Agostinho: Jesus reúne seu rebanho

O Salmo 99 é um dos grandes salmos de louvor da tradição bíblica. Nele, o povo de Deus é convocado a entrar na presença do Senhor com alegria, reconhecendo que pertence Àquele que o criou e o conduz. Ao comentar este salmo, Agostinho declara que não pretende deter-se no sentido imediato das palavras, suficientemente claro para os ouvintes, mas penetrar em seu sentido espiritual. Por trás do convite ao júbilo e ao serviço alegre, o bispo de Hipona contempla o mistério da Igreja reunida por Cristo e conduzida por Ele como um único rebanho.

A imagem do pastor atravessa toda a Escritura, desde os salmos até o Evangelho de João, onde Jesus afirma: “Eu sou o bom pastor” (Jo 10,11). Para Agostinho, o Salmo 99 deve ser lido precisamente à luz desse mistério. O povo que jubila diante do Senhor não é uma multidão dispersa, mas a comunidade daqueles que foram reunidos pelo Pastor divino. O louvor torna-se, assim, o sinal visível da unidade dos fiéis; a alegria manifesta a presença daquele que procurou a ovelha perdida, carregou-a sobre os ombros e a reconduziu ao redil.

Efetivamente, antes de qualquer pensamento, o salmista ensina-nos a louvar o Senhor. E é a terra inteira a louvar, sobretudo a comunidade dos homens, dos crentes. Este início ensina-nos muitas coisas. Ensina-nos que é pelo culto que conhecemos a Deus e pelo culto comunitário: “‘Jubilai, pois, diante do Senhor, terra inteira’. Neste momento, a terra inteira ouve a minha voz? No entanto, a terra inteira ouviu essa voz. A terra inteira jubila diante do Senhor; e a parte que ainda não jubila, jubilará um dia. Estende-se a bênção, a Igreja começa em Jerusalém (cf Lc 24,47), propaga-se por todas as nações, prostra por toda parte a impiedade, estabelece a piedade. Misturam-se bons e maus. Há maus na terra inteira, bons em toda a terra. Nos maus a terra toda murmura, nos bons jubila a terra inteira. Que é jubilar? (…) Encontra-se em outro salmo a expressão: ‘Feliz o povo que entende o júbilo’ (Sl 88,16). Deve ser algo de grandioso, porque torna felizes os que o entendem. O Senhor nosso Deus, que torna felizes os homens, conceda-me entender o que tenho a dizer e vos dê compreender o que ouvis: ‘Feliz o povo que entende o júbilo’. Acorramos, pois, ao encontro desta felicidade. Entendamos o que é jubilar. Não o comecemos antes de haver entendido. O que adianta jubilar, atender ao salmo que diz: ‘jubilai diante do Senhor, terra inteira’ e não entender o que é júbilo, de tal modo que só a voz jubile, não o coração? O entendimento é voz do coração” (Agostinho. ‘Comentário aos Salmos’. Vol 2. São Paulo: Paulus, 2014, p. 662).

Novamente o júbilo, que é um ato de reconhecimento. O jubilar diante de Deus é reconhecer sua obra e a verdade do Seu Ser. Não O podemos conhecer como conhecemos qualquer objeto, igualmente o júbilo só se expande diante de Deus: “‘Jubilai diante do Senhor, terra inteira’. Ouviste o júbilo da terra inteira, se teu júbilo se expande diante do Senhor. Jubila diante do Senhor. Não dividas teu júbilo por este ou aquele objeto. Enfim, as criaturas podem ser descritas de algum modo. Só ele é inefável, ele que ‘disse e tudo foi feito’ (cf Sl 32,9). Disse e fomos feitos; mas nós não podemos dizer o que ele é. Seu Verbo, no qual ele nos criou, é seu Filho para que nós, em nossa fraqueza, de algum modo o exprimíssemos, ele se fez fraco. Podemos pôr o júbilo no lugar da palavra; trocar o verbo por uma palavra, não podemos. ‘Jubilai, pois, diante do Senhor, terra inteira’” (p. 665).

A armagura não é de Deus. A amargura escraviza. A alegria é o modo de servir a Deus. A alegria é liberdade: “‘Servi o Senhor, com alegria’. A servidão é repleta de amargura. Os escravos servem murmurando. Não tenhais medo de servir a este Senhor. Não será com gemido, murmuração, indignação. Ninguém será vendido, pois suavemente fomos resgatados. É enorme felicidade, irmãos, ser escravo nessa grande casa, não obstante os grilhões. Não temas, escravo acorrentado, confessa a teu Senhor. Atribui os grilhões a teus próprios méritos; confessa nas cadeias, se queres que elas se convertam em ornamentos. Não foi em vão (pois a súplica é atendida) que foi dito: ‘Chegue a tua presença o gemido dos cativos’ (Sl 78,11). ‘Servi o Senhor, com alegria’. Perto do Senhor, a escravidão é livre; escravidão livre, porque se serve com caridade, não por necessidade. ‘Vós fostes chamados à liberdade, irmãos. Entretanto, que a liberdade não sirva de pretexto à carne, mas pela caridade, ponde-vos a serviço uns dos outros’ (Gl 5,13). A verdade te fez livre; faça-te escravo a caridade. ‘Se permanecerdes na minha palavra, sereis, em verdade, meus discípulos e conhecereis a verdade e a verdade vos libertará’ (Jo 8,31.32). És simultaneamente servo e livre. Servo enquanto criatura; livre, porque amado por Deus que te fez. Mais livre ainda por amares aquele que te fez. Não sirvas murmurando. A murmuração não te livra de servir; apenas faz com que sirvas mal. És servo do Senhor, liberto do Senhor. Não ambiciones alforria, que te afastaria da casa do Senhor que te liberta” (p. 665).

