Maria: “foi”; “viu”; “correu”; “disse-lhes”. Pela sua fala, sabemos que não estava sozinha: “não sabemos onde o puseram”. Nada se diz sobre quem seriam. Mt 28,1 afirma que Maria de Magdala foi com “outra Maria” ver o sepulcro. Mc 16,1 afirma que Maria de Magdala, Maria de Tiago e Salomé compraram aromas para ungir Jesus. Lc 24,10 afirma que as mulheres que foram ao sepulcro eram Maria de Magdala, Joana e Maria, de Tiago, e outras que estavam com elas.
O preceito do sábado foi respeitado, pois se diz que Maria de Magdala foi ao sepulcro quando ainda estava escuro. Apenas com a aurora tinha início o novo dia. A primeira coisa que viu foi a pedra do sepulcro removida. Por um lado, a referência ao “ainda estava escuro” pode simbolizar a mente ainda obscurecida pela dor da perda e pela incerteza do futuro. Por outro lado, a pedra removida prenuncia a vitória sobre essa triste condição e sobre a perspectiva da vitória da vida sobre a morte.
O que viu perturbou e angustiou. Correu e foi ao encontro de Simão Pedro e do discípulo amado para comunicar o estarrecedor e inexplicável. A preocupação de Maria de Magdala, de quem com ela estava e, por conseguinte, desses dois discípulos não tem a ver, nesse momento, com a fé na ressurreição, mas com o medo de que o sepulcro tivesse sido profanado e o corpo de Jesus tivesse sido roubado.
A ida apressada de Simão Pedro e do outro discípulo ao sepulcro serve tanto para se certificarem do fato como para verificarem se conseguiriam identificar quem teria feito tamanha violação. Afinal de contas, o corpo de um morto pesa e não é fácil de ser transportado sem chamar a atenção. Se considerarmos que guardas ficaram vigiando o sepulcro, o fato ganha proporções ainda maiores, pois se fala que os discípulos poderiam roubar o corpo de Jesus (Mt 27,62-66; 28,11-15: dado singular de Mateus). É possível ainda cogitar que a pressa tem a ver, igualmente, com o desejo de encontrar, caso houvesse de fato uma profanação, onde tivessem depositado o corpo, pois condiz com a notícia dada: “não sabemos onde o puseram” (v. 2).
O detalhe da corrida em desvantagem para Simão Pedro, além da possível diferença de idade em relação ao outro discípulo, pode também ser uma indicação do tempo que cada um teria levado para crer na possibilidade de não ter ocorrido um roubo, mas a ressurreição. Esta hipótese encontraria certa base nas ações que são descritas a seguir. Quem chegou primeiro não entrou, mas aguardou Simão Pedro. Contudo, está dito que “inclinando-se, viu os lençóis ali postos” (v. 5).
É preciso lembrar que, segundo Dt 17,6; 19,15, a validade de um testemunho exigia a palavra de duas ou três pessoas. Talvez, por isso, o evangelista tenha acrescentado a referência no plural: “não sabemos onde o puseram”. Se testemunhas foram a base da condenação de Jesus, de igual modo serão a base da validade da sua ressurreição. A fé ávida e intuitiva do discípulo amado esbarra na sua hesitação em não entrar no sepulcro, por respeito ao lugar ou pela dúvida diante do fato desconhecido.
Simão Pedro, ao chegar, foi o primeiro a entrar no sepulcro e constatar os detalhes descritos que só uma testemunha ocular poderia oferecer: “viu os lençóis ali postos e o sudário que estivera sobre a cabeça de Jesus, não posto com os lençóis, mas enrolado em um lugar à parte” (vv. 6-7). A perspicácia dos detalhes se aproxima da análise forense de um especialista, servindo como evidência silenciosa e eloquente. Assim, o modo como tudo foi encontrado descarta a hipótese de o corpo ter sido roubado às pressas.
Nada se diz sobre a reação de Simão Pedro. Contudo, o outro discípulo, ao entrar, “viu e creu” (v. 8). Ações que antecipam a fala de Jesus sobre as atitudes de Tomé, que quis ver e tocar nas chagas para crer (Jo 20,25). Quem viu além das aparências e creu fez jus ao título de “discípulo amado”. Aqui, talvez, se entenda a sua capacidade de correr mais rápido e de respeitar a autoridade de Simão Pedro.
A notícia dada no v. 9, aplicada aos dois discípulos é, de certa forma, o ponto alto da narrativa, pois exige fé para acreditar e interpretar o que foi visto: os sinais da ressurreição de Jesus. Fé e razão se encontram e não se excluem. A constatação de que “ainda não entendiam a Escritura” atesta a dificuldade em admitir, mais que a morte, a necessidade da ressurreição como confirmação das palavras de Jesus.
O relato, iniciado com as ações de Maria de Magdala, evidencia a importância de seu papel como a primeira anunciadora do fato, junto das outras que com ela estavam. Daqui resulta a futura base para o título que recebeu: “Apóstola dos Apóstolos” (Tomás de Aquino; São João Paulo II e Papa Francisco).
Que propostas o texto faz ao leitor?
Este relato bíblico ecoa através dos séculos, lança um convite pessoal e profundo para cada cristão. Primeiro, nos convida a buscar Jesus com um coração aberto e sincero. A busca de Maria de Magdala, movida tanto por um amor profundo como pela dor da perda, serve como um modelo para apurar nossas motivações espirituais. Como ela procurou Jesus, com desejo genuíno de saber o que havia acontecido, somos chamados a cultivar em nós uma intensa sede de Deus, ânsia por encontrá-Lo vivo em nossas vidas.
Simão Pedro e o discípulo amado também nos interpelam. Se existe uma corrida legítima na vida cristã, é a de buscar Jesus Ressuscitado, não para evidenciar rivalidades, mas para demonstrar um fervoroso desejo de se aproximar d’Ele, de o encontrar para comunicá-Lo a quem não o conhece ou dele se afastou. É uma corrida que revela diligência espiritual e vence a procrastinação da nossa busca pelo sentido da vida.
O relato também nos diz que é possível crer, mesmo sem entender o fato. A fé do discípulo amado, que brota da visão do túmulo vazio antes mesmo de compreender as Escrituras, é um forte exemplo. Somos desafiados a crer em mistérios que transcendem a lógica da razão humana e da ciência. A fé, nesse sentido, não é um salto no escuro, mas é um abandono confiante na existência de Deus e do seu agir, mesmo quando as evidências dizem o contrário. Só o amor impulsiona a crer diante do medo e da dúvida.
Que o texto faz dizer a Deus em oração?
Senhor, nosso Deus, no mistério insondável da ressurreição, reconhecemos que somos limitados diante da profundidade e da incompreensão desse evento central da nossa vida cristã. Ilumina nossa mente e nossos corações com a luz da fé, para crer no que transcende a compreensão humana. Dá-nos a graça de te buscar com o mesmo e intenso amor de Maria de Magdala. Humildemente, louvamos pelo dom da graça e suplicamos ter o desejo ardente de encontrar o teu Filho Jesus ressuscitado, movidos pelo amor que eleva e une fé e razão.
Que tenhamos a prontidão de Simão Pedro e do discípulo amado. Concede-nos a diligência e o fervor em nossa busca espiritual. Que possamos, na unção do teu Santo Espírito, crer mesmo sem ver ou compreender, certos de que a fé genuína, que de ti procede, nunca invalidará a razão, teu primeiro dom para cada um de nós. Que saibamos correr ao encontro do teu Filho Jesus ressuscitado, movidos pelo modo de falar e agir, pelo vivo testemunho, diante de nossos irmãos e irmãs, em particular dos mais necessitados que, como nós, também anseiam pela verdade que salva e liberta.
Tudo isto te pedimos em nome do teu Filho Jesus Cristo, que contigo e o Espírito Santo vive e reina, pelos séculos dos séculos. Amém.
Que decisões o texto leva a praticar?
A narrativa da descoberta do túmulo vazio não é apenas um relato para ser contemplado, mas um chamado à ação, impulsionando-nos a tomar decisões práticas baseadas na fé e na razão esclarecida.
Em primeiro lugar, pelo sentido da celebração litúrgica e a exemplo de Maria de Magdala, somos chamados a anunciar a mensagem da Boa Nova da ressurreição de Jesus Cristo. Com a Igreja, reconhecemos o seu papel fundamental como “Apóstola dos Apóstolos”: Enviada aos Enviados.
Em segundo lugar, responder a esse chamado com prontidão, seguindo o exemplo de Simão Pedro e do discípulo amado. Ir ao sepulcro significa verificar, com os próprios olhos, que a morte não tem a última palavra sobre a vida redimida no amor de Jesus Cristo.
Em terceiro lugar, somos chamados a viver esse amor no serviço, seguindo o exemplo de Jesus Cristo dado na Última Ceia, fundamento da vida renovada. Colocar a fé em ação implica em traduzir o amor de Deus em gestos concretos de solidariedade e fraternidade, socorrendo os mais necessitados, promovendo a paz e a justiça que derivam da salvação.
Em quarto lugar, investir mais tempo e esforços na leitura, meditação e aprofundamento das Sagradas Escrituras, a fim de que a compreensão da História da Salvação, cujo clímax é o Mistério da encarnação, vida, morte e ressurreição de Jesus, seja cada vez mais assimilada pela fé e esclarecida pela razão, de modo que o nosso testemunho seja eficaz em todos os ambientes em que transitamos.
Que relações existem com os demais textos da liturgia?
Na 1ª leitura, encontramos o Querigma que Pedro fez a Cornélio, homem piedoso e temente a Deus, e a toda a sua casa. A ênfase recai sobre a fé. Quem acolhe e crê em Jesus, como ungido de Deus, recebe o perdão dos pecados. O anúncio que Pedro profere, antes de falar o já sabido sobre Jesus, introduz um dado novo: Dou-me conta, em verdade, que Deus não faz acepção de pessoas, mas que, em qualquer nação, quem o teme e pratica a justiça, lhe é agradável (At 10,34). É a graça da ressurreição de Jesus Cristo.
No Sl 117(118), o orante atesta a fidelidade de Deus na vida de quem experimenta angústia. De modo particular, se aplica a Jesus, que viveu, como prova de amor, o mistério pascal. O que foi aclamado na sua entrada triunfal em Jerusalém continua ecoando, pois Jesus é o bendito que vem em nome do Senhor; descartado por quem o renegou, tornou-se a pedra angular sobre a qual os fiéis são edificados.
A 2ª leitura orienta a vida nova em Jesus Cristo. Quem ressuscitou com Ele, pelo batismo, se orienta, nesta vida, para onde ascendeu: à direita de Deus. A Páscoa de Jesus Cristo continua na vida da Igreja e opera a salvação em cada fiel. Há uma realidade além desta vida terrena e que está escondida em Deus; uma recompensa para os que vivem em Jesus Cristo: ser revestidos de sua glória na sua Parusia.
Questões para a reflexão pessoal e comunitária
- a) Que equívocos temos cometido na nossa busca por Jesus Cristo, o Ressuscitado?
- b) Que atos de fé não têm sido condizentes com o bom uso da razão?
- c) Temos expressado a fé na ressurreição de Jesus Cristo com gestos de esperança e de caridade?
Considerações finais
Jo 20,1-9 ressoa como uma potente sinfonia de esperança e renovação para todos nós. Através da experiência de Maria de Magdala, das mulheres, de Simão Pedro e do discípulo amado diante do túmulo vazio, somos confrontados com o mistério central da nossa fé e somos chamados: a buscar o Ressuscitado com um coração sincero; a acreditar, mesmo quando a compreensão falha; a partilhar a alegria da ressurreição com o mundo e a refletir o amor e o serviço de Jesus Cristo Salvador por nossos semelhantes.
Padre Leonardo Agostini
Capelão da Igreja do Divino Espírito Santo do Estácio de Sá-RJ
Docente de Sagrada Escritura do Departamento de Teologia da PUC-Rio