As relações diplomáticas entre o Brasil e a Santa Sé completam 200 anos em 2026. Para marcar esse momento histórico, diversas iniciativas estão sendo planejadas em Roma e no Brasil.
Em entrevista exclusiva ao jornal Testemunho de Fé, o embaixador do Brasil junto à Santa Sé, Everton Vieira Vargas, conversou nos estúdios da Rádio Catedral com o padre Jefferson Merighetti, sacerdote da Arquidiocese do Rio de Janeiro e mestre em Arte Sacra pela Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma.
Na conversa, o diplomata explicou a natureza singular do posto que ocupa, os preparativos da efeméride e a importância da cooperação entre Igreja e Estado ao longo da história do Brasil. O encontro aconteceu durante visita oficial do embaixador ao Brasil, que incluiu passagens pelo Rio de Janeiro, encontros com líderes religiosos, entre eles, o arcebispo metropolitano, Cardeal Orani João Tempesta, visitas a universidades e ao monumento do Cristo Redentor. A seguir, os principais trechos da entrevista:
Padre Jefferson Merighetti – O que significa ser embaixador do Brasil junto à Santa Sé?
Everton Vieira Vargas – Essa é uma pergunta que daria quase um programa inteiro! Mas, em resumo, posso dizer que a Santa Sé é o posto mais peculiar no qual um diplomata pode trabalhar, não só para os brasileiros, mas para qualquer país que tenha relações diplomáticas com ela. A Santa Sé é um ente “sui generis” dentro da comunidade internacional: sua vocação é, antes de tudo, espiritual, mas também tem um interesse ativo nas questões sociais e na política internacional.
O embaixador e sua equipe devem observar como a Santa Sé vê o mundo, como se relaciona com o Brasil e vice-versa. O diálogo com bispos, cardeais da Cúria e estudiosos é fundamental para compreender as manifestações que vêm do Vaticano – seja diretamente do Papa, seja das congregações ou outros órgãos da Santa Sé.
Padre Jefferson Merighetti – O senhor poderia explicar a diferença entre Vaticano e Santa Sé?
Everton Vieira Vargas – Claro! O sujeito de direito internacional é a Santa Sé. Já o Vaticano é um território de aproximadamente 44 hectares em Roma, onde estão localizados edifícios importantes da administração da Igreja, como a Basílica e a Praça de São Pedro.
O Estado da Cidade do Vaticano nos moldes de hoje passou a existir formalmente com o Tratado de Latrão de 1929. Mas o correto, em termos diplomáticos, é dizer que o Brasil tem relações com a Santa Sé – embora o uso do termo “Vaticano” seja comum e compreensível.
Padre Jefferson Merighetti – Sua visita ao Brasil tem como foco os preparativos para o bicentenário das relações diplomáticas?
Everton Vieira Vargas – Sim, exatamente. No dia 23 de janeiro de 2026, completam-se 200 anos desde que monsenhor Francisco Corrêa Vidigal, enviado de Dom Pedro I, entregou suas credenciais ao Papa Leão XII. Foi o reconhecimento, pelos Estados Pontifícios, da independência do Brasil – inclusive em questões religiosas, uma vez que o regime do padroado passava do rei de Portugal para o imperador brasileiro.
Padre Jefferson Merighetti – Como será a celebração desse bicentenário?
Everton Vieira Vargas – Vamos abrir as comemorações com uma missa solene na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma. A celebração contará a presença da presidência da CNBB, cardeais e bispos do Brasil, além, esperamos, do Cardeal Pietro Parolin, secretário de Estado do Vaticano.
A parte musical contará com a Camerata Antiqua de Curitiba, e o repertório será de compositores sacros brasileiros, como o carioca padre José Maurício Nunes Garcia.
Padre Jefferson Merighetti – Como foi encontro com o Cardeal Orani Tempesta?
Everton Vieira Vargas – Foi um reencontro muito cordial. Já conhecia Dom Orani antes de minha missão junto à Santa Sé. Conversamos sobre os preparativos do bicentenário. O Rio de Janeiro tem um papel central na história da Igreja no Brasil. Também estive na Biblioteca Nacional, onde vi uma cópia de uma bula do Papa Paulo III, do século XVI, que tratava da liberdade dos povos indígenas – um tema relevante até hoje.
Queremos que essa celebração não fique restrita a Roma. Vamos utilizar os meios tecnológicos para envolver o Brasil inteiro. Que Nossa Senhora Aparecida nos acompanhe, e que saibamos valorizar o legado da Igreja na construção da nossa sociedade.
Padre Jefferson Merighetti – Por que essa aproximação com universidades?
Everton Vieira Vargas – As universidades são centros de produção de conhecimento. Visitei a Pontifícia Universidade Gregoriana, em Roma, e aqui no Brasil estive na Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio), onde me reuni com o padre Anderson Pedroso e com o grupo da Cátedra Padre Antônio Vieira. Estamos propondo um seminário sobre Vieira, que foi um grande pregador, diplomata e pensador. Há muito a se aprofundar sobre sua atuação e legado, inclusive com a colaboração de pesquisadores italianos.
Padre Jefferson Merighetti – Haverá um selo comemorativo?
Everton Vieira Vargas – Sim! Já temos uma identidade gráfica criada pela equipe de design da PUC-Rio, que será transformada em selo oficial. A arte combina as colunas de Bernini, da Praça de São Pedro, com os arcos do Palácio do Itamaraty, em Brasília. A proposta é usá-lo como símbolo visual de todos os eventos do bicentenário.
Padre Jefferson Merighetti – O Cristo Redentor também fará parte dessa celebração?
Everton Vieira Vargas – Sim, estive com o padre Omar Raposo, reitor do Santuário Cristo Redentor, e pedi que no dia 23 de janeiro de 2026 o monumento seja iluminado em homenagem aos 200 anos de relações Brasil–Santa Sé. Ainda vamos definir as cores, mas é uma forma de unir fé, arte e diplomacia.