Saber que o Senhor é Deus, conforme insiste o salmo, é reconhecer sua obra salvífica. E como reconhecê-la? Somente com as palavras que o próprio Senhor revelou, isto é, seus salmos: “‘Sabei que o Senhor é Deus’. Quem não sabe que o Senhor é Deus? O salmo se refere ao Senhor, que os homens julgavam não ser Deus. ‘Sabei que o Senhor é Deus’. Não menosprezeis aquele Senhor. Vós o crucificastes, flagelastes, cobristes de escarros, coroastes de espinhos, vestistes com a veste ignominosa, suspendestes no madeiro, atravessastes com os cravos, feristes com a lança, pusestes guardas em seu sepulcro. Ele é Deus. ‘Sabei que o Senhor é Deus. Ele nos fez e não nós mesmos nos fizemos’. Ele nos fez. ‘Tudo foi feito por meio dele, e sem ele nada foi feito’ (cf Jo 1,3). Por que exultais? De que vos orgulhais? Outro vos criou. Fizeste sofrer vosso criador. E vós vos gabais, gloriais, ensoberbeceis, como se vos tivésseis feito a vós mesmos. É bom para vós que termine sua obra aquele que vos criou. ‘Ele nos fez e não nós mesmos nos fizemos’. Não nos orgulhemos. Recebemos de nosso criador todo bem que possuímos. Conceda-nos o que fizemos em nós e coroe-nos o que ele mesmo fez em nós. ‘Somos povo seu e ovelhas de seu rebanho’. Somos ovelhas e ovelha. As ovelhas constituem uma só ovelha. E que pastor é tão amante quanto nosso pastor? Deixou as noventa e nove ovelhas e foi em busca de uma só, aquela que foi remida com seu sangue. Carrega-a nos ombros e volta (cf Lc 15,4.5). O pastor morreu confiante pela ovelha e tendo ressuscitado a possui. ‘Somos povo seu e ovelhas de seu rebanho’” (p. 670).

Enquanto o saber sobre Deus nos faz conhecer suas obras e esse saber é transitório para nós, o louvor insere-nos na eternidade divina: “‘Louvai o seu nome, porque o Senhor é suave’. Não penseis que ides desfalecer, se louvardes assim. Vosso louvor vos servirá de alimento; à medida que louvardes, adquirireis forças e vos será suave aquele a quem louvais. ‘Louvai o seu nome, porque o Senhor é suave. Sua misericórdia é eterna’. Com a tua libertação não se extinguirá sua misericórdia. Compete a sua misericórdia proteger-te sempre na vida eterna. Portanto, ‘sua misericórdia é eterna e sua verdade se estende de geração em geração. De geração em geração’, isto é, em todas as gerações; ou duas gerações, uma terrena e outra celeste. Aqui na terra é a primeira geração, que gera seres mortais; a outra produz seres eternos. Sua verdade existe aqui e lá. Não se pense que não exista aqui sua verdade. Se aqui não houvesse verdade, não teria dito outro salmo: ‘A verdade germinou da terra’ (Sl 84,14); nem teria afirmado a própria verdade: ‘E eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos’ (Mt 28,20)” (p. 671).

O salmo 99 ensina-nos que o conhecimento de Deus não é tanto um saber, mas uma união de júbilo. Não se trata de dizer que não há verdade, mas que a verdade é eterna, isto é, ultrapassa as verdades que podemos captar, e que captamos de modo transitório. Por isso o louvor: “Jubilai diante do Senhor, ó terra inteira, servi ao Senhor com alegria, ide a ele cantando jubilosos!”, com o qual conhecemos as verdades eternas: “Sabei que o Senhor, só ele, é Deus, Ele mesmo nos fez, e somos seus, nós somos seu povo e seu rebanho. Sim, é bom o Senhor e nosso Deus, sua bondade perdura para sempre, seu amor é fiel eternamente!”, Sl 99. Ou seja, o Senhor congregou suas ovelhas, formou um rebanho, para que ninguém se perdesse e para que todos se encontrassem no seu louvor. Quando não louvamos, quando não vivemos a alegria desta congregação divina, vivemos como ovelhas sem pastor.

O Salmo 99 conduz o fiel a compreender que o centro da vida cristã não é apenas o conhecimento de certas verdades acerca de Deus, mas a participação viva na comunhão daqueles que pertencem ao seu rebanho. O júbilo, tão enfatizado ao longo do comentário, não é mero entusiasmo religioso nem simples manifestação exterior de alegria; é a expressão da alma que reconhece a presença do Senhor e experimenta a bondade daquele que a reuniu com os demais fiéis. Por isso, o louvor ocupa um lugar privilegiado na interpretação agostiniana. Louvar é reconhecer que tudo provém de Deus, que fomos criados por Ele e que somente nele encontramos nossa verdadeira identidade. Aquele que louva deixa de viver fechado em si mesmo para inserir-se no povo de Deus. O júbilo torna-se, assim, a linguagem da Igreja reunida, a voz das ovelhas que reconhecem o Pastor e seguem sua voz.

É precisamente neste ponto que emerge a figura de Cristo como centro do salmo. Quando Agostinho comenta a afirmação: “Somos povo seu e ovelhas de seu rebanho”.  O rebanho encontra sua unidade quando reconhece a voz do Pastor, e o Pastor conduz seu rebanho para que todos, reunidos em uma só alegria, participem eternamente da misericórdia e da verdade de Deus.

Carlos Frederico Calvet da Silveira Professor da Universidade Católica de Petrópolis e da PUC-Rio.

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