Brasil recebe pela primeira vez o Congresso Mundial de Médicos Católicos

Com representantes da Arquidiocese do Rio, congresso discutirá fé e os desafios da revolução digital

 

O Brasil sediará, pela primeira vez, o XXVII Congresso Mundial de Médicos Católicos (FIAMC World Congress) e o VI Congresso Brasileiro de Médicos Católicos, um marco histórico para a medicina católica mundial. O encontro acontecerá entre os dias 30 de julho e 1º de agosto de 2026, na Casa de Encontros Dom Luciano Mendes de Almeida, em Brasília (DF), reunindo médicos, estudantes e profissionais da saúde de diversos países para refletir sobre os desafios contemporâneos da prática médica à luz da fé cristã.

Promovido pela Associação Brasileira de Médicos Católicos, em conjunto com a Federação Internacional das Associações Médicas Católicas (FIAMC), sediada em Roma, o congresso terá como tema central “Médicos Católicos entre as revoluções industrial e digital” e será orientado pelo lema “Médicos com alma e ciência com consciência”.

Além do caráter científico e formativo, o congresso recebeu uma importante concessão espiritual da Igreja. A Penitenciária Apostólica da Santa Sé concedeu indulgência plenária aos participantes do evento. Para alcançar essa graça espiritual, os fiéis deverão participar das atividades do congresso e cumprir as condições estabelecidas pela Igreja: confissão sacramental, comunhão eucarística e oração nas intenções do Santo Padre.

Outra demonstração da proximidade da Igreja com o encontro foi o envio da bênção apostólica do Papa Leão XIV aos organizadores e participantes. A notícia foi recebida com grande entusiasmo pela comissão organizadora.

Representando a Arquidiocese de São Sebastião do Rio de Janeiro estará o médico Pedro Spinetti, integrante da coordenação do congresso, ao lado de Dom Antônio Augusto Dias Duarte, monsenhor Aníbal Gil e representantes da Pró-Vida e da Associação Guido Schäffer.

Para Pedro Spinetti, o congresso representa um momento singular para a Igreja e para a medicina católica no continente.

“Recebemos com muita alegria uma grande graça. Primeiro, é a primeira vez que o congresso acontece no nosso país e apenas a segunda vez na América Latina. E ainda receber a bênção do Santo Padre aos participantes e a oportunidade de lucrarmos a indulgência plenária participando do evento e rezando pelo Papa é motivo de muita alegria”, destacou.

O tema escolhido para esta edição propõe uma reflexão sobre os impactos das rápidas transformações tecnológicas na medicina contemporânea, especialmente diante do avanço da inteligência artificial e das novas tecnologias biomédicas.

“O mundo da saúde passa por uma grande revolução, assim como a sociedade em geral, pela introdução cada vez maior das tecnologias biomédicas e, agora, pelo desafio da inteligência artificial. O documento do Papa vem justamente oferecer um norte: a dignidade humana deve estar sempre no centro”, afirmou Pedro Spinetti.

O médico ressaltou ainda que a programação abordará temas relacionados à espiritualidade do profissional de saúde, à presença da Igreja nas instituições hospitalares e de ensino, além da formação das novas gerações de profissionais.

A compreensão da medicina como vocação também estará no centro das reflexões do congresso. Para Spinetti, a fé confere ao exercício profissional uma dimensão que ultrapassa os limites técnicos.

“A nossa profissão é muito mais do que o nosso ganha-pão. Ela é uma vocação, um chamado. O médico e o profissional de saúde católico têm a oportunidade diária de exercer uma obra de misericórdia. Nos nossos pacientes, atendemos o próprio Cristo”, afirmou.

O congresso também discutirá a crescente busca pela humanização da assistência em saúde. De acordo com o médico, a medicina contemporânea tem avançado no conceito de cuidado centrado na pessoa.

“Cada vez mais falamos da medicina centrada no paciente. Precisamos compreender quem é a pessoa que está sob nossos cuidados e não apenas a sua patologia ou doença”, explicou.

Nesse contexto, a presença da família no processo terapêutico ganha destaque. Segundo Spinetti, os hospitais vêm ampliando a participação dos familiares, inclusive em unidades de terapia intensiva.

“Cada vez mais os hospitais entendem a importância da presença da família, flexibilizando horários de visita e permitindo maior permanência dos acompanhantes. Outro aspecto fundamental é a espiritualidade, que se torna uma importante ferramenta de enfrentamento da doença e deve ser valorizada durante a internação”, ressaltou.

O respeito à assistência religiosa nos hospitais também foi destacado pelo especialista, que recordou tratar-se de um direito assegurado ao paciente.

“A assistência religiosa é um direito do paciente previsto nas normas de saúde. Felizmente, temos observado cada vez mais abertura para a presença de ministros religiosos nos hospitais, sempre respeitando os protocolos e as normas das instituições”, observou.

Entre os principais desafios debatidos estará o uso crescente da inteligência artificial na prática médica. Embora reconheça os benefícios tecnológicos, Spinetti alerta para a necessidade de preservar a dimensão humana do cuidado.

“A inteligência artificial já auxilia na elaboração de documentos, laudos e relatórios, facilitando o trabalho do médico. Isso é positivo, porque permite dedicar mais tempo ao paciente. No entanto, preocupam-nos modelos de triagem realizados exclusivamente por inteligência artificial, sem a participação de um profissional humano. Esses são desafios que o futuro já nos apresenta”, afirmou.

Realizado pela primeira vez no Brasil, o XXVII Congresso Mundial de Médicos Católicos pretende fortalecer os laços entre profissionais de diversos países, promover intercâmbio científico e pastoral e reafirmar o compromisso da medicina católica com a defesa da vida, da dignidade humana e da ética cristã diante das profundas transformações do mundo contemporâneo.

Carlos Moioli

